Carlos Félix pretende que “o público mate uma certa saudade desses tais “tempos áureos” da música na sua sonoridade e estética”, uma observação feita em entrevista ao Infocul, enquanto mencionava três dos seus heróis musicais: Elvis Presley, Frank Sinatra e Johnny Cash.
Assim, é por aqui que começamos por apresentar o entrevistado, Carlos Félix, que interpretou Tony Carreira na série “Tony” da Prime Video (2024) e lança agora o single “Um Amor Assim”.
A acrescentar, o cantor e ator também revelou a importância de Tony Carreira enquanto rodava a série “Tony”, sobre o mesmo, e a saber mais do seu percurso e universo artístico. Ficámos também a conhecer mais sobre as suas motivações para que a música não seja descartável e tenha profundidade e intemporalidade.
Carlos Félix: ” Ter estado com o Tony por perto deixou-me sempre mais confortável”
Como foi interpretar Tony Carreira na série da Amazon Prime/TVI? Um momento de reflexão do estado atual da sua carreira e algo catártico, ou um desafio com muita pressão?
Primeiro que tudo, ter interpretado um protagonista numa série que se previa de grande sucesso, já foi uma enorme responsabilidade, e aliada a essa responsabilidade vem claro um momento de reflexão. Pomos em cima da mesa tudo o que já fizemos, de mais e de menos relevante, e olhamos para o que está prestes a acontecer, no meu caso, com a frieza certa para traduzir esse sentimento de responsabilidade numa vontade grande de trabalhar e fazer bem feito. Eu sabia que este seria o momento em que o grande público iria conhecer o meu trabalho.
A aliar a isso, saber que se vai interpretar a figura de Tony Carreira na história da sua vida, é um privilégio, porque estamos a falar de um artista que não é um artista qualquer. É um artista com um percurso inegável de sucesso, que traz consigo um carinho imensurável de fãs muito fiéis que o acompanham desde o início e por essa razão, sim, foi inevitável não sentir pressão ao longo de todo o processo. Contudo, ter estado com o Tony por perto deixou-me sempre mais confortável e a segurança que ele me deu, aliviou toda a pressão que eu tinha à minha volta.

“Percebi que não se pode ser só artista porque se tem um bocado de talento”
O que aconteceu primeiro, música ou acting?
É curiosa essa pergunta porque eu não sei bem qual delas surgiu primeiro. Eu sou filho único, e então grande parte da minha infância foi passada comigo a entreter-me com a arte: a televisão, o cinema, a música.
E todo o universo artístico sempre me encantou. Lembro-me de ver filmes da Disney e ficar fascinado a imaginar como seria fazer parte daquele universo. Eu entrava nas histórias e sentia muita necessidade de imitar aquelas personagens. Contudo, foi pela música que eu decidi começar. A minha família materna é muito alegre.
A minha avó sempre cantou muito com os netos em festas de família. Ela tem uma voz muito bonita e eu sempre cantei muito com ela. Até que, quando era criança decidi que queria participar num concurso de talentos. Tentei a minha sorte, fui fazer castings, e entrei no programa “Uma Canção para Ti”. Tenho a certeza que foi aí que eu percebi que era isso que eu queria fazer na minha vida. Todo o aparato de um programa de televisão, a adrenalina de um direto… Eu senti tudo isso com 11 anos e posso dizer que me senti como um peixe na água. Foi o primeiro momento da minha vida em que eu senti mesmo “eu pertenço aqui”.
Mais tarde, percebi que não se pode ser só artista porque se tem um bocado de talento. E então, decidi profissionalizar-me, fiz o conservatório de música em Coimbra, mais tarde começo a fazer teatro, workshops de representação e de repente vi na minha vida estas duas pistas a correr em paralelo, até hoje.
“Há muito trabalho que é feito antes das pessoas verem o resultado final, e a partir do momento em que o mesmo é apresentado ao público, este passa a ser deles”
Como se prepara para um papel e para uma atuação em palco? Tem convergências na preparação ou a diferença das artes faz os rituais pré-arte diferentes?
A preparação é muito semelhante nas duas, pelo menos segundo o meu método. Cada ator e cantor terá o seu. Tanto no trabalho de criar e representar personagens, como no trabalho enquanto músico, não há fórmulas, e isso é o que mais me agrada nas áreas artísticas. Cada trabalho é um trabalho e depende muito do objeto artístico em questão.
Mas as duas artes vivem muito do instinto e do impulso. E ambas têm um ponto em comum. O trabalho. Não há como interpretar uma personagem como, no meu caso, a figura de Tony Carreira, sem se conhecer melhor o Tony do que quase o próprio Tony. É levar o trabalho a um nível extremo. Ver tudo o que há para ver, sejam concertos, entrevistas, ouvir as músicas, decifrar as histórias das letras, falar com a família, observar e absorver. É entrar naquela que, não sendo, passa a ser a minha realidade. Já com a música é um trabalho muito mais introspectivo e imersivo até. Isto se estivermos a falar de alguém que escreve e compõe sobre as suas próprias histórias, que é o meu caso.
“Os artistas são do público e essa é a minha maneira de olhar para o meu trabalho”
É quase esquecer que o mundo existe e de repente estamos sozinhos, a reviver momentos e a traduzi-los num objeto que depois se materializa em algo artístico.
E isto é o trabalho de preparação. Porque depois quando estes trabalhos se tornam públicos, quer seja através de uma peça de teatro, uma série ou uma atuação musical ao vivo, aí temos de estar o mais disponíveis possível para sorver a energia que o público tem para nos dar.
Há muito trabalho que é feito antes das pessoas verem o resultado final, e a partir do momento em que o mesmo é apresentado ao público, este passa a ser deles. Os artistas são do público e essa é a minha maneira de olhar para o meu trabalho e para a minha preparação. É sempre tudo a pensar no público.
Carlos Félix: “quero que a minha música seja intemporal e nada como olhar para os clássicos que foram e são sucessos”
No comunicado sobre o seu mais recente trabalho é dito que tem influências de três grandes intérpretes: Johnny Cash, Frank Sinatra e Elvis Presley. Como é que esses intérpretes influenciam este novo trabalho e carreira no geral?
Ouve-se muito que houve um tempo dourado na música. Eu não sei se é tão assim, há gostos, períodos mais ou menos consensuais, mas a verdade é que eu me identifico muito com a década de 60 e 70 na música, não só pela sonoridade destes artistas, como também pela sua estética.
Não é numa perspetiva saudosista por achar que aquele tempo é que era bom. Mas é numa perspetiva de olhar para estes grandes artistas que se popularizaram junto do público como heróis românticos da música, e perceber como é que eles criavam, como é que eles se apresentavam, como é que falavam de amor (este sentimento tão universal).
Eu sinto que este meu início na música é quase um trabalho experimental de ir beber a estas referências e depois construir o universo que é o universo do Carlos Félix artista. Que pretende fazer com que o público mate uma certa saudade desses tais “tempos áureos” da música na sua sonoridade e estética, mas também trazer com a minha juventude uma abordagem mais pop a um estilo considerado como retro e vintage, mantendo o destaque dos instrumentos que vêm também da minha formação, como o piano, as cordas, os sopros, as harmonias vocais intensas… Eu quero que a minha música seja intemporal e nada como olhar para os clássicos que foram e são sucessos até hoje e tê-los como referência.
“Quero e vou explorar várias coisas sabendo que tenho a minha identidade”
Ainda falando destes três nomes. Quais os temas que lhe tocam mais e inspiram?
Eu adoro os três artistas, mas diria que o Elvis tem um lugar especial no meu coração. Revejo-me muito na sua maneira de falar sobre as coisas. A identidade excêntrica é muito própria dele, mas também a versatilidade. Tenho na sua discografia grandes referências musicais que passam por baladas românticas como ‘Can’t Help Falling In Love’, mas vão também a temas com influências do jazz ou do blues como ‘Jailhouse Rock’, ou até do country como ‘Suspicious Minds’. Impossível não ter como referência o ‘My Way’.
E é incrível como sendo um artista romântico e com um léxico de influências tão grande, Elvis é considerado o rei do Rock. É uma inspiração para mim porque me ajuda a não me meter numa caixa. Quero e vou explorar várias coisas sabendo que tenho a minha identidade e que vou criar o meu universo artístico também.
Um Amor Assim: “pretende marcar o início de um percurso de partilha para com o público sobre histórias de amor com profundidade”
Como descreveria o tema “UM AMOR ASSIM”, em poucas palavras, para quem ainda não teve a oportunidade de ouvir?
Este meu primeiro single que está já disponível em todas as plataformas digitais, surge da necessidade que eu tenho de falar sobre as relações que têm tudo para dar certo e que parecem um conto de fadas, em que o fim não parece ser uma hipótese, mas que, por alguma razão, acabam por terminar.
No amor, tendemos a dar tudo de nós e a entregar aquela que consideramos ser a nossa melhor versão, mas, por alguma razão, isso não é suficiente. Daí, nasce uma certa inquietação por se ter dado o máximo, mas, ao mesmo tempo, uma tranquilidade por se acreditar que o destino também desenha o melhor para nós.
E esta música é isso mesmo. Uma mensagem de esperança em transformar um amor passado num amor novo, revigorado. Um amor completo, com tudo o que há de bom. Não há melhor do que querer voltar a viver um amor assim. E ainda para mais agora estamos a viver num mundo em que é fácil criar textos e letras sem substância que, depois, se refletem numa geração de pessoas sem profundidade que está a consumir música e histórias a um ritmo rápido e descartável.
Eu escolhi este tema para iniciar o meu percurso discográfico precisamente para contrariar essa tendência. Este é um tema muito autobiográfico, que pretende marcar o início de um percurso de partilha para com o público sobre histórias de amor com profundidade. Uma história para ser intemporal.
“Não há como não ser forte interpretar um tema autobiográfico”
O tema é muito profundo e mesmo no videoclipe nota-se que está repleto das suas próprias vivências. É sempre forte quando o interpreta? Como se estivesse a reviver a letra novamente?
Não há como não ser forte interpretar um tema autobiográfico, ainda para mais porque não tenho como me escudar em nenhuma personagem. Aquilo sou eu. “Um Amor Assim” é parte da minha história, é a tradução de episódios da minha vida, é um grito de esperança e, como tal, não há uma única vez em que eu não oiça a música ou em que não a interprete com um sentimento muito grande.
Mesmo a história do videoclipe é um pouco uma tradução metafórica para o que me aconteceu recentemente. É o fascínio de alguém que sempre sonhou em ser artista e estar na caixinha mágica e que de repente tem essa oportunidade.
Eu sinto que o regresso ao passado e aos clássicos não está apenas na sonoridade da minha música. Também o videoclipe deste single tem elementos retro, que lhe conferem uma certa identidade mais ‘edgy’ e que é para mim um objetivo em termos estéticos.
Tem também uma forte componente visual, num universo imagético que faz referência aos grandes artistas e às grandes bandas que começaram a ter sucesso e se popularizaram junto do público em programas de televisão. Eu tornei-me mais conhecido junto do público através de uma série televisiva, portanto para mim fazia todo o sentido trazer essa realidade para o videoclipe também.
Carlos Félix: “O que eu pretendo é fazer um percurso em português”
Qual o próximo passo da sua carreira?
Uma coisa eu não tenho dúvidas, a minha ideia é não parar. É correr aqui em duas pistas em paralelo – a representação e a música. Há muitos artistas em Portugal que o fazem e isso dá-me também uma força grande. O facto de eu ser ator não me pode inibir de ser cantor, ou vice-versa. Eu sou artista e vejo-me como artista. E, na verdade, o que eu quero fazer é representar, cantar, mostrar a minha arte e dizer aquilo que quero dizer às pessoas da maneira mais bonita que conseguir, seja a cantar ou a interpretar personagens. Sinto que já abri a porta da ficção, mas também quero abrir a da música, portanto, vou correr nestas duas pistas em paralelo. É o meu principal objetivo para este ano de 2025.
Em termos discográficos, o que nos pode revelar sobre o que vem aí?
O que eu posso dizer é que tenho estado em estúdio a trabalhar em novos temas. Ainda este ano o público vai poder ouvir mais música minha e uma coisa eu posso garantir. O que eu pretendo é fazer um percurso em português e, através das minhas influências, fazer da minha arte uma coisa única. Tudo o que está a ser preparado vai ser trabalhado da maneira certa para mostrar ao público com o carinho e com a exigência que eles merecem e que eu quero que seja apresentado. Mas fiquem atentos, porque em breve chegarão mais novidades.




