Cristiano Ronaldo: Carlos Coelho alerta para impacto nos patrocínios e Duarte Gomes pede prudência após conflito.
A saída de Cristiano Ronaldo do estágio da Seleção Nacional abriu uma discussão que ultrapassa as decisões de Jorge Jesus dentro de campo. Carlos Coelho, especialista em marcas, considera que o episódio pode ter consequências comerciais para a Federação Portuguesa de Futebol (FPF), incluindo a contestação de contratos por patrocinadores. Duarte Gomes, por seu lado, criticou a rapidez com que o debate público distribuiu responsabilidades sem conhecer todas as circunstâncias.
Em declarações à agência Lusa, Carlos Coelho defendeu que a Federação precisa de encontrar uma forma de manter Ronaldo ligado à sua estrutura. Nas redes sociais, o antigo árbitro e ex-Diretor Técnico Nacional de Arbitragem pediu tempo e informação antes de transformar interpretações em certezas.
Carlos Coelho prevê perda de valor para a Federação
Para o presidente da consultora Ivity Brand Corp, a crise representa um problema de valorização da marca, independentemente do desempenho desportivo da equipa.
“A marca da Federação Portuguesa de Futebol (FPF) mingua muito, portanto, tem-se um retrocesso muito significativo com este acontecimento inesperado e muito mal gerido do ponto de vista do valor ou da perda de valor que isso significa”, afirmou à Lusa.
Carlos Coelho distinguiu esse impacto da capacidade de Portugal continuar a competir e a ganhar.
“Não é um terramoto no sentido em que desmorona a seleção, não vai deixar de existir, vai continuar, vai jogar, se Deus quiser vai ganhar. Não é isso que está em causa, o que está em causa é uma desvalorização de uma marca. De um momento para o outro perde um dos seus ativos.”
Na sua avaliação, uma parte relevante da atenção internacional está associada ao jogador: “Há centenas de milhões de pessoas no mundo que veem Portugal jogar apenas por causa de Cristiano Ronaldo, não querem saber se ganha ou perde.”
Patrocinadores podem questionar pressupostos dos contratos
O consultor enquadrou o risco comercial numa atividade em que, nas suas palavras, “o futebol deixou de ser desporto para ser uma indústria bilionária”.
Carlos Coelho admitiu que os patrocinadores possam considerar alteradas as condições que estiveram na origem dos seus investimentos.
“Ponham-se no lugar de um patrocinador que assinou contrato na perspetiva de associar a sua marca a estes ativos. Têm mais do que motivo para dizer que os pressupostos mudaram e exigir reuniões, até ao limite de cancelarem contratos. O interesse dos portugueses pela seleção pode subir, mas o desinteresse do mundo vai aumentar.”
Trata-se de um cenário antecipado pelo especialista, não do anúncio de cancelamentos de patrocínios.
Para ilustrar a dependência comercial da presença do avançado, Carlos Coelho evocou uma deslocação do Al Nassr à China, associando a ausência de Ronaldo a uma descida de assistência de 55 mil para cinco mil espectadores.
Especialista propõe lugar para Ronaldo fora do relvado
Carlos Coelho criticou também a forma como o estatuto e a fase da carreira do capitão foram geridos.
“O maior ativo de sempre do futebol português devia ser tratado com respeito e cuidado. Se tem 41 anos, não pode ser gerido, nem desportivamente, nem comunicacionalmente, como um jovem de 17. O que aconteceu foi uma prova de falta de autoridade”, sustentou, numa referência a Jorge Jesus.
O consultor defendeu uma solução institucional que permita preservar a ligação de Ronaldo à Seleção, mesmo sem a mesma participação desportiva.
“Isto não se resolve com bons resultados, porque o resultado só interessa aos portugueses. A única forma de mitigar o efeito é encontrar um lugar para Cristiano Ronaldo na estrutura da seleção — que não precisa de ser no relvado, mas onde o banco não é de certeza.”
Na sua perspetiva, o efeito sobre a marca pessoal do jogador será diferente.
“A marca Ronaldo não perde. Teve até um ‘boost’ [impulso], abriu os telejornais do mundo e fez manchetes globais. A grande polémica é de consumo interno. Ronaldo continua a ser um embaixador informal com mais alcance diplomático e económico do que qualquer campanha do país.”
Também em declarações à Lusa, Daniel Sá, diretor-executivo do Instituto Português de Administração de Marketing, descreveu Ronaldo como “a maior marca que Portugal já teve” e defendeu uma estratégia de transição que reduza a perda de visibilidade internacional.
Duarte Gomes critica urgência em escolher um lado
Numa publicação nas redes sociais, Duarte Gomes centrou-se na reação coletiva ao episódio e na polarização que se seguiu à saída do capitão.
“Qualquer episódio que aconteça na vida pública causa fraturas. Em qualquer acontecimento instala-se a urgência coletiva de comentar e de escolher um lado, de preferência atacando quem escolheu o oposto. É a lei da trincheira e o episódio de ontem, com Cristiano Ronaldo, é apenas mais um exemplo disso.”
O antigo árbitro considerou que as conclusões se anteciparam ao conhecimento dos factos.
“Ainda se sabe pouco sobre o que aconteceu, sobre o contexto, as razões, as circunstâncias específicas, mas na praça pública já há culpados e inocentes. Já há egos excessivos e feridos, gestos justificados e injustificados, comportamentos corretos e errados. Tudo em cima do acontecimento. Ao minuto. Ao segundo, até.”
Duarte Gomes relacionou essa pressão com a velocidade da circulação de conteúdos: “A necessidade de se analisar e comentar está cada vez mais pressionada pela velocidade a que circulam informação e desinformação. Quem não entra no jogo, perde o comboio e isso é uma chatice.”
“O grave é transformarmos impressões em certezas”
Na mesma reflexão, Duarte Gomes distinguiu o direito a ter opinião da apresentação de conclusões sem informação suficiente.
“Obviamente que não é grave termos opinião ou termos que fazer e dar notícias. O grave é transformarmos impressões em certezas antes de haver informação suficiente para analisar as coisas com a serenidade que elas devem ser analisadas.”
O ex-dirigente da arbitragem insistiu na importância de separar diferentes níveis de conhecimento.
“Há uma diferença enorme entre aquilo que sabemos, aquilo que nos dizem e aquilo que se vem a concluir mais tarde. Na maioria das vezes, só o tempo permite esclarecer essa diferença.”
A publicação terminou com um apelo à moderação: “Acho que estamos a perder a capacidade de pensar antes de agir. Falta-nos calma para respirar. Falta-nos equilíbrio e moderação. Acima de tudo, falta-nos responsabilidade. Nas histórias, nem sempre há heróis e vilões. Às vezes todos são um bocadinho de cada ou ninguém é nenhum dos dois. Tempos tramados, estes.”
Saída do estágio confirmada, motivos por explicar
Cristiano Ronaldo anunciou na quarta-feira, 30 de setembro, que deixaria o estágio em Copenhaga, depois da conferência de imprensa de Jorge Jesus e de uma conversa com Pedro Proença.
“A seu tempo, direi a verdade a todos os portugueses sobre as razões que motivaram a minha saída da equipa nacional, à qual sempre me dediquei”, escreveu o jogador.
A Federação confirmou a saída e a continuidade dos trabalhos. Na mensagem divulgada, Ronaldo não anunciou expressamente o fim da carreira internacional, pelo que as projeções sobre o impacto de um afastamento definitivo permanecem dependentes do que acontecer a seguir.
