Cristiano Ronaldo deixa estágio da Seleção e promete explicações: reações multiplicam-se

Cristiano Ronaldo deixa estágio da Seleção e promete explicações: reações multiplicam-se, nas redes sociais.

Cristiano Ronaldo confirmou que deixou o estágio da Seleção Nacional em Copenhaga e reservou para mais tarde a explicação dos motivos. A saída, anunciada esta quarta-feira, 30 de setembro, depois de uma conversa com Pedro Proença, abriu uma discussão sobre a relação com Jorge Jesus e sobre a continuidade do capitão na equipa portuguesa.

O jornal O JOGO avançou que a decisão de não voltar a representar Portugal seria irreversível. Na mensagem divulgada pelo jogador, porém, Ronaldo confirmou a saída do estágio, sem anunciar expressamente o fim da carreira internacional.

“Após a conferência de imprensa do selecionador nacional, e no seguimento de uma conversa com o presidente da FPF, tomei a decisão de deixar o estágio da seleção nacional”, escreveu nas redes sociais.

O avançado acrescentou: “A seu tempo, direi a verdade a todos os portugueses sobre as razões que motivaram a minha saída da equipa nacional, à qual sempre me dediquei. Agora é tempo de desejar boa sorte a Portugal e a todos os meus companheiros de equipa, sem exceção.”

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FPF mantém preparação com 24 jogadores

A Federação Portuguesa de Futebol confirmou a saída num comunicado em que não desenvolveu as circunstâncias da decisão.

“A Federação Portuguesa de Futebol informa que o internacional português Cristiano Ronaldo deixou o estágio da Seleção Nacional, que decorre em Copenhaga.”

A nota federativa assegurou a continuidade dos trabalhos: “A preparação dos encontros frente à Dinamarca e à Noruega, este último a disputar no Estádio do Dragão, prosseguirá nos termos previstos, com os restantes 24 jogadores convocados.”

O comunicado terminou com uma referência aos objetivos desportivos: “Toda a comitiva mantém o foco absoluto nos próximos compromissos da Seleção Nacional e na concretização dos objetivos definidos.”

Portugal defronta a Dinamarca esta quinta-feira, 1 de outubro, em Copenhaga, antes de receber a Noruega no domingo.

Jorge Jesus tinha garantido que Ronaldo iria treinar

Antes do anúncio do capitão, Jorge Jesus procurara afastar a existência de uma recusa em trabalhar com a equipa.

“O Ronaldo não se recusou a treinar. Isso era impossível. Hoje vai treinar”, afirmou na conferência de imprensa de antevisão ao encontro com a Dinamarca.

O selecionador indicou também que Gonçalo Ramos deveria começar a partida e explicou os critérios para uma eventual utilização de Ronaldo.

“Em princípio, é o Gonçalo Ramos que vai jogar. O Ronaldo não sei se entrar ou não. Não sei o que vai acontecer amanhã [quinta-feira] no jogo. Se eu precisar, ele entra, se eu não precisar, ele não entra. O estatuto não dá direito para que os jogadores sejam diferenciados dos outros. O estatuto é o respeito pela carreira deles.”

Jorge Jesus reforçou depois a sua autoridade nas escolhas da equipa: “Coloco sempre a questão, o plano que traçar com o jogador, mas quem decide sou eu. Eles sabem disso. Quem trabalhou comigo, eles sabem, toda a gente sabe, até os presidentes sabem. No clube manda o presidente, na equipa mando eu. Com os jogadores é igual.”

As declarações anteriores de Ronaldo à RTP

A saída do estágio levou também a recuperar uma entrevista recente de Cristiano Ronaldo à RTP, na qual o capitão tinha manifestado disponibilidade para aceitar um papel diferente.

“Se o selecionador [Jorge Jesus] decidir que o melhor para a equipa é eu começar no banco, aceito perfeitamente. Estou aqui para ajudar a Seleção Nacional no que for preciso. Se eu não entrar também não há problema, o mais importante é a equipa vencer e o grupo estar unido”, afirmou nessa ocasião.

Na mesma intervenção, acrescentou: “O mais importante é o coletivo e que [Portugal] consiga vencer os jogos. Sempre disse que o grupo está acima de qualquer jogador e estou totalmente disponível para cumprir a função que me for atribuída.”

Essas palavras passaram a integrar a discussão pública sobre o sucedido. A explicação do jogador para a saída ficou, contudo, remetida para uma intervenção posterior.

Edu Aguirre alega promessa de desculpas públicas

No programa espanhol “El Chiringuito”, Edu Aguirre apresentou uma versão dos acontecimentos segundo a qual Jorge Jesus teria prometido pedir desculpa publicamente a Ronaldo. Trata-se do relato do jornalista, que atribui a rutura ao incumprimento desse alegado compromisso.

“Houve uma reunião ontem, terça-feira à noite. Uma reunião entre o presidente da Federação, o selecionador e o Cristiano. O Jorge Jesus pede desculpas ao Cristiano pela desconsideração ao pô-lo a aquecer durante 30 minutos e não o colocar a jogar. E não só lhe pede desculpas em privado, como também lhe diz que vai pedir-lhe desculpas publicamente, que vai dizer publicamente que se equivocou. É a promessa do Jorge Jesus ao Cristiano.”

Aguirre prosseguiu: “E depois vai para a conferência de imprensa e diz esta quantidade de mentiras em que ninguém acredita. Por isso é que o Cristiano explode, porque se sente traído. Não há mais nada, é mesmo assim.”

O jornalista reproduziu ainda aquilo que descreveu como o sentido da conversa privada: “O teu treinador vem ter contigo em privado: ‘Olha, vê lá, isto foi assim, entende-me, está bem, não geri bem a situação, estamos juntos, desculpa lá. Se tiver conferência de imprensa vou esclarecer tudo, vou pedir desculpas, não te preocupes, vai correr tudo bem, vai ficar tudo resolvido’.”

E concluiu: “Depois vais para a conferência de imprensa 12 horas mais tarde e deixas o Cristiano ainda pior, a armar-te em forte, a dizer que quem manda és tu e que o Cristiano é só mais um. Para casa e siga para outra. Por isso é que digo: traição.”

Piers Morgan contesta explicações e Elma Aveiro partilha defesa

Piers Morgan também reagiu nas redes sociais. Perante as declarações de Jorge Jesus de que não existia um diferendo com Ronaldo, escreveu, numa tradução da publicação em inglês: “Fact-check: treta.”

Noutra mensagem, contestou a versão do The Times que associava a saída a uma conversa sobre a prioridade dos interesses da equipa: “Não foi por isso que ele bateu com a porta, como ficará claro assim que falar sobre o assunto.”

Elma Aveiro, por sua vez, partilhou nas histórias do Instagram um texto em defesa do irmão, acrescentando a expressão “Tudo dito.”

Na publicação que reproduziu podia ler-se: “CR7 merecia mais respeito. A Seleção merecia mais estrutura. O jornalismo português merecia mais competência e menos especulação. Em relação aos portugueses, bem… não merecem ter o melhor em coisa alguma. Somos invejosos, desdenhosos, ignorantes e merecemos voltar à mediocridade que sempre fomos no futebol pré-CR7. Obrigado por tudo CR7! Merecias mais!”

Maniche critica saída e admite problemas mais profundos

Na CNN Portugal, Maniche considerou que as intervenções públicas não foram suficientes para esclarecer o conflito.

“Acho que a conferência de imprensa foi preparada para uma comunicação, uma só voz, isto é, Rúben Dias e Jorge Jesus estavam em sintonia. O problema foi depois as declarações ao Canal 11 que Jorge Jesus referiu, que Cristiano Ronaldo estava zangado, ainda estava zangado com ele. Isso reforçou, obviamente, a tese que, afinal, eles ainda estão zangados, afinal isto não está bem.”

O antigo internacional português defendeu a necessidade de gerir a utilização do capitão: “Agora, o plano é natural perante um jogador que tem 41 anos. A gestão tem que ser cuidada, tem que ser preparada. Eu acho isso um plano normalíssimo, como também acho normal os 30 minutos que Jorge prometeu e depois não aconteceu.”

Para Maniche, deverão surgir outros elementos: “Agora, esta situação, eu reforço a ideia que vão sair mais elementos contundentes, porque não são estes dois fatores que levaram Cristiano Ronaldo a abandonar a seleção. Não devia ter feito, não. A responsabilidade que Cristiano Ronaldo tem, não deveria abandonar da forma como abandonou.”

O comentador apresentou ainda a sua leitura sobre o ambiente no grupo: “Mas deixa-me dizer, e eu tenho a convicção que Cristiano Ronaldo não estava de todo confortável com este grupo de trabalho, como provavelmente o grupo de trabalho não estava muito a gosto, digamos, com as atitudes de Cristiano Ronaldo, porque só se falava do mesmo e não se falava do mais importante, que era o grupo, a Seleção Nacional no seu todo.”

Relato da TVI descreve surpresa no estágio

A acompanhar a Seleção em Copenhaga, João Pedro Oca relatou no “Jornal Nacional”, da TVI, o ambiente que observou no treino.

“Em relação aos colegas de equipa, nós testemunhámos isso: assim que chegámos da conferência de imprensa para o relvado, os jogadores estavam a treinar normalmente, sorridentes, felizes, a brincar uns com os outros como qualquer outro treino. Os jogadores também não sabiam a mínima ideia, creio eu, que o Cristiano Ronaldo ia tomar a decisão de abandonar o estágio, consoante foram as palavras de Jorge Jesus.”

O jornalista distinguiu o que presenciou daquilo que admitiu ter acontecido posteriormente: “Há pouco, os jogadores chegaram aqui e terão visto, no autocarro, o post de Cristiano Ronaldo a dizer que tinha abandonado. (…) O próprio presidente, Pedro Proença, estava com uma cara de enfado, de desilusão, a ver o treino. Tudo isto resultou numa situação que ninguém esperava e que se tornou numa grande bomba aqui no estágio da Seleção Nacional.”

Regulamento prevê sanções para abandono injustificado

A saída trouxe também para a discussão o artigo 160.º do Regulamento Disciplinar da FPF. A disposição prevê suspensão de um a seis meses e multa para jogadores profissionais que abandonem injustificadamente atividades das seleções nacionais. O número seguinte contempla a suspensão preventiva automática nos termos do regulamento.

Esse enquadramento não equivale, por si só, à confirmação de uma sanção aplicada a Cristiano Ronaldo. O comunicado federativo limita-se a informar que o jogador deixou o estágio, sem classificar a saída como injustificada nem anunciar uma decisão disciplinar.

José Alberto Carvalho pede que o legado seja protegido

No encerramento do “Jornal Nacional”, José Alberto Carvalho abordou o tema a partir de um vídeo protagonizado por duas crianças colombianas, no qual uma delas festejava com o gesto associado a Cristiano Ronaldo.

“E quando o irmão consegue chegar ao fim do exercício, ele celebra com o gesto que aprendeu de uma lenda do futebol”, descreveu o jornalista.

A partir dessas imagens, deixou uma mensagem ao capitão: “Num dia como hoje, gostava que Cristiano Ronaldo visse este vídeo, porque ele sempre foi muito mais do que um futebolista, com o talento, a disciplina, a ética de trabalho e a generosidade para a maioria dos portugueses e para milhões de crianças e jovens em todo o mundo.”

José Alberto Carvalho terminou com uma referência à dimensão alcançada pelo jogador: “Aquilo que conseguiu nos estádios tornou-se muito maior do que ele e também isso, estou certo, sobretudo isso, devia ser protegido.”

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