Cristiano Ronaldo: Piers Morgan fala em promessas de Jorge Jesus e Joana Latino e Filipa Torrinha criticam reação do jogador.
Piers Morgan afirmou que Cristiano Ronaldo recebeu garantias sobre a sua utilização na Seleção Nacional e que essas promessas pesaram na decisão de prolongar a carreira internacional. No «Football Uncensored», o jornalista britânico apresentou essa versão para explicar o desentendimento com Jorge Jesus, depois de ter acusado o treinador de desrespeitar o jogador.
“Foram dadas garantias absolutas a Cristiano Ronaldo da forma como ia ser usado. Foi uma das razões pelas quais decidiu continuar a carreira internacional. Na Liga das Nações, Jorge Jesus disse que Ronaldo ia jogar os dois primeiros jogos e descansar os dois seguintes”, declarou.
A intervenção de Morgan juntou-se às várias reações à saída de Ronaldo do estágio. No «Passadeira Vermelha», da SIC Caras, Joana Latino e Filipa Torrinha criticaram a postura do futebolista, defenderam a autonomia das decisões técnicas e questionaram os alegados contactos de Luís Montenegro com os envolvidos.
Morgan compara Jorge Jesus a Erik ten Hag
Antes das declarações no seu programa, Piers Morgan reagiu no X a uma publicação de Fabrizio Romano com palavras atribuídas a Jorge Jesus sobre a gestão de Cristiano Ronaldo.
O excerto partilhado dizia: “Na minha opinião, não se pode cobrar uma amizade de um ano numa situação que é difícil de entender. Só porque foi ele. Só porque foi ele, e se calhar bem, porque é um símbolo, todo este problema de aquecer…”
Morgan respondeu com uma comparação ao antigo treinador de Ronaldo no Manchester United:
“Este indivíduo é o Ten Hag português… quer fazer nome sendo o tipo durão ao tentar humilhar o Cristiano com um desrespeito chocante. Vou lidar com ele (de uma perspetiva muito bem informada) no episódio desta noite do Football Uncensored.”
O britânico também contestou uma publicação que apresentava o conflito como um “mal-entendido” e apontava para a possibilidade de regresso do jogador.
“Não houve nenhum ‘mal-entendido’ – como explicarei no programa Football Uncensored de hoje à noite”, escreveu.
As declarações posteriores sobre as alegadas garantias de utilização concretizaram a explicação que tinha anunciado nas redes sociais.
Britânico rejeita versão sobre a saída do estágio
Piers Morgan já tinha reagido com “Fact-check: treta” às declarações em que Jorge Jesus afastava a existência de problemas com o jogador.
Também contestou uma notícia do «The Times», segundo a qual “Cristiano Ronaldo abandonou a concentração da seleção de Portugal depois de lhe ter sido dito que as necessidades da equipa são mais importantes do que as suas, na sequência de conversas de emergência para resolver um desentendimento com o treinador principal, Jorge Jesus”.
“Não foi por isso que ele bateu com a porta, como ficará claro assim que falar sobre o assunto”, respondeu Morgan.
O apresentador colocou, assim, o alegado incumprimento de promessas no centro da sua defesa de Ronaldo. Essa é a versão sustentada pelo britânico, não uma confirmação da equipa técnica sobre os termos de qualquer compromisso com o avançado.
Joana Latino questiona credibilidade de Piers Morgan
No «Passadeira Vermelha», Joana Latino recuperou episódios da carreira do jornalista britânico para explicar as reservas que lhe merece a sua intervenção.
“Nós não nos podemos esquecer de quem é Piers Morgan. É um homem que, quando estava à frente de um jornal tabloide britânico, foi afastado. (…) Um tabloide que infringe praticamente todas as regras do bom senso e as legais mesmo, afasta o Piers Morgan porque ele publicou fotografias falsas de soldados britânicos”, afirmou.
A comentadora referiu também a saída do «Good Morning Britain»:
“Ele acaba por se demitir do Good Morning Britain na ITV porque fez uns comentários tão descabidos a propósito da Meghan Markle que houve uma pressão da opinião pública tão grande (…) que ele acabou por ter que se demitir. Foi empurrado para se demitir, para não ser mais uma vez despedido.”
A partir dessa leitura, Joana Latino desvalorizou a defesa de Ronaldo: “Esta é a espinha dorsal deste fulano que defende o Cristiano Ronaldo. (…) Portanto, a palavra do Piers Morgan nisto tudo vale o mesmo que a de uma cascavel no deserto, ou seja, nada.”
Explicou depois a comparação: “Não escolhi a cascavel por acaso, porque este homem é só uma figura que lança veneno, que não esclarece o debate, que toma partidos e faz estas declarações sempre meio vagas.”
Promessa de jogar não impede mudança de decisão, defende Joana
Joana Latino antecipou que a explicação do jogador poderia assentar numa promessa de utilização, mas considerou que o desenvolvimento de um encontro pode obrigar um treinador a mudar de planos.
“A verdade do Ronaldo vai ser qualquer coisa que não vai esclarecer a história. (…) Ronaldo vai dizer que teve uma promessa de jogar e a explicação mais simples para não ter jogado é que, por muitas promessas que um treinador faça, quando o jogo decorre de determinada maneira, pode deixar de fazer sentido cumprir a promessa”, afirmou.
A jornalista resumiu a sua posição: “As promessas de honra valem para a vida, não valem para jogos de futebol.”
Questionada sobre a saída do estágio, não reconheceu razão ao avançado: “Eu sinto que ele nunca teve razão e tentar forçá-la com essas atitudes não é a melhor forma de a ter, quando nunca a teve.”
Defendeu ainda que o debate deveria dar mais espaço aos restantes internacionais: “Nós temos uma seleção nacional a jogar, com um conjunto de miúdos que têm um talento enormíssimo e que têm uma entrega absolutamente fenomenal em campo. (…) Gostava que os nossos olhos e o nosso foco estivessem naquele conjunto de jogadores.”
“Está a conseguir dilapidar de uma forma tonta e ridícula”
A dimensão da polémica também mereceu críticas de Joana Latino, que responsabilizou Ronaldo pelo desvio de atenção em relação ao trabalho da equipa.
“Faz-me muita espécie que Cristiano Ronaldo, com a responsabilidade desportiva e social que tem, esteja a fazer uma birra tão grande que está a ofuscar a parte positiva da Seleção Nacional e que nos está a fazer todos passar horas infindas a debater se ele tem ou não tem razão”, declarou.
Na sua perspetiva, o conflito prejudica a imagem construída pelo jogador ao longo da carreira:
“Sinto que o Ronaldo podia ter saído em grande e está neste momento a atirar-se para um precipício que não é nada bom para uma pessoa que quer deixar o legado que ele inegavelmente tem, mas que está a conseguir dilapidar de uma forma tonta e ridícula. E a responsabilidade é só dele.”
Joana Latino questionou também a atenção dedicada pelo primeiro-ministro ao caso:
“Se faz sentido um primeiro-ministro abandonar, durante alguns minutos que seja, a agenda do país que está em seríssimas dificuldades para pôr comida na mesa e para pôr combustível no carro e para ter uma casa para morar, para ligar a Cristiano Ronaldo.”
Filipa Torrinha considera reação “infantil e muito pouco profissional”
Filipa Torrinha começou por defender a legitimidade das opções de um selecionador.
“Parece-me perfeitamente normal, usual, que um selecionador como Jorge Jesus ponha um jogador a jogar ou ponha a não jogar ou ponha a aquecer”, afirmou no programa da SIC Caras.
Sobre a resposta do avançado, declarou: “Sinto que Cristiano Ronaldo teve uma atitude infantil e muito pouco profissional também.”
A comentadora criticou os comportamentos nas redes sociais que atribuiu ao jogador e à companheira:
“Ele não tem que sair e fazer gostos em Reels a dizer mal da seleção e a sua noiva, mulher agora, ir fazer posts a dizer mal da seleção. Ele podia só sair, ele podia ter outro tipo de gestão da situação.”
Filipa distinguiu essa avaliação do reconhecimento pelo percurso do internacional português:
“O Cristiano Ronaldo é um jogador fabuloso, colocou Portugal no mapa como poucas pessoas fizeram, é um homem que ajuda causas, tudo o que ele faz e fez de bom eu não nego. Mas paralelamente a isso, ele também fez coisas muito erradas.”
Reconhecimento não coloca jogador acima das regras
Durante a intervenção, Filipa Torrinha insistiu na necessidade de aceitar limites: “Pode ser que assim Jorge Jesus o tenha ensinado que não é um não, que é sempre uma lição muito interessante de se aprender.”
Recorreu depois a uma metáfora para criticar a relação do público com o futebol:
“O futebol é a xuxinha com mel onde todos xuxamos diariamente. (…) O Cristiano Ronaldo tem sim direito eventualmente em algumas situações a um tratamento diferenciado, mas não está acima de determinado tipo de normas.”
A comentadora sustentou que reconhecer os feitos desportivos de Ronaldo não obriga a concordar com todas as suas atitudes, nem retira ao treinador a responsabilidade de decidir quem joga.
Contactos de Luís Montenegro também dividem opiniões
Filipa Torrinha acompanhou as críticas de Joana Latino às notícias sobre contactos do primeiro-ministro com Ronaldo, Jorge Jesus e Pedro Proença.
“Sinto que às vezes entramos todos aqui num surto coletivo e perdemos alguma da lucidez”, começou por afirmar.
Identificou depois o exemplo que considerava mais revelador: “E uma parte, um símbolo dessa perda de lucidez é quando o Luís Montenegro telefona a Cristiano Ronaldo, Jorge Jesus e Pedro Proença, não é? Portanto, para mim, eu sei que isto é altamente debatível, para mim isto é ridículo. É ridículo.”
Ressalvou, contudo, que não estava a colocar em causa o exercício das funções do chefe do Governo: “Não é grave, não é gravíssimo, não é uma coisa que ponha aqui em causa as suas funções, mas é ridículo. É absolutamente ridículo.”
A terminar, pediu maior ponderação na forma como o tema é discutido: “Portanto, sinto que nos falta um bom senso em relação ao futebol no geral e a Cristiano Ronaldo em particular, sem obviamente esquecer o que ele faz de incrível. Uma coisa não invalida a outra.”
