Cristina Ferreira quebra o silêncio sobre polémica da TVI e denuncia clima de medo nas redes sociais

Cristina Ferreira quebra o silêncio sobre polémica da TVI e denuncia clima de medo nas redes sociais, em entrevista.

Entrevista no Jornal Nacional reacendeu debate sobre violência, empatia e liberdade de expressão

Cristina Ferreira decidiu enfrentar de forma direta a polémica que marcou os últimos dias. Numa entrevista a José Alberto Carvalho, no Jornal Nacional, a apresentadora procurou explicar o sentido da pergunta feita no programa Dois às 10 durante a análise de um caso de alegada violação.

Logo no início, fez uma distinção que considerou essencial para enquadrar o caso. “Primeiro que não foi um comentário, foi uma pergunta dirigida a uma comentadora do painel que nós tínhamos escolhido para aquele dia”, afirmou, recusando a ideia de que tivesse assumido uma posição de defesa do agressor.

A diretora de entretenimento e ficção da TVI insistiu que a sua intenção foi outra. “O não é não, ponto. Sabemos todos, o não não existe numa violação, porque a pessoa não o cumpre”, declarou. Depois, clarificou o objetivo da formulação que tantas reações provocou: “A minha pergunta, o ‘mesmo que’, tem a ver só com isto. Eu quero perceber, quando um violador ouve o não, mesmo que isso tenha acontecido, porque é que ele não o ouviu?”

Apresentadora rejeita acusações de machismo e explica o que quis perceber

Ao longo da conversa, Cristina Ferreira mostrou-se particularmente incomodada com a leitura feita nas redes sociais. Sobretudo, com a acusação de machismo e com a ideia de que se teria colocado ao lado do agressor.

Perante essa crítica, respondeu de forma frontal: “Porquê que eu sou machista em querer perceber o comportamento de um violador? Foi só aquilo que eu quis perceber”.

Além disso, ligou essa preocupação ao seu papel enquanto mãe e comunicadora. “Eu sou mãe, tenho um filho de 17 anos, eu criei-o para que ele respeite o outro, mas eu não sei se ele o vai fazer toda a vida e, portanto, eu quero saber o que é que passa na cabeça de quatro jovens que, ouvindo um não, não respeitaram aquela rapariga”, afirmou.

Na mesma linha, recusou a ideia de que falar sobre o comportamento do agressor signifique menor empatia pela vítima. “Mas a minha empatia era o quê? Não perguntar sobre o comportamento do violador? Era essa a empatia?”, questionou. E reforçou a razão pela qual entendeu ser necessário tocar nesse ponto: “Nós temos que conhecer quem são as vítimas e quem são os violadores, mais até acho eu os violadores, para podermos corrigir comportamentos”.

“Achei assustador”: Cristina Ferreira diz ter ficado em choque com a dimensão das acusações

Se houve uma palavra repetida por Cristina Ferreira durante a entrevista, foi “assustador”. A apresentadora descreveu dessa forma a reação pública que se gerou a partir de excertos da emissão.

Recordando o momento em que percebeu a proporção do caso, contou: “Quando acordo, percebo que eu estava a ser acusada de estar posicionada ao lado do violador. Percebo que o entendimento e a forma como tinham colocado o assunto na rua era a Cristina posicionou-se do lado do violador. Defendeu o violador. Aquilo é que foi a mim de uma maneira que eu não alcancei, não consegui perceber”.

Mais à frente, voltou a insistir no mesmo sentimento: “Eu achei assustador que alguém pudesse estar a dizer que eu me estava a colocar do lado do violador”.

Também criticou a forma como, na sua perspetiva, muita gente comentou o caso sem ver o contexto completo. Nesse ponto, deixou uma das frases mais duras da entrevista: “Sabe porquê que não foram colocados, até depois já da polémica, os dez minutos daquela entrevista? (…) A resposta foi não. Vi só o que estava na internet”.

Pressão online levou a uma reflexão mais ampla sobre o medo de falar

A entrevista não se ficou pelo caso concreto. Cristina Ferreira aproveitou para alargar a conversa ao ambiente vivido nas plataformas digitais e ao peso do julgamento público.

Nesse sentido, relatou mensagens que recebeu de pessoas que, segundo disse, passaram a sentir receio de se expressar. “O que eu não quero é receber mensagens de algumas pessoas que me disseram assim: ‘Eu tentei pôr o meu comentário sobre aquilo que eu achei (…) e assim que a opinião era contrária, eu fui chacinada.’ Mais pessoas que me disseram eu tenho medo de dizer o que penso”, contou.

A partir daí, fez um retrato mais amplo do momento social que considera preocupante. “Quando estamos neste ponto da sociedade, quando temos medo de dizermos o que pensamos porque vêm os outros dizer que a opinião deles é melhor do que a nossa, estamos a entrar por caminhos muito difíceis”, alertou.

Ainda sobre esse clima, garantiu que não quer exercer a profissão sob censura informal. “No dia em que eu me sentar nesta cadeira e estiver a pensar naquilo que vou dizer, no que não posso dizer, naquilo que não me permitem dizer, está na hora de ir embora”, atirou.

TVI avançou com comunicado, mas Cristina admite que não era essa a sua forma de comunicar

Durante a entrevista, Cristina Ferreira explicou também como surgiu o comunicado emitido pela TVI após a polémica. Segundo a própria, a decisão foi tomada internamente e com aconselhamento jurídico.

Ainda assim, assumiu que não se reviu totalmente nesse caminho. “A partir daí, e depois também de perguntar internamente, porque eu fiz aquela pergunta num espaço que é um espaço da TVI, eu fiz também a pergunta internamente e, a conselho dos advogados, saiu aquele comunicado. E eu posso-te dizer que, naquele mesmo momento, eu disse: ‘Eu não gostava de publicar este comunicado’”, revelou.

Depois, justificou a resistência: “Porque essa nunca foi a minha forma de comunicar em 20 anos”.

Ataques de colegas e figuras públicas agravaram desconforto da apresentadora

Se o ruído nas redes já a tinha abalado, Cristina Ferreira deixou claro que houve outro ponto que a atingiu ainda mais: a reação pública de colegas e comentadores.

Sem esconder a mágoa, afirmou: “E haver esse julgamento, até por parte de colegas meus, colegas meus que decidiram fazer os seus posts, dizendo aquilo que achavam de mim, dizendo aquilo que achavam do meu caráter, confesso que achei assustador”.

Logo a seguir, foi ainda mais longe: “Primeiro, muitos deles não convivem comigo, não sabem quem eu sou. Muitos deles não veem o meu trabalho diariamente”.

A comunicadora lamentou ainda que, em nome da empatia tantas vezes invocada, não tenha existido uma tentativa de contacto direto antes do julgamento público. “Eu não posso proclamar a empatia quando uma pessoa que quer escrever e julgar-me desta forma não pega num telefone (…) e me diz, explica-me, foi o quê?”, desabafou.

Cristina Ferreira diz que continua a ver-se como feminista

No final da entrevista, Cristina Ferreira procurou também responder a quem pôs em causa a sua responsabilidade social e a sua posição na defesa das mulheres.

Fê-lo com uma definição pessoal de feminismo, ancorada no seu percurso televisivo. “A minha responsabilidade social, e agora vou-te dizer porquê que eu me considero feminista. Porque nestes 20 anos de televisão, no palco que me deram, e que eu uso há 20 anos, eu marquei essa posição muito clara”, afirmou.

Depois, completou o raciocínio: “Ser feminista é, acima de tudo, mostrar que qualquer mulher é capaz. Mostrar, através do meu exemplo e do exemplo que partilhei de outras mulheres, que é possível, que a igualdade se pode conquistar, que é mais difícil. É. Mas isso não se faz com o derrube do homem”.

Reações multiplicaram-se e entrevista dividiu opiniões

A ida de Cristina Ferreira ao Jornal Nacional não travou a discussão. Pelo contrário, abriu uma nova vaga de reações públicas, com leituras muito diferentes sobre o que ficou dito.

Francisco Monteiro saiu em defesa da apresentadora e criticou a rapidez com que, na sua leitura, se construiu uma condenação pública. “Pegou-se numa pergunta e tentou-se apagar um percurso inteiro”, escreveu.

Já Joana Amaral Dias assumiu uma posição oposta e atacou a entrevista sem reservas. “30 minutos de televisão em direto, em prime time. E não gastou nem um segundo a lamentar o sucedido à miúda violada. Foi pior a emenda do que o soneto”, afirmou.

Também Ana Garcia Martins, a Pipoca Mais Doce, considerou que a presença de Cristina Ferreira em estúdio acabou por agravar a perceção pública. “Vi mais do mesmo. E, por isso, a entrevista foi desnecessária e acho que só vai aumentar a crispação e antipatia generalizadas”, escreveu.

Por outro lado, Susana Areal leu a prestação televisiva de forma diferente. Na sua análise, a entrevista mostrou autenticidade emocional e ausência de manipulação. “Do ponto de vista técnico há congruência emocional, alinhamento e ausência de manipulação”, concluiu.

Polémica continua a levantar questões para lá do caso televisivo

Mais do que uma resposta a uma controvérsia momentânea, a entrevista acabou por expor um debate mais vasto. Estão em causa o modo como se discute violência sexual em televisão, os limites da interpretação pública, a pressão das redes sociais e a forma como o julgamento coletivo se instala em poucas horas.

Cristina Ferreira não pediu desculpa de forma direta, mas deixou um lamento sobre a formulação usada. “Lamento não ter usado as palavras certas naquela pergunta que teria feito se eu tivesse escrito e tivesse pensado nela com antecedência”, disse. E, quando confrontada com a hipótese de isso equivaler a um pedido de desculpas, fechou a porta: “Não. É dizer que as palavras… É um lamento. É um lamento”.

Se a entrevista esclareceu totalmente a polémica, essa é uma leitura que continua em aberto. O que parece certo é que o caso deixou de ser apenas sobre uma pergunta em televisão. Passou a ser também sobre poder mediático, responsabilidade pública, cultura de julgamento e medo de falar.

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Tiago Santos
Tiago Santos
Colaborador na área da redação de artigos no site Infocul.pt. Gosto particular pelas áreas da televisão, social & lyfestile.

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