Salvaterra de Magos: Rouxinol Jr triunfou na corrida do tomate, realizada na tarde deste domingo.
Texto: Rui Lavrador
Fotografias: Carlos Pedroso
𝗦𝗔𝗟𝗩𝗔𝗧𝗘𝗥𝗥𝗔 𝗩𝗢𝗟𝗧𝗢𝗨 𝗔 𝗘𝗥𝗚𝗨𝗘𝗥 𝗔 𝗦𝗨𝗔 𝗧𝗔𝗥𝗗𝗘 𝗗𝗘 𝗧𝗢𝗨𝗥𝗢𝗦

A tradicional Corrida do Tomate realizou-se este domingo, 17 de Maio, em Salvaterra de Magos. A corrida tinha sido adiada de 10 de Maio devido ao mau tempo, mas regressou agora à praça com o peso próprio das datas que não se cumprem apenas por calendário. Cumprem-se por memória, por pertença e por fidelidade a uma terra.
Salvaterra sabe o que é uma tarde de touros. Sabe o que significa a espera antes da primeira porta se abrir. Sabe reconhecer o murmúrio de uma praça que observa antes de se entregar. E sabe, sobretudo, que há tardes em que a verdade não vem embrulhada em facilidade.

Esta foi uma dessas tardes.
Em praça estiveram os cavaleiros Francisco Palha, Luís Rouxinol Jr, que substituiu o seu pai que atuou em Évora, e António Ribeiro Telles. As pegas ficaram a cargo dos forcados amadores de Lisboa e de Vila Franca de Xira.
Como atrativo maior, a corrida apresentou um concurso de ganadarias com touros de Foro do Almeida, Lima Cabral, José Dias, Manuel Veiga, Fernando Palha e Torre d’Onofre. Exceptuando o touro de José Dias, cinqueno, todos os restantes tinham quatro anos. As pelagens distintas ajudaram a dar variedade visual ao conjunto.
Mas uma corrida não se mede apenas pela estampa. Mede-se pela matéria que entrega, pela exigência que coloca e pelo modo como cada intérprete responde ao que tem diante de si.
E Salvaterra teve disso tudo: a dureza, a espera, a sombra, o rasgo e a claridade breve de quem soube elevar a tarde.

𝗥𝗢𝗨𝗫𝗜𝗡𝗢𝗟 𝗝𝗥 𝗘 𝗔 𝗧𝗔𝗥𝗗𝗘 𝗤𝗨𝗘 𝗦𝗘 𝗔𝗕𝗥𝗜𝗨 𝗖𝗢𝗠𝗢 𝗨𝗠 𝗖𝗟𝗔𝗥Ã𝗢
Luís Rouxinol Jr foi a figura da corrida. Não por excesso de aparato, mas porque soube fazer da oportunidade uma afirmação.
Na primeira lide, diante do touro de Lima Cabral, encontrou um exemplar cuja apresentação mereceu alguns assobios. Porém, no comportamento, o touro respondeu de forma extraordinária. Arrancava-se de todo o lado e ofereceu ao cavaleiro matéria para construir.
Rouxinol Jr aproveitou-a.
Preparou bem as sortes, foi de frente para o touro e reuniu como mandam as regras do bom toureio a cavalo. A sua atuação teve ritmo, verdade e intenção. As cravagens surgiram com qualidade de compêndio, num registo que ficará provavelmente entre os mais conseguidos dos últimos anos do cavaleiro.
Houve ali maturidade. Estética. Houve também uma comunicação forte com o público, sem que essa ligação se tornasse distracção. Pelo contrário, serviu para reforçar a temperatura da lide.

Depois, na segunda atuação, diante do jabonero de Fernando Palha, a tarde voltou a sorrir-lhe. O touro teve qualidade superior e Rouxinol Jr respondeu com uma faena de muito valor. Toureou a sério, com classe e leitura. Por vezes avançou de frente para o oponente. Noutras, deixou-o arrancar e aguentou a investida com poder e serenidade.
Houve uma passagem em falso e um ferro falhado. Mas esses momentos não apagam o desenho maior. A tarde pertenceu-lhe porque soube aliar técnica, emoção e sentido de praça.
Num tempo em que tantas coisas se fazem pela metade, Rouxinol Jr deixou em Salvaterra a sensação rara de alguém que quis tourear por inteiro. E sem levar touros aos enganos. Tudo por direito. Foi o grande destaque da tarde.
𝗣𝗔𝗟𝗛𝗔 𝗘 𝗧𝗘𝗟𝗟𝗘𝗦 𝗡𝗨𝗠𝗔 𝗧𝗔𝗥𝗗𝗘 𝗗𝗘 𝗘𝗦𝗙𝗢𝗥Ç𝗢 𝗠𝗔𝗜𝗦 𝗗𝗢 𝗤𝗨𝗘 𝗗𝗘 𝗕𝗥𝗜𝗟𝗛𝗢
Francisco Palha e António Ribeiro Telles viveram uma tarde de outro tom. Não foram nomes de triunfo, nem tiveram matéria suficiente para incendiar a corrida. Ficaram antes no território do esforço, da resolução possível e do cumprimento diante de oponentes que nem sempre deram caminho. E por vezes também eles não souberam encontrar o melhor caminho.

Francisco Palha teve uma primeira lide sem rasgo. Diante de um touro desinteressado, com demasiado volume, pouca mobilidade e tendência para se adiantar no momento da reunião, o cavaleiro apostou em sortes com batida ao píton contrário. A opção não resultou como desejaria. No primeiro curto sofreu um toque. Nos restantes, teve de bater antes da reunião para evitar novos toques, nem sempre conseguindo reuniões cingidas e colocadas no sítio certo.
Ainda assim, o terceiro curto foi o momento mais conseguido dessa primeira atuação.

Na segunda lide, frente ao touro de Manuel Veiga, apresentado muito em tipo da ganadaria, mas manso e encostado no comportamento, Palha surgiu num registo superior ao primeiro. Destacaram-se os dois bons compridos e o primeiro curto, esse sim de excelente nota. A restante atuação ficou entre o regular e o esforçado, com um forte toque na montada e sem rasgar a tarde.

E Telles…
Também António Ribeiro Telles encontrou dificuldades. Na primeira atuação, diante de um touro sem emoção e com repetida procura das tábuas, teve mérito ao retirá-lo dessas crenças. Resolveu a lide com sortes a sesgo e terminou em terrenos médios, mas sem conseguir dar ao conjunto maior intensidade.

Houve ainda um susto com Curro, seu bandarilheiro, que caiu na arena. Apenas por manifesta sorte não foi colhido de forma aparatosa, já que o touro não investiu contra si.

Na segunda lide, frente ao touro de Torre d’Onofre, Telles encontrou um oponente tardo na investida, manso, com arreões e capaz de dar forte toque na montada. Cumpriu a função com esforço, mas sem alcançar triunfo.
Assim, Palha e Telles ficaram no mesmo plano da corrida: o de quem teve de enfrentar tardes sem brilho, sem conseguir transformar a dificuldade em clarim de vitória.

𝗢𝗦 𝗙𝗢𝗥𝗖𝗔𝗗𝗢𝗦 𝗘 𝗔 𝗩𝗘𝗥𝗗𝗔𝗗𝗘 𝗗𝗔 𝗝𝗔𝗤𝗨𝗘𝗧𝗔
A corrida teve, nas pegas, uma das suas expressões mais firmes de entrega. Lisboa e Vila Franca de Xira trouxeram para a arena essa verdade antiga dos grupos de forcados: a cara, o corpo, o grupo e a responsabilidade.

Pelos forcados amadores de Lisboa, foram à cara José Duarte, que concretizou à segunda tentativa, com o grupo a corrigir a prestação da primeira; Tomé Batalha, à primeira tentativa, depois de o touro se arrancar de pronto; e Tiago Silva, que resolveu com eficácia ao primeiro intento.

Pelos forcados amadores de Vila Franca de Xira, envergando a jaqueta ribatejana, pegaram Guilherme Dotti, ao primeiro intento e com bastante eficácia; André Câncio, que concretizou à terceira tentativa; e Rodrigo Camilo, autor de uma excelente execução ao primeiro intento.

Houve entrega e houve grupo. E, numa corrida com contrastes, as pegas deram-lhe chão, verticalidade e aquela forma de coragem que não pede ornamento para ser reconhecida.

𝗨𝗠 𝗖𝗢𝗡𝗖𝗨𝗥𝗦𝗢 𝗗𝗘 𝗚𝗔𝗡𝗔𝗗𝗘𝗥𝗜𝗔𝗦 𝗖𝗢𝗠 𝗣𝗥É𝗠𝗜𝗢𝗦 𝗔𝗧𝗥𝗜𝗕𝗨Í𝗗𝗢𝗦
No final, o prémio bravura foi atribuído ao touro de Fernando Palha. O prémio apresentação foi atribuído ao touro de Torre d’Onofre. Discutíveis, porém foi a escolha dos ganadeiros.
A corrida foi dirigida pelo delegado técnico tauromáquico Marco Cardoso, assessorado pelo médico veterinário José Luís Cruz. No cornetim esteve José Henriques.

𝗤𝗨𝗔𝗡𝗗𝗢 𝗔 𝗣𝗢𝗘𝗜𝗥𝗔 𝗗𝗔 𝗔𝗥𝗘𝗡𝗔 𝗘𝗡𝗖𝗢𝗡𝗧𝗥𝗔 𝗔 𝗦𝗢𝗠𝗕𝗥𝗔 𝗗𝗢 𝗙𝗔𝗗𝗢
Há tardes de touros que acabam quando a praça esvazia. Outras continuam depois, já sem clarins, já sem o ruído das bancadas, já sem o bater das ferraduras na areia. Continuam dentro de quem as viu.
A Corrida do Tomate, em Salvaterra, teve essa segunda vida. Talvez porque não foi uma tarde lisa. Porque teve contraste. Talvez porque a arte, quando aparece entre dificuldades, ganha outra espessura. Talvez porque houve momentos em que a arena pareceu também uma madrugada.

E é aí que o fado “Sombras da Madrugada” entra, não como adorno, mas como respiração interior desta reportagem.
E importa que se destinga as sombras das claridades.
No fado, há uma cidade nocturna, uma solidão em movimento, uma figura que atravessa a madrugada com a sensação de já não pertencer inteiramente ao que vê. A tauromaquia, quando passa do instante para a memória, também tem esse lado. Depois do aplauso, fica o silêncio. Tal como depois do ferro, fica a imagem. Depois da pega, fica o corpo a recordar o embate. Depois da corrida, fica a praça a tornar-se sombra.
Há um verso que parece escrito para esse instante em que Salvaterra já não gritava, mas ainda respirava: “𝗡𝗲𝘀𝘁𝗲 𝘀𝗶𝗹ê𝗻𝗰𝗶𝗼 𝗵á 𝗺𝗮𝗶𝘀 𝘃𝗲𝗿𝗱𝗮𝗱𝗲”.

E houve verdade nessa tarde.
Houve verdade no touro de Fernando Palha, premiado pela bravura. E houve, sobretudo, verdade no modo como Luís Rouxinol Jr soube fazer da tarde uma afirmação.
A arena, como a madrugada do fado, também tem sombras. Há tardes em que o touro não embala, em que a sorte não rompe, em que o cavaleiro trabalha mais do que brilha. Mas há também esse momento em que uma lide se levanta e, de repente, tudo parece encontrar lugar.
Foi isso que aconteceu com Rouxinol Jr.
A sua tarde não apagou as sombras. Antes as atravessou. E talvez seja por isso que se tornou mais forte. Porque o triunfo, quando nasce numa corrida irregular, não vem apenas da facilidade. Vem da capacidade de impor luz onde a tarde podia ter ficado apenas baça.
O fado fala de alguém que se sente “𝗦𝗼𝘂 𝗺𝗮𝗶𝘀 𝘂𝗺𝗮 𝘀𝗼𝗺𝗯𝗿𝗮”. A praça, porém, fez o contrário com Rouxinol Jr. Tirou-o da sombra e colocou-o no centro da tarde. E ele lutou por o merecer.

𝗦𝗔𝗟𝗩𝗔𝗧𝗘𝗥𝗥𝗔 𝗡Ã𝗢 𝗧𝗘𝗩𝗘 𝗨𝗠𝗔 𝗖𝗢𝗥𝗥𝗜𝗗𝗔 𝗣𝗘𝗥𝗙𝗘𝗜𝗧𝗔. 𝗧𝗘𝗩𝗘 𝗨𝗠𝗔 𝗖𝗢𝗥𝗥𝗜𝗗𝗔 𝗖𝗢𝗠 𝗔𝗟𝗠𝗔
A Corrida do Tomate não foi uma sucessão de momentos altos. Não viveu de brilho uniforme. Não deu a todos os artistas a mesma matéria. Nem todos puderam triunfar. Nem todos encontraram o touro que permite rasgar a tarde.
Mas talvez seja por isso que teve alma.
A tauromaquia não é apenas o triunfo claro, a ferragem perfeita, a pega limpa ou o prémio anunciado. É também a espera, a contrariedade, o risco, o toque, a tentativa, o susto, a correção e o ofício. É aquilo que se vê e aquilo que se pressente.
Salvaterra teve tudo isso.
Teve uma praça a receber a sua corrida depois do adiamento. Um concurso de ganadarias com diversidade de apresentações e comportamentos. Teve dois cavaleiros, Palha e Telles, a viverem uma tarde mais árdua do que luminosa. Teve forcados a cumprirem a sua parte com entrega. E teve Luís Rouxinol Jr a erguer-se como figura maior, numa daquelas atuações que não precisam de ser explicadas em excesso porque se impõem pela memória.

No fim, ficou a sensação de uma tarde feita de contrastes. E são muitas vezes os contrastes que valem a pena. A luz precisa da sombra para se revelar. A arte precisa do obstáculo para ganhar densidade. A praça precisa do silêncio final para que a corrida continue dentro de nós.
Este domingo, Salvaterra de Magos voltou a ser arena, rito e memória.
E quando a tarde se desfez, talvez já não houvesse apenas pó na praça. Havia também qualquer coisa de fado. Uma sombra antiga. Uma madrugada interior. Uma forma portuguesa de olhar para o triunfo sem esquecer a dureza que o antecede.