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Um enorme Miguel Moura e um bom Moura Caetano marcaram a corrida da Feira de Maio na Moita

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Um enorme Miguel Moura e um bom Moura Caetano marcaram a corrida da Feira de Maio na Moita

Um enorme Miguel Moura e um bom Moura Caetano marcaram a corrida da Feira de Maio na Moita, na tarde de ontem.

Texto: Rui Lavrador
Fotografias: Diogo Nora

A Feira de Maio voltou a chamar a Moita para dentro da praça

A Moita tem uma forma muito própria de entrar numa corrida. Não entra apenas pela porta grande da Praça Daniel do Nascimento. Entra com memória, com exigência, com ruído de feira e com essa relação antiga entre a terra e a arena, que não precisa de grandes explicações para ser entendida.

Este domingo, 24 de Maio, a tradicional Feira de Maio voltou a ter corrida de touros. Lidou-se um curro de Cunhal Patrício, de peso ajustado, frente aos cavaleiros João Moura Caetano, Miguel Moura e António Ribeiro Telles. Nas pegas estiveram os Forcados Amadores de Alcochete e o Aposento da Moita.

A direcção da corrida esteve a cargo de Tiago Tavares, assessorado por Carlos Andrade. No cornetim, como já tantas vezes, esteve José Henriques.

Contudo, antes de qualquer ferro, antes de qualquer pega e antes da primeira leitura da tarde, a praça fez silêncio. Durante as cortesias, cumpriu-se um minuto de silêncio em memória de Augusto Levesinho, também ligado à empresa Tauroleve.

Foi um desses instantes em que a corrida suspende o seu próprio movimento. A praça cala-se, mas não fica vazia. Pelo contrário, enche-se de memória.

O Aposento da Moita recebeu uma partitura com nome próprio

Depois das cortesias, a tarde ganhou um momento simbólico.

Rodrigo Castelo ofertou ao cabo do Aposento da Moita a partitura do pasodoble “Aposento da Moita”, composto pelo músico António Silva.

Não foi um gesto menor. Numa terra como a Moita, onde os forcados pertencem à identidade local, entregar uma partitura é quase entregar uma forma de permanência. A música fica escrita, o nome fica guardado e o grupo ganha mais uma peça para a sua história.

A corrida teve, por isso, esta camada humana logo desde cedo. Não foi apenas touro, cavalo e forcado. Foi também memória, gratidão e pertença.

João Moura Caetano começou preso ao touro, mas terminou a impor-se

João Moura Caetano abriu a sua tarde diante de um primeiro touro manso, sem transmissão e pouco dado a facilitar a lide.

As reuniões nem sempre resultaram como seria desejável. Ainda assim, o cavaleiro procurou contrariar o rumo da atuação. Tentou mudar os terrenos do touro e procurou encontrar-lhe outra disponibilidade.

Porém, a lide não rompeu. Ficou num plano cumpridor, sem o rasgo que se exige a um cavaleiro da sua dimensão.

A segunda atuação foi outra história.

Moura Caetano apareceu mais intenso, mais determinado e mais perto da qualidade que se lhe reconhece. Não foi o Caetano de registo apenas templado e suave, que tantas vezes se associa à sua imagem de marca. Foi um cavaleiro de combate, com uma positiva revolta na alma artística. Um gladiador implacável.

Essa mudança de energia transformou a lide.

Dominou na brega, construiu melhor o desenho das sortes, reuniu com acerto e saiu a rematar. Houve mando e houve intenção. Houve também uma vontade clara de não deixar que a primeira passagem definisse a sua tarde.

Os cavalos Campo Pequeno e Gallo tiveram papel importante nesse crescimento. Com eles, Moura Caetano encontrou outra expressão e assinou uma atuação de bastante qualidade.

No fim, ficou a sensação de que o primeiro touro lhe fechou portas, mas o segundo permitiu-lhe mostrar a raça que ainda sabe colocar em praça.

Miguel Moura encontrou ritmo, classe e uma tarde de boa nota

Miguel Moura teve uma passagem pela Moita marcada por consistência e por momentos de evidente qualidade.

No primeiro touro, encontrou um animal com ritmo, daqueles que obrigam o cavaleiro a estar concentrado e a não cometer demasiados erros. Recebeu-o com uma sorte de gaiola, embora a cravagem tenha resultado traseira.

Depois, corrigiu.

No segundo ferro comprido já apareceu melhor. E, na fase da ferragem curta, a lide ganhou outra ligação através da brega que levou a cabo.

O momento mais alto dessa primeira atuação surgiu na segunda bandarilha. Miguel Moura cravou em sorte cambiada, em terrenos de dentro, depois de levar o touro na garupa do cavalo, com classe.

Foi um ferro com sabor a toureio pensado. Daqueles em que o público percebe que há preparação, risco e intenção estética. A atuação foi positiva e deixou a tarde bem encaminhada para o cavaleiro.

Na segunda lide, Miguel Moura subiu ainda mais o nível.

Esteve em belo patamar exibicional frente ao quinto touro da ordem. Baseou a sua atuação na já conhecida brega cingida, controlando bem a investida e preparando as sortes com critério. Cravou no sítio e soube tirar partido do jogo importante do touro de Cunhal Patrício.

Foi a lide que mais valorizou o curro. E Miguel Moura foi o destaque maior desta tarde.

Após a atuação, o ganadeiro deu volta à arena. O quinto touro teve matéria e Miguel Moura soube entendê-la com qualidade.

António Telles viveu uma tarde intermitente e de resolução

António Ribeiro Telles teve uma corrida menos linear.

Na primeira atuação, demorou a conseguir acoplar-se ao touro. A lide tardou a encontrar ligação plena, mas teve momentos interessantes. Destacaram-se a segunda e a quarta bandarilhas curtas, cravadas com ajuste e indo de frente ao touro.

Ainda assim, a atuação ficou intermitente. Teve apontamentos de nota, mas não encontrou continuidade suficiente para se impor de forma mais redonda.

No segundo touro, a tarefa complicou-se.

O animal colocou algumas dificuldades e obrigou António Telles a resolver. A lide fez-se mais por insistência do que por brilho. O cavaleiro procurou ultrapassar os problemas colocados pelo touro, mas sem conseguir chegar ao triunfo.

A direção autorizou música, mas Telles recusou-a. Também não deu volta.

Esse pormenor importa. Mostra que o cavaleiro soube medir a própria atuação. Não quis acrescentar exteriormente aquilo que a lide não lhe tinha dado por inteiro.

Alcochete e Aposento da Moita resolveram tudo à primeira

Nas pegas, a tarde teve eficácia.

Pelo Grupo de Forcados Amadores de Alcochete, estiveram na cara Miguel Pargana, Vítor Marques e Miguel Direito. As três pegas foram consumadas à primeira tentativa.

Foi uma passagem segura do grupo, sem necessidade de prolongar a luta. Houve eficácia e sentido colectivo.

Pelo Aposento da Moita, pegaram de caras Luís Canto Moniz, André Silva e António Lopes Cardoso. Também os três concretizaram ao primeiro intento.

A pega de Luís Canto Moniz teve carga emocional acrescentada. O forcado brindou aos filhos do cabo fundador Pires da Costa, pelo delicado momento de saúde que atravessa. Num dia já marcado pela entrega da partitura do pasodoble dedicado ao grupo, esse brinde trouxe ainda mais densidade à presença do Aposento na sua terra.

A jaqueta, nessa altura, não foi apenas indumentária. Foi memória viva.

Cunhal Patrício trouxe um curro de comportamentos distintos

Lidou-se um curro de touros de Cunhal Patrício, com peso ajustado e comportamentos diferentes ao longo da tarde.

O quinto da ordem destacou-se pelo jogo importante que apresentou. Foi esse touro que permitiu a Miguel Moura assinar a sua atuação de maior expressão, levando depois o ganadeiro a dar volta à arena.

Os restantes touros tiveram comportamentos distintos. Nem sempre foram plenamente entendidos pelos toureiros, o que ajudou a criar uma corrida de leitura irregular.

Houve touros que pediram mais resolução. Outros exigiram maior capacidade de adaptação. E houve também aquele quinto, com mais possibilidades, que encontrou no cavaleiro a resposta necessária para crescer em praça.

Esta diversidade deu à corrida uma temperatura própria. Não foi uma tarde de facilidade. Foi uma tarde onde cada lide teve de ser lida no momento e onde os artistas tiveram de procurar soluções diferentes.

Uma corrida de feira com várias camadas

A corrida da Feira de Maio, na Moita, teve várias faces.

Teve o silêncio por Augusto Levesinho. A oferta da partitura do pasodoble “Aposento da Moita”. Teve um curro de Cunhal Patrício com peso ajustado e comportamentos distintos.

E teve, sobretudo, duas leituras fortes no toureio a cavalo.

Miguel Moura saiu da Moita com uma tarde de boa nota, especialmente pela forma como lidou o quinto touro. A sua brega cingida, o controlo da investida e a capacidade de preparar as sortes deram consistência à atuação.

João Moura Caetano, depois de uma primeira lide apenas cumpridora, apareceu no segundo touro com outra chama. Mais intenso, mais impositivo e mais determinado, mostrou que uma tarde pode mudar quando o cavaleiro decide enfrentá-la com alma.

António Ribeiro Telles ficou num plano mais irregular, com momentos interessantes na primeira lide e uma segunda atuação marcada pela resolução e pouco brilho.

A Moita teve corrida, mas também teve identidade

No fim, a Moita voltou a ser a Moita.

E isso, numa corrida de feira, não é pormenor. A Praça Daniel do Nascimento não vive apenas daquilo que acontece entre tábuas. Vive também do que vem de fora: da feira, da tradição, dos grupos, das famílias, dos nomes que pertencem à memória da terra.

Este domingo, houve corrida. Houve exigência e houve momentos com peso. Nem tudo brilhou da mesma forma, mas nem todas as tardes precisam de ser uniformes para terem interesse.

A Feira de Maio deu à praça uma corrida com emoção, principalmente na segunda parte, contraste e matéria de análise.

Miguel Moura foi o nome mais ligado ao melhor touro da tarde. Moura Caetano mostrou capacidade de resposta e levantou a segunda atuação com carácter. Cunhal Patrício deixou no quinto da ordem o ponto ganadeiro de maior expressão.

A Moita, essa, voltou a provar que a sua relação com a tauromaquia não é decorativa.

É estrutural. Porém, o público continua a não esgotar a lotação da praça e ontem ficou-se pela meia casa preenchida.