Dois avançados, Félix por dentro e pressão mais alta: o que mudou na Seleção no primeiro jogo de Jorge Jesus, na noite de hoje.
Jorge Jesus prometeu uma Seleção com uma ideia diferente e os primeiros 90 minutos deram já algumas pistas sobre aquilo que pretende construir. Portugal venceu o País de Gales por 1-0, em Alvalade, mas o resultado diz pouco sobre as alterações que começaram a ser visíveis: João Félix definitivamente colocado por dentro, Cristiano Ronaldo acompanhado por um segundo avançado, Bruno Fernandes com liberdade para abandonar o corredor e uma preocupação maior em recuperar a bola rapidamente.
Não foi uma revolução. Também dificilmente poderia sê-lo depois de apenas alguns dias de trabalho. Mas houve diferenças suficientemente claras para perceber que Jorge Jesus quer mexer sobretudo nas posições e nas relações entre jogadores que já faziam parte da Seleção, mais do que transformar o grupo através de uma renovação profunda.
Antes do encontro, o próprio selecionador tinha antecipado essa ideia: “Tenho uma forma de olhar para o jogo que é diferente do antigo selecionador, não digo que melhor. E é natural que, se calhar jogando os mesmos jogadores, mas em posições diferentes até dos clubes, sinto que posso criar uma nova dinâmica, uma nova cultura de jogo.”
Foi precisamente isso que começou a aparecer em Alvalade.
João Félix deixou a ala e passou a jogar onde se sente jogador
A alteração mais evidente esteve em João Félix. Com Roberto Martínez, o internacional português passou várias vezes por zonas exteriores ou partiu da ala para dentro. Jorge Jesus colocou-o junto de Cristiano Ronaldo, numa estrutura que, sem bola, assumiu claramente um 4-4-2.
Félix apareceu como segundo avançado, com liberdade para baixar, receber entre linhas, aproximar-se dos médios e voltar depois a ocupar zonas de finalização. Não ficou preso ao lado esquerdo e isso permitiu-lhe aparecer repetidamente no corredor central.
O próprio não escondeu depois do jogo a importância dessa alteração.
“Como sempre disse, a minha posição é esta, é segundo avançado. Quando assim é, as coisas estão mais próximas de sair bem.”
E foi ainda mais explícito quando questionado sobre Jorge Jesus: “Ele entende de futebol, primeiramente, e, em segundo, a tática que ele usa tem a minha posição, de segundo avançado. Foi onde apareci e pude ajudar mais a equipa.”
O golo aos 22 minutos foi o reflexo mais visível dessa proximidade à área, mas a influência não se limitou ao remate que decidiu a partida. Félix entrou várias vezes na construção curta, ligou com Bruno Fernandes e Vitinha e procurou Cristiano Ronaldo de frente para a baliza.
Quando lhe perguntaram se Jesus estava a mudar a sua carreira, respondeu simplesmente: “Sim.”
Bruno Fernandes não foi extremo
A disposição inicial podia sugerir Bruno Fernandes descaído sobre um dos lados. Na prática, isso aconteceu sobretudo quando Portugal defendia.
O próprio médio explicou a diferença no final do encontro: “Se repararem, raramente estive no corredor. A defender sim, a acompanhar o lateral, a pressionar o lateral em momentos mais altos no campo.”
Com bola, Bruno foi chamado para dentro. Jorge Jesus pretende que seja mais um elemento na ligação, aproximando-se de Vitinha, Félix e Ronaldo e aparecendo nos espaços interiores.
“Trata-se muito daquilo que é a ideia do mister, que é ter um jogador por dentro que seja capaz de ligar o jogo, de baixar a jogar, de servir de apoio também ao ponta de lança e ao segundo ponta de lança, criar ali um triângulo pelo meio e pelas alas.”
É uma mudança importante porque retira Bruno de uma posição estática e permite-lhe aparecer onde normalmente consegue ser mais influente: perto da bola e dos jogadores mais ofensivos.
A largura ficou mais entregue aos laterais e a Pedro Neto, enquanto por dentro Portugal tentou acumular homens para criar linhas de passe curtas.
Rúben Neves como ponto de equilíbrio
Atrás desse grupo apareceu Rúben Neves. O médio funcionou como referência à frente dos centrais, permitindo que Vitinha e Bruno Fernandes jogassem alguns metros mais adiantados.
A primeira construção nem sempre foi simples. O País de Gales pressionou alto nos minutos iniciais e conseguiu criar problemas à saída portuguesa. Jorge Jesus admitiu depois que o plano defensivo adversário surpreendeu a equipa.
“Nos primeiros 15 minutos, a equipa não entrou bem. Pensávamos que o adversário ia jogar em 4x3x3 e baralhou a pressão do João Félix, do Rúben Neves e do Vitinha.”
Portugal ajustou quando percebeu que os galeses também estavam organizados em 4-4-2.
“Depois, percebemos que eles estavam a jogar como nós, em 4x4x2, e a equipa conseguiu entrar dentro do jogo.”
Este detalhe ajuda também a perceber outra das diferenças do primeiro Portugal de Jesus: a pressão não é apenas uma intenção genérica de correr atrás da bola. Há referências posicionais e responsabilidades concretas, e a estrutura adversária interfere na forma como a primeira linha portuguesa decide saltar.
Jogadores mais próximos da bola
Durante vários momentos da primeira parte, Jorge Jesus foi particularmente interventivo junto à linha lateral. Nem tudo estava relacionado com intensidade. O selecionador queria diminuir a distância entre os jogadores.
Contra uma equipa compacta, Portugal teve momentos em que circulou a bola sem conseguir encontrar imediatamente espaço no interior. Jesus explicou depois aquilo que estava a pedir.
“Jogámos contra uma equipa forte defensivamente, que não deixou criar espaços e, quando jogas contra estas equipas, não podes estar longe do portador da bola. Eu estava a dizer-lhes para se aproximarem mais, para podermos jogar.”
É talvez um dos pontos que melhor distingue a ideia apresentada nesta estreia: menos jogadores isolados nas suas posições e maior procura por pequenas associações em redor da bola.
Quando essa proximidade funcionou, Portugal conseguiu acelerar através de Félix, Bruno e Vitinha e encontrar Cristiano em zonas de finalização.
Cristiano já não ficou sozinho na frente
Cristiano Ronaldo manteve-se como referência ofensiva, mas teve João Félix permanentemente nas proximidades.
Isso permite ao capitão ocupar mais vezes a zona central e preocupar-se menos em abandonar a área para participar na primeira fase das jogadas. Félix pode fazer esse percurso contrário: aproxima-se do meio-campo para ligar e depois regressa à frente.
A opção também ajuda Portugal sem bola. Os dois avançados formam a primeira linha de pressão, com os médios a fecharem atrás.
E a substituição de Ronaldo aos 67 minutos revelou precisamente a importância que Jesus atribui a esse momento defensivo. Gonçalo Ramos entrou não apenas para refrescar o ataque, mas para aumentar a intensidade na pressão.
“Eu precisava de um jogador fresco para pressionar. Poderia não ter, tecnicamente, a qualidade do Cristiano, mas sabia que o Gonçalo nos ia dar velocidade defensiva.”
Não foi, portanto, uma substituição feita apenas a pensar na gestão física do capitão.
Pressionar para voltar rapidamente a atacar
João Félix resumiu depois do encontro aquilo que entende ser a identidade pretendida pelo novo selecionador: “Futebol muito ofensivo, com pressão, sem deixar o adversário respirar.”
O avançado acrescentou: “O que podem esperar é isto: futebol ofensivo, pressão, não deixar o adversário respirar, criar oportunidades.”
Os números ajudam a perceber a diferença entre o resultado curto e aquilo que aconteceu territorialmente. Portugal terminou com 23 remates, cinco enquadrados e dez cantos, enquanto o País de Gales não conseguiu qualquer remate enquadrado.
Faltou eficácia. Cristiano Ronaldo teve oportunidades para marcar, Portugal acumulou situações junto à área e João Félix foi o único a conseguir bater Danny Ward.
O desenho ainda vai mudar
Há, porém, um dado importante para enquadrar tudo isto: foram apenas alguns dias de treino. Nem Jorge Jesus considera que a equipa esteja perto de ter a ideia totalmente consolidada.
“Individualmente, há jogadores que conseguem fazer melhor, mas, naquilo que interessa, que é a ideia de jogo, para o primeiro jogo, estivemos bem.”
Bruno Fernandes também colocou o jogo nesse contexto: “Após três dias de trabalho a equipa assimilou bem as ideias e aquilo que o mister nos pediu, mas há aspetos a melhorar.”
O primeiro Portugal de Jorge Jesus mostrou, assim, mais do que uma simples mudança de nomes. Dois avançados, João Félix definitivamente por dentro, Bruno Fernandes a jogar como médio mesmo quando parte de uma posição exterior, Rúben Neves como equilíbrio e uma pressão mais agressiva depois da perda foram os primeiros sinais.
Não é ainda possível saber se este será sempre o desenho. O próprio Jesus já deixou claro que pretende adaptar posições e jogadores aos diferentes adversários. Mas, frente ao País de Gales, começou a aparecer aquilo que tinha prometido antes da estreia: os mesmos jogadores, em vários casos, mas com relações diferentes entre eles.
