“Entre Ontem e Agora”: Inês de Vasconcellos afirma-se com um dos discos mais delicados do ano

Entre Ontem e Agora”: Inês de Vasconcellos afirma-se com um dos discos mais delicados do ano e que deve ser consumido com tempo.

Há discos que parecem nascer devagar. Não como uma afirmação repentina, mas como consequência natural de um caminho feito com tempo. “Entre Ontem e Agora”, o segundo trabalho de Inês de Vasconcellos, tem precisamente esse sabor.

Não é um disco que queira impressionar à primeira audição. É um disco que se deixa descobrir. E talvez por isso revele mais do que aquilo que mostra à superfície.

Cinco anos depois de Amplexo, Inês regressa com um trabalho que junta canções já conhecidas e que foi lançando com novos momentos de intimidade musical. Mas o que realmente une estas faixas não é apenas o repertório. É a forma como a cantora habita cada palavra.

Há vozes que interpretam. Outras que contam histórias. Inês de Vasconcellos parece pertencer a esta segunda categoria.

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Um disco que caminha entre tradição e intimidade

O alinhamento de “Entre Ontem e Agora” revela um cuidado evidente na escolha das canções. Nomes como Carminho, João Monge, Tiago Torres da Silva, Rogério Charraz, José Fialho Gouveia ou João Direitinho cruzam-se num repertório que respira tradição portuguesa sem nunca se tornar preso a ela.

A produção de Bruno Chaveiro ajuda a criar esse equilíbrio delicado. Há espaço para o instrumental respirar, para as palavras ganharem peso e para a voz de Inês se mover com naturalidade entre o fado e a canção.

Não há excesso de arranjos nem tentação de dramatizar. O disco prefere a subtileza.

E isso acaba por ser uma das suas maiores qualidades.

“Conta-me o teu dia”: quando o amor cabe em poucas palavras

Entre os momentos mais luminosos do álbum surge “Conta-me o teu dia”. Uma canção que se constrói a partir de algo aparentemente simples: o desejo de escutar o outro.

Num tempo em que tantas músicas procuram intensidade imediata, esta prefere a proximidade.

Logo nos primeiros versos instala-se essa intimidade:

“Conta-me o teu dia
Quero-te ouvir falar por horas sem parar
Quero-te ver rir sem motivo até corar
Quando eu olhar pra ti”

Inês canta estas palavras com uma delicadeza quase conversada. Não há teatralidade. Há verdade.

Depois chega o refrão, onde a canção assume o que sempre esteve implícito:

“Sou tua e eu não sei pertencer a mais ninguém
Sou tua e lá no fundo, és meu também”

É um daqueles momentos em que a música portuguesa recorda que a emoção pode nascer de gestos pequenos.

“Mãos do destino”: a saudade dita sem dramatismo

Se “Conta-me o teu dia” representa a luz do disco, “Mãos do destino” mergulha num território mais sombrio.

Aqui a canção fala de espera, de despedidas (ou não) silenciosas e daquela dúvida que fica quando um amor se desfaz sem explicação. Mas será que esse amor se desfaz mesmo?

Logo no início percebe-se o peso emocional da história:

“Fiquei à tua espera
Com os meus sentimentos ao vento
E a saudade magoou-me
Não a vieste matar”

A partir daí a narrativa avança entre resignação e fragilidade. Um retrato muito humano de quem tenta compreender aquilo que já não pode mudar ou se calhar pode.

Num dos versos mais fortes da canção, surge a pergunta que parece suspensa no tempo:

“Senti pena de mim
Porque eu já não imagino
Se somos início ou fim
Fica nas mãos do destino”

Inês interpreta esta música com contenção. Não tenta amplificar o drama. Limita-se a cantar a verdade da canção – e isso basta.

Um encontro simbólico em “Futuro”

Outro momento especial do álbum é “Futuro”, dueto com Paulo de Carvalho.

A presença de uma das vozes mais emblemáticas da música portuguesa acrescenta uma dimensão simbólica ao disco. Não se trata apenas de um dueto. É também um encontro entre gerações da canção portuguesa.

O diálogo entre as duas vozes acontece com naturalidade, como se aquela música sempre tivesse pertencido aos dois.

Um disco que prefere ficar

No final da escuta percebe-se que “Entre Ontem e Agora” não é um disco de gestos grandiosos.

É um disco de permanência.

Inês de Vasconcellos canta com respeito pela palavra e pelas histórias que cada canção carrega. E isso sente-se na forma como deixa espaço entre as frases, como quem sabe que a música também se faz de silêncio.

Talvez seja essa a sensação que fica depois da última faixa: a de que estas canções não procuram impressionar. Apenas ficar.

Como dizermos à pessoa que amamos – mesmo que ela esteja distante – “Eu estou aqui. Sempre”.

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