Expresso Transatlântico: “Nunca pensamos em público quando estamos a compor”

Expresso Transatlântico: “Nunca pensamos em público quando estamos a compor”, assinalou a banda, em entrevista.

Fotografia: Miguel Marquês

Em entrevista ao Infocul.pt, a banda fala da liberdade com que cria, da associação à identidade portuguesa e dos concertos que a têm levado a lugares que pareciam distantes no início do projeto. A próxima passagem pelo BIME Bilbao acontece através da WHY Portugal, numa nova etapa do seu percurso internacional.

A guitarra portuguesa ocupa um lugar central na música dos Expresso Transatlântico, mas a banda não parte desse instrumento para reivindicar uma representação da identidade nacional. Essa leitura, explicam ao Infocul.pt, vem sobretudo de quem os ouve. Entre a composição e o palco, preferem concentrar-se no encontro criativo dos três músicos e na possibilidade de levar o resultado a públicos diferentes, sem adaptar a proposta às expectativas de cada mercado.

É com essa disposição que chegam ao BIME, em Bilbao, que decorre de 27 a 30 de outubro. A presença através da WHY Portugal acrescenta uma nova passagem internacional a um percurso que já incluiu palcos europeus e o Japão, agora numa fase marcada pelo álbum “Trópico Paranóia”, produzido por The Legendary Tigerman.

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O objetivo que enunciam é concreto: tocar mais, chegar a mais lugares e continuar a crescer com essas experiências. Quanto à música, a preocupação com quem a vai receber só entra depois de ela existir.

A guitarra portuguesa e uma identidade que vem de fora

Questionados sobre a forma como a ligação à música portuguesa é entendida quando atuam no estrangeiro, os Expresso Transatlântico começam por relativizar a própria premissa. Reconhecem a associação, mas não a apresentam como uma intenção que determine o projeto.

“Essa identidade é-nos mais imposta do que promovida. As pessoas tendem a fazer essa associação por causa da guitarra portuguesa, mas não é um sítio que nós procuramos. Portanto imagino que, não sendo um assunto promovido por nós, também não passe para o lado do público.”

A distinção ajuda a compreender uma proposta em que a guitarra portuguesa convive com a inspiração rock e com diferentes texturas sonoras. A presença do instrumento é evidente; a obrigação de fazer dele uma declaração sobre o país não faz parte do ponto de partida descrito pela banda.

Essa liberdade estende-se ao processo de composição. Quando lhes perguntamos se a vontade de comunicar com públicos estrangeiros influencia a criação, a resposta é direta.

“Nunca pensamos em público quando estamos a compor. Essa parte vem depois, a nossa música é o sítio onde nos encontramos os três criativamente com a liberdade a que se propõe qualquer peça artística.”

No BIME, a prioridade continua a ser tocar

O BIME coloca os artistas perante públicos e profissionais de diferentes mercados, num contexto em que um concerto pode abrir caminho a novos contactos e convites. Para os Expresso Transatlântico, essa dimensão profissional não retira centralidade ao prazer de apresentar a música ao vivo.

“Passar pelo BIME dá-nos uma oportunidade de mostrar a nossa música a mais pessoas num contexto ao vivo, que é o que nós adoramos fazer.”

A banda também não estabelece uma diferença de atitude entre um concerto integrado no circuito habitual e um showcase, pensado para dar a conhecer um projeto a programadores, agentes e outros profissionais da indústria.

“Acima de tudo um concerto é um concerto. E a nossa abordagem não muda consoante o público, fazemos questão de ser sempre honestos no que fazemos.”

Quando se apresentam num mercado onde ainda não são conhecidos, identificam dois elementos que ajudam a distinguir o projeto: a ausência de voz e a intensidade da atuação.

“O facto de sermos uma banda instrumental já é algo, por si só, que nos distingue. Somos uma banda que gosta de ter energia em palco.”

WHY Portugal: criar condições para o que vem depois do concerto

A deslocação a Bilbao acontece através da WHY Portugal, cujo trabalho de internacionalização foi abordado recentemente pelo Infocul.pt numa entrevista com Ana Rita Feijão, do conselho executivo da estrutura.

Artigo relacionado: Entrevista Why Portugal – Falta de dinheiro e equipas trava músicos portugueses lá fora: “Internacionalizar é caro”

Nessa conversa, a responsável identificou o financiamento e a capacidade das equipas como obstáculos à circulação dos músicos portugueses. Sublinhou também que o interesse gerado por uma atuação precisa de acompanhamento: manter contactos, responder a propostas e preparar regressos faz parte de um processo cujos resultados podem demorar a surgir.

É nesse trabalho de continuidade que se enquadra a presença dos Expresso Transatlântico no BIME. O concerto permite mostrar a banda; a relação com os profissionais presentes pode criar oportunidades para os meses e anos seguintes.

Para o trio, o resultado desejado dessa aposta mede-se pela possibilidade de continuar a tocar e de conhecer outras realidades.

“Um sinal concreto de estar a resultar é na nossa opinião termos a oportunidade de tocar cada vez mais e em mais sítios distintos, seja em território nacional ou internacional. Queremos sempre mostrar a nossa música a outras culturas, sentimos sempre que isso nos faz crescer enquanto artistas e pessoas.”

Lugares que pareciam difíceis de alcançar

A experiência internacional já faz parte do percurso dos Expresso Transatlântico, embora os músicos reconheçam que ainda não tem a regularidade que a sucessão de destinos poderia sugerir.

“A internacionalização tem-nos corrido bem, embora não seja uma coisa muito recorrente, todos os anos conseguimos viajar e tocar em sítios que pensávamos que era difícil e um bocado irreal num início de banda podermos ir lá!”

Nos últimos anos, o projeto passou pela cerimónia de abertura da WOMEX 2022, pelo MUMI, em Espanha, pelo Colours of Ostrava, na República Checa, e pelo Eurosonic Noorderslag, nos Países Baixos. A lista inclui ainda a Expo Osaka, no Japão, e o Zomer van Antwerpen, na Bélgica.

Em Portugal, o percurso reúne atuações no Primavera Sound, no FMM Sines, no Vodafone Paredes de Coura, no NOS Alive e no Festival MED. A chegada a outros países acompanha, assim, uma atividade nacional que continua a proporcionar encontros com públicos diferentes.

“Trópico Paranóia” abre uma nova etapa

Lançado em 2026, “Trópico Paranóia” marca o momento artístico em que acontece a passagem por Bilbao. Produzido por The Legendary Tigerman, o álbum nasceu de um período de criação em várias regiões de Portugal e reúne a influência de três ambientes distintos, traduzida numa sonoridade marcada pelo rock, pelas texturas e pelo movimento.

O disco incorpora o tempo vivido em conjunto e o contacto com lugares e pessoas, mas também as perspetivas individuais dos músicos sobre as transformações e contradições da sociedade.

“Flor Trovão”, “Avalanche”, “Tigre da Serra” e “Nikita Punk” foram revelando esse universo, numa fase em que a banda mantém uma agenda de concertos em Portugal e dá continuidade à circulação internacional.

“Cada novo palco é um sonho realizado”

Apesar do caminho já percorrido, os Expresso Transatlântico não apontam um país ou uma sala como destino obrigatório para o futuro próximo. A ambição de chegar mais longe convive com a valorização de cada oportunidade, sem uma hierarquia previamente definida entre palcos.

“Não temos um mercado ou um palco idealizados. Celebramos cada conquista, cada novo país e cada palco com o mesmo entusiasmo, pelo que podemos afirmar que cada novo palco é um sonho realizado.”

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