Fazer escolhas tem consequências – sobretudo quando se finge que a culpa é sempre dos outros

Fazer escolhas tem consequências – sobretudo quando se finge que a culpa é sempre dos outros e nunca nossa.

Há quem escolha mal e ainda queira aplausos

Fazer escolhas é inevitável. Todos os dias escolhemos o que dizemos, o que calamos, o que prometemos e o que traímos.

No entanto, há uma categoria especial de pessoas que merece estudo. Escolhem mal, magoam muito e, ainda assim, aparecem no fim da história com cara de feridos.

Curiosamente, nunca são responsáveis por nada. Foram mal interpretadas. Provocadas. Foram empurradas. Foram vítimas do contexto, da lua, do Mercúrio retrógrado ou da falta de chá de camomila.

Entretanto, à volta delas, há sempre alguém a apanhar os cacos.

A escolha é tua, mas o estrago raramente fica contigo

Há uma mentira muito confortável nesta ideia moderna de liberdade total. A mentira é esta: “eu faço o que quero, porque a vida é minha”.

Sim, a vida é tua. Mas os estilhaços das tuas escolhas nem sempre caem apenas no teu chão.

Quando alguém escolhe mentir, outra pessoa passa a duvidar. Quando alguém escolhe manipular, outra pessoa começa a pedir desculpa por existir. Assim, quando alguém escolhe fugir da verdade, outra pessoa fica presa a perguntas que nunca fez.

Portanto, talvez a liberdade não seja fazer tudo sem pensar. Talvez liberdade seja perceber que cada gesto tem eco.

E, às vezes, esse eco fica anos dentro de outra pessoa.

A arte refinada de fazer porcaria e pedir colo

Há pessoas que não querem resolver nada. Querem apenas controlar a narrativa.

Primeiro fazem. Depois negam. A seguir choram. Por fim, contam a história de forma tão comovente que quase parecem inocentes.

É um talento. Mau, mas talento.

Aliás, há quem consiga transformar uma traição num mal-entendido. Há quem transforme crueldade em “fase difícil”. Há quem chame “defesa” àquilo que foi ataque. E há quem diga “eu também sofri muito” quando, na verdade, sofreu com as consequências da própria falta de carácter.

Contudo, convém não confundir culpa com vitimização. Uma coisa é alguém errar e reconhecer. Outra, bem diferente, é alguém destruir uma sala inteira e depois sentar-se no meio dos destroços a perguntar quem fez aquilo.

Manipular também é uma escolha

Nem toda a violência faz barulho. Algumas chegam em frases doces, mensagens longas e silêncios estrategicamente colocados.

Às vezes, a manipulação aparece vestida de preocupação. Outras vezes, vem com lágrimas. Também pode chegar com frases como “depois de tudo o que fiz por ti” ou “não esperava isto de ti”.

Repare-se no detalhe: estas pessoas raramente querem conversar. Querem vencer.

Por isso, distorcem. Omitem. Exageram. Reescrevem. E, se for preciso, transformam a vítima real na grande vilã da história.

No fim, ainda esperam compreensão. Talvez também uma medalha. De preferência, dourada.

As pessoas não são só aquilo que dizem sentir

Hoje fala-se muito de emoções. Ainda bem. Mas talvez se fale pouco de responsabilidade.

Sentir dor não dá licença para causar dor. Ter traumas não autoriza ninguém a traumatizar os outros. Estar perdido não dá direito a transformar os outros em mapa, muleta e saco de pancada.

Além disso, há uma diferença enorme entre explicar um comportamento e desculpar um comportamento.

Podemos compreender de onde vem uma pessoa. Ainda assim, não somos obrigados a aceitar o que ela faz connosco.

Há vítimas verdadeiras e há profissionais da vitimização

É importante dizer isto com cuidado. Há vítimas reais. Há pessoas magoadas, enganadas, abandonadas e diminuídas. Essas merecem escuta, respeito e protecção.

Mas também há quem use a linguagem da dor como ferramenta de poder.

São pessoas que aprenderam a dizer as palavras certas. Falam de feridas, limites, ansiedade, gatilhos e empatia. Porém, usam tudo isso para escapar ao essencial: responder pelo que fizeram.

Assim, a vítima deixa de ser quem foi magoado. Passa a ser quem teve de ouvir um “não”, quem foi confrontado ou quem perdeu o controlo sobre a outra pessoa.

É quase bonito, se não fosse profundamente perverso.

Escolher também é revelar carácter

As escolhas mostram muito. Mais do que discursos, legendas inspiradoras ou frases partilhadas ao domingo.

A forma como alguém age quando não ganha revela carácter. Também a forma como alguém reage quando é confrontado revela carácter. A forma como alguém trata quem já não lhe serve revela ainda mais.

Porque ser boa pessoa quando tudo corre bem é fácil. Difícil é manter decência quando o ego leva um golpe.

E há quem, nesse momento, escolha incendiar tudo.

Depois, claro, aparece a dizer que só queria paz.

O impacto nos outros não desaparece porque pediste desculpa

Pedir desculpa pode ser importante. Mas não é um botão mágico.

Há desculpas que chegam tarde. Há desculpas que servem mais para limpar a consciência de quem errou do que para reparar quem ficou partido. E há desculpas que são apenas outra forma de manipulação.

“Desculpa, mas tu também…” não é pedido de desculpa. É tentativa de absolvição.

“Desculpa se te sentiste assim” também não é grande coisa. É uma forma educada de dizer que o problema foi a percepção do outro.

Uma desculpa verdadeira tem menos teatro. Tem mais responsabilidade. E, sobretudo, tem mudança.

Sem mudança, é só marketing emocional.

Nem tudo o que perdemos era amor

Às vezes, o maior impacto de uma escolha é obrigar alguém a acordar.

A pessoa que foi manipulada começa a ver o padrão. A que foi diminuída começa a reconhecer o peso. A que pediu desculpa por tudo começa a perceber que estava a pedir desculpa por sobreviver.

E, nesse momento, algo muda.

Pode doer. Custar. Pode parecer injusto. Mas há perdas que são limpezas. Há afastamentos que são resgates. Há finais que chegam com cheiro a incêndio, mas acabam por abrir janelas.

Por isso, nem tudo o que sai da nossa vida é tragédia. Às vezes, é higiene emocional.

Ninguém é obrigado a ficar na história que tu inventaste

Há pessoas que vivem da versão que contam. Precisam que todos acreditem nela, porque a verdade lhes estraga a pose.

Então, escolhem os detalhes que lhes convêm. Apagam o que fizeram. Aumentam o que sofreram. Distribuem culpas como quem distribui panfletos.

Mas ninguém é obrigado a morar nessa ficção.

Podemos sair. Podemos dizer não. Recusar o papel que nos deram. Podemos deixar de explicar o óbvio a quem lucra com a confusão.

E, sobretudo, podemos escolher não continuar a alimentar quem só existe no caos.

Fazer escolhas é aceitar o espelho

No fim, as escolhas têm sempre uma consequência. Nem sempre chega no dia seguinte. Nem sempre chega com barulho. Mas chega.

Às vezes, chega em forma de solidão. Outras, em forma de distância. Também pode chegar quando alguém finalmente deixa de atender, responder ou justificar.

E talvez seja aí que algumas pessoas se assustem. Não porque tenham consciência do que fizeram, mas porque perderam acesso a quem controlavam.

Ainda assim, há uma verdade simples: quem escolhe magoar não pode exigir ser lembrado com ternura.

Pode tentar manipular a história. Fazer-se de vítima. Pode chorar nos corredores certos. Pode até convencer muita gente.

Mas há sempre alguém que sabe.

E, normalmente, esse alguém foi quem pagou a factura emocional das escolhas que a outra pessoa nunca teve coragem de assumir.

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Rui Lavrador
Rui Lavradorhttp://www.infocul.pt
Jornalista e Director Infocul.pt

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