
Festival Live in a Box quer “partilha de emoções” através de artistas “apaixonantes”, revelou Ana Paulo, da Fado in a Box, em entrevista ao Infocul.pt.
Entrevista: Rui Lavrador
Fotografia: Rafaê
Nos dias 14, 15 e 16 de Abril, as cidades de Lisboa, Faro e Bragança receberão o Festival Live in a Box.
Serão três dias em que a música lusófona e ibérica invadirão estas três localidades, num formato indoor, prometendo concertos de elevada qualidade artítistica.
Ana Paulo concedeu uma entrevista ao Infocul.pt, na qual abordou a construção do elenco do festival, os objectivos do evento e ainda os efeitos da pandemia no sector cultural, com particular destaque para a área da música.
Neste festival, o cartaz conta com CARLÃO (Portugal/Angola), CARLES DÉNIA (Espanha), CRISTINA BRANCO (Portugal), FOGO FOGO (Portugal/Cabo Verde), JÚLIO RESENDE (Portugal), LUCA ARGEL (Brasil), LUÍSA SOBRAL (Portugal), MORENO VELOSO (Brasil) e SARA CORREIA (Portugal).
Como foi a construção do elenco? Quais os critérios, a escolha de artistas (alguns fora da Fado in a Box) e ainda as parelhas feitas para cada dia do certame?
Na verdade a maioria dos artistas não é Fado in a Box. 😊 Os artistas com quem trabalhamos e decidimos convidar, com equidade, para integrar o cartaz do Festival fazem muito sentido nesta narrativa que pensámos: a música lusófona e a música ibérica. Neste caso o Luca Argel e o Carles Dénia.
O que tentámos fazer foi procurar um cartaz de qualidade e representativo do conceito do festival. Dentro das possibilidades e limitações que tínhamos, ainda durante um cenário pandémico em que as restrições eram muitas, foi difícil tomar decisões de arriscar trazer mais nomes internacionais, que era um objectivo. O Festival já tinha sido adiado de Março de 2021 para Abril de 2022 e foi muito difícil prever como estaríamos ao dia de hoje.
Conseguimos trazer o Carles Dénia de Espanha e o Moreno Veloso do Brasil, o que nos deixa muito felizes. São artistas maravilhosos e de excelência que o público vai gostar de conhecer melhor. Ainda há muita ibéria e lusofonia por descobrir. Esperamos que o Live in a Box possa fazer esse caminho e que possamos ter no festival uma maior diversidade de músicos dos vários países lusófonos e hispânicos.
O festival aborda as temáticas lusófonas e ibéricas. Tendo a gestão de Sílvia Pérez Cruz em Portugal, qual o motivo pelo qual ela não integra este cartaz?
Por total impossibilidade de coordenação de agendas. O convite foi, obviamente, feito e esperamos poder ter a Sílvia Pérez Cruz numa edição futura do Festival. Por outro lado, a missão do festival também passa por mostrar ao público artistas extraordinários, menos destacado pelos media mas que têm obra feita para esta vida e para a outra. A Silvia Pérez Cruz faz um trabalho extraordinário e abriu um repto muito importante para a música catalã e espanhola, em Portugal.
Por outro lado, destaca-se a inclusão da melhor fadista da actualidade, Sara Correia. Foi fácil tê-la no festival?
A Sara Correia está anunciada no cartaz desde Outubro de 2020. Convidámo-la porque já gostávamos muito do talento dela e do trabalho que ela apresentava. O Fado tinha de estar no cartaz e estou certa de que a escolha foi perfeita.
O certame realizar-se-á em 3 localidades. Como surgiram Bragança, Lisboa e Faro nestas escolhas?
A maioria das pessoas que gosta de assistir a música ao vivo, não faz uma pequena ideia do esforço e meses (às vezes anos) de trabalho necessários para se colocar de pé um evento musical. Podíamos ir à criação artística, que é onde começa. Mas falando apenas da realidade do festival, foi necessário pensar de que forma podíamos cumprir com o propósito de levar bons concertos a públicos desfavorecidos pelas assimetrias regionais. O São Luiz, em Lisboa, foi a primeira sala a abrir-nos as portas e os braços, para estabelecermos uma base que nos permitisse levar o mesmo cartaz a uma sala mais pequena que, trabalhada isoladamente, tornaria muito difícil a recepção a artistas como os que convidámos.
Tínhamos várias opções para a segunda sala anfitriãs, mas pareceu-nos óbvio que a distância a que está Bragança de grandes centros urbanos e a proximidade com a fronteira, poderia fazer uma casamento de potencialidades muito interessante. E os responsáveis pela Cultura em Bragança perceberam isso de imediato. Lisboa e Bragança entraram logo na edição de 2021. Com o adiamento, achamos que podíamos ser um pouco mais ambiciosos e lançámos o desafio a Faro, que também aceitou. Com mais uma cidade parceira, conseguimos acrescentar mais 3 artistas ao cartaz, relativamente ao de 2021: o Carlão, a Cristina Branco e o Luca Argel. Da edição de 2021 transitaram Fogo Fogo, Sara Correia e Moreno Veloso. A Luísa Sobral e o Júlio Resende também surgiram no cartaz este ano, no lugar de artistas que não conseguimos manter da edição anterior.
É um cartaz absolutamente maravilhoso do ponto de vista da qualidade dos artistas e dos músicos que os acompanharão nos palcos. Espero que as pessoas possam aproveitar estes diamantes que circularão pelo país no fim de semana de Páscoa.
Numa altura de crise, até pela pandemia provocada pela COVID-19, quais os preços dos bilhetes e se existiu o cuidado de criar um festival acessível a todos?
Os bilhetes têm valores diferentes entre as cidades, ou não cumpriríamos com a missão de tornar a cultura mais acessível, nomeadamente nas cidades mais distantes dos grandes centros urbanos.
Bragança e Faro têm, obviamente, bilhetes com valores mais baixos. Os bilhetes estão à venda em três modalidades: bilhete único para concerto, bilhete diário (válido para os dois concertos do dia) e o tradicional passe do festival, que dá livre acesso a todos os concertos. Os bilhetes vão de 15€ a 65€. Podem consultar informação mais detalhada no site do festival (www.fadoinabox.pt/live)
Fugindo aqui um pouco do festival, mas não da Fado in a Box, quais os projectos este ano para Espanha (tendo em conta que é um país pelo qual nutres grande carinho)?
Este ano tornar crescente o nosso trabalho com Espanha, com alguma intensidade na Catalunha, na perspectiva de criar conexões artísticas e profissionais entre os artistas de lá e de cá. Além disso estamos empenhados em conseguir realizar o Festival Live in a Box em Espanha, já em 2023. Somos sempre muito bem recebidos pelo público em Espanha e vemos nisso uma oportunidade. Tenho esperança que o público português venha a receber tão bem artistas de Espanha, quanto nós já somos recebidos lá. Geograficamente somos mais pequenos que a maior parte dos países do mundo, não faz sentido este distanciamento metafísico.
Este é um festival indoor. É correcto afirmarmos que será um festival criado para ser intimista e para que as emoções se soltem mais facilmente?
Correctíssimo. Intimismo não é apenas sinónimo de recato. O que esperamos dos concertos que os artistas levarão a palco é, sobretudo, partilha de emoções, seja ao som do Fado da Sara Correia, da musicalidade hipnotizante do Carles Dénia ou do funaná bravo de Fogo Fogo.
Como agente do mercado musical, o que consideras que esta pandemia trouxe de novo à área cultural?
Não posso responder pelo sector inteiro, mas posso pensar a partir da minha realidade. Acima de tudo, espero que tenha trazido maior sentido de comunidade e partilha, mas também tempo de auto-conhecimento sobre o que queremos para nós e para as nossas vidas, para podermos ser melhores pessoas no trabalho e na vida.
Para rematarmos, tenho um desafio para ti. Define cada um dos artistas do festival, com apenas uma única palavra.
É muito difícil fazer este exercício porque todos os artistas têm características únicas e não tenho qualquer autoridade para definir a sua dimensão numa palavra. Permite-me usar a mesma para definir o que nos moveu ao convite: APAIXONANTES. Todos.





