Francisco Rodrigues dos Santos deixa CDS e acusa partido de se afastar do centro

Francisco Rodrigues dos Santos deixa CDS por considerar que a orientação política do partido já não é compatível com as suas convicções. Numa publicação no Facebook, o antigo presidente critica a deslocação do debate político para a direita e assume-se como centrista.

“Deixo de ser militante do CDS. Continuo a ser Democrata-Cristão”, anunciou, antes de explicar as razões da desfiliação.

Rodrigues dos Santos recordou que entrou na Juventude Popular em 2007 e aderiu ao CDS quatro anos depois. Por ter presidido às duas organizações, considerou que devia uma explicação aos militantes com quem partilhou uma parte importante da sua vida.

“Filiei-me por convicção, por acreditar na democracia-cristã e isso nunca mudou”, sublinhou.

“Uma orientação política que não me sinto capaz de subscrever”

Na publicação, o antigo dirigente descreve um debate político cada vez mais influenciado por discursos identitários e correntes que considera radicais.

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“Hoje, vejo o debate político progressivamente deslocado para a margem direita, sob a influência crescente de discursos identitários, de uma retórica radicalizada e de correntes ultraconservadoras e libertárias, frequentemente acompanhadas de uma inquietante insensibilidade social.”

Rodrigues dos Santos critica também uma forma de fazer política que, na sua perspetiva, privilegia o confronto em detrimento da resolução dos problemas.

“Constato uma acção política que se habituou a classificar as pessoas antes de as compreender, a apontar inimigos, a alimentar ressentimentos, em vez de resolver os problemas e a tratar o Estado social europeu como um obstáculo, quando ele é uma das maiores conquistas da nossa civilização.”

É neste contexto que situa o afastamento em relação ao partido que liderou.

“O CDS, a meu ver, acompanhou esse movimento, trilhando, precisamente, o caminho inverso do que eu procurei fazer durante a minha presidência. O centro-direita moderado, social e humanista que procurei defender, enquanto o liderei, foi perdendo espaço para uma orientação política que não me sinto capaz de subscrever.”

Antigo líder recorda a defesa de uma “direita social”

Ao explicar o seu percurso, Francisco Rodrigues dos Santos recorda que procurou defender valores do centro-direita democrático que considerava subvalorizados durante os governos de esquerda.

Entre esses princípios, enumera a liberdade económica, a iniciativa privada, o mérito, a responsabilidade individual e a liberdade de escolha das famílias na educação e na saúde. Acrescenta a valorização da cultura e das tradições portuguesas, bem como a autonomia da sociedade civil perante o Estado.

“Foi com estas convicções que assumi a presidência do CDS, procurando situá-lo num espaço de moderação, responsabilidade e sensibilidade social. Com uma ética conservadora, capaz de promover as necessárias mudanças, mas evitando as rupturas.”

O antigo presidente recupera ainda as expressões que utilizou para definir o seu projeto político.

“Quando invoquei os qualificativos de ‘direita social’ e ‘direita certa’, quis afirmar um centro-direita de valores democráticos e humanistas, particularmente atento aos mais vulneráveis.”

Nesse sentido, explica que procurou conciliar a iniciativa privada com a solidariedade e a liberdade económica com a justiça social, em oposição às novas direitas que caracteriza como ultraliberais, populistas e radicais.

“Não me basta uma economia que cresça sem melhorar a vida de quem trabalha”

Rodrigues dos Santos afirma que os anos afastado das responsabilidades partidárias lhe permitiram estudar, conhecer outras realidades e rever algumas posições.

“A verdadeira coerência está em, mantendo os mesmos valores, saber evoluir nas ideias, alterando as respostas quando a realidade nos convoca para questões diferentes.”

Sem abandonar a defesa da liberdade económica, considera necessário dar maior atenção à igualdade de oportunidades, à distribuição da riqueza e ao combate às desigualdades.

“Acredito na liberdade económica, considero excessiva a carga fiscal que pesa sobre as famílias e as empresas e julgo que sem liberdade para empreender, investir e criar emprego, dificilmente haverá riqueza que sustente o progresso social.”

Contudo, acrescenta uma condição à avaliação desse crescimento.

“Mas também não me basta uma economia que cresça sem melhorar a vida de quem trabalha e continua pobre, de quem não consegue pagar uma casa ou de quem nasce com muito menos oportunidades do que os outros. Uma economia sem rosto humano pode produzir crescimento, mas a sociedade, nem por isso, passa verdadeiramente a viver melhor.”

Francisco Rodrigues dos Santos assume-se como centrista

O antigo líder do CDS considera que o centro é hoje o espaço político que melhor traduz as suas convicções.

“Julgo que é por isso que é mais acertado hoje definir-me como um centrista. Não confundo o centro com a ausência de convicções, nem acredito que a razão se encontre sempre a meio caminho entre a esquerda e a direita.”

Na sua perspetiva, esse posicionamento deve conciliar liberdade e justiça social, iniciativa individual e solidariedade, sem ficar condicionado pelas divisões partidárias.

“Creio que Portugal precisa hoje, talvez mais do que nunca, de recuperar esse sentido de equilíbrio e de entendimento, indispensável às grandes reformas que o país continua a adiar. Algumas soluções estarão mais próximas da esquerda, outras da direita, e outras exigirão caminhos próprios, construídos a partir do que ambas têm de melhor.”

Ao comparar o presente com o início do seu percurso, explica por que sente necessidade de olhar para outras referências políticas.

“Quando entendi que Portugal estava demasiado inclinado para a esquerda, procurei afirmar os valores da direita democrática para o aproximar do centro. Hoje, perante uma deslocação que considero excessiva para a direita, sinto a necessidade de olhar com mais cuidado para valores tradicionalmente associados ao centro-esquerda democrático.”

Para Rodrigues dos Santos, essa evolução não representa uma contradição.

“A coerência não consiste em permanecer imóvel enquanto tudo à nossa volta muda. A coerência obriga-nos a saber o que queremos preservar e a lutar pelo que queremos mudar, de modo a garantir a coesão social em democracia.”

“O partido fez, legitimamente, as suas escolhas. Eu fiz as minhas”

Apesar de continuar a identificar-se com a democracia-cristã europeia, o antigo dirigente manifesta dúvidas sobre a disponibilidade do CDS para ocupar o espaço que defende.

“Continuo a reconhecer-me na tradição humanista da democracia-cristã europeia e defendo um centro reformista, socialmente responsável e avesso à radicalização. Tenho, porém, sérias reservas quanto à vontade do CDS de ocupar esse espaço político.”

A decisão de sair é, por isso, apresentada como consequência de uma incompatibilidade política.

“Compreendo o caminho que o partido escolheu, mas não tenho dúvidas sobre o lugar em que eu próprio me encontro, nem de que esse lugar deixou de ser compatível com a minha filiação no CDS.”

Ainda assim, Rodrigues dos Santos pede respeito mútuo e rejeita que a divergência ponha em causa as relações construídas ao longo dos anos.

“O partido fez, legitimamente, as suas escolhas. Eu fiz as minhas. Respeito quem continua a reconhecer-se no caminho do partido, tal como espero respeito pelas razões que me levam a seguir outro.”

Na despedida, deixa uma mensagem de gratidão aos antigos companheiros.

“Saio com a gratidão de quem recebeu muito, com a consciência das responsabilidades que assumiu e com a boa memória de tantas pessoas com quem partilhei convicções, dificuldades, alegrias e amizades que espero conservar.”

E conclui: “A estima que tenho por aqueles que permanecem no CDS não depende de continuarmos a pensar da mesma maneira e esta decisão não apaga o que fizemos junto

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