Grupos corais encheram a Embaixada do Cante: a tarde em Beringel onde o Alentejo se ouviu por inteiro

Grupos corais encheram a Embaixada do Cante: a tarde em Beringel onde o Alentejo se ouviu por inteiro, ontem.

Texto: Rui Lavrador
Fotografias: Diogo Nora

Grupos corais encheram a Embaixada do Cante: a tarde em Beringel onde o Alentejo se ouviu por inteiro

Uma hora que parou o tempo no Sabores no Barro

Ontem, houve um momento em Beringel que não se explicou. Sentiu-se.

No segundo dia do Sabores no Barro, a Embaixada do Cante transformou-se num lugar de silêncio atento e vozes profundas. Não havia pressa. Não havia distrações. Apenas o cante.

E, por instantes, o tempo pareceu abrandar.

Quatro grupos, quatro formas de dizer o mesmo Alentejo

Logo ao início da tarde, subiram ao palco “As Rosinhas” de Santa Clara do Louredo. Trouxeram consigo um cante seguro, carregado de memória, com aquele peso que só quem vive a tradição consegue sustentar.

Depois, foi a vez das “Flores de Primavera” de Ervidel. O nome leve contrastou com a profundidade das vozes. Houve ali entrega. Houve verdade. E houve, sobretudo, respeito pelo que se estava a cantar.

Entretanto, “Os Vindimadores” de Vidigueira assumiram o palco com a força de quem conhece a terra. O cante surgiu denso, marcado pelo ritmo do trabalho e pela dureza das histórias que transporta.

Por fim, o Grupo de Cantadores de Beringel fechou a tarde. E, nesse momento, sentiu-se o regresso a casa. Um canto mais íntimo, mais próximo, quase como se estivesse a acontecer dentro de uma taberna, entre amigos.

O cante como encontro, não como espetáculo

Ao longo de toda a tarde, houve algo que se destacou. Ninguém cantou para se mostrar. Cantou-se para partilhar.

Por outro lado, não houve protagonismos individuais. O cante manteve-se fiel à sua essência. O coletivo acima de tudo.

O ponto surgia firme. O alto rasgava o ar. E o coro sustentava tudo com uma solidez que não se aprende — vive-se.

Assim, cada grupo trouxe a sua identidade. Mas todos respeitaram a mesma linguagem.

A Embaixada do Cante voltou a ser casa

Entretanto, o espaço fez toda a diferença. A Embaixada do Cante não é apenas um palco. É um lugar onde o cante respira como deve ser.

Ali, não há necessidade de amplificar emoções. Elas já estão lá.

E foi isso que se sentiu. Uma proximidade rara. Um respeito coletivo. Um silêncio que dizia tanto como as vozes.

Um momento que não se repete

Além disso, ficou claro que aquele momento não podia ser replicado. Não da mesma forma.

Cada moda nasceu ali. Naquele instante. Com aquele público.

E isso torna tudo mais intenso. Mais verdadeiro.

Porque quem esteve, esteve. E levou consigo algo difícil de explicar.

Beringel continua a guardar o essencial

No final, ficou uma certeza. O Sabores no Barro continua a ser um dos poucos lugares onde o cante alentejano não precisa de ser adaptado.

Ali, ele é o que sempre foi. E ontem isso ficou bem claro.

O Alentejo não se representou. Cantou-se.

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Rui Lavrador
Rui Lavradorhttp://www.infocul.pt
Jornalista e Director Infocul.pt

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