FF, Jéssica Silva, Ana Markl, Filipe Vargas e Aldina Duarte recorreram ao Instagram para se pronunciarem sobre os protestos pela habitação. Entre críticas à atuação policial, testemunhos de quem esteve na acampada e apelos para regressar ao Rossio, as publicações deste domingo, 25 de outubro, têm em comum a defesa de quem se manifesta e a rejeição do silêncio perante o que está a acontecer.
FF dirigiu uma mensagem ao Governo, Jéssica Silva pediu que as pessoas questionem as imagens que estão a ver e Ana Markl recordou os jovens que encontrou no protesto. Filipe Vargas, por sua vez, anunciou uma concentração no Rossio para as 17h, recebendo de Aldina Duarte a confirmação de que também estaria presente.
FF: “Um governo que quer ordem pública não manda calar, dialoga”
Fernando Fernandes, conhecido artisticamente como FF, publicou uma mensagem em letras brancas sobre fundo negro, centrada na responsabilidade de ouvir os manifestantes.
“Mais violento que o grito de revolta ou o braço que o estrangula é o silêncio.”
Na mesma imagem, o cantor deixou uma crítica direta à resposta política aos protestos: “Um governo que quer ordem pública não manda calar, dialoga.”
A publicação recebeu reações de apoio, incluindo aplausos de Laura Rueff, mas também comentários de pessoas que defenderam a intervenção policial e o cumprimento das ordens de desmobilização.
Jéssica Silva pede respostas: “A tal da ‘democracia’ também se mede pela forma como tratamos quem ousa questionar”
Jéssica Silva partilhou uma imagem que creditou ao fotógrafo José Sena Goulão e acompanhou-a com uma crítica ao tratamento de quem protesta. A futebolista começou por dizer que tinha visto outras imagens que considerava ainda piores.
“E pensar que esta nem é das piores imagens que vi… Mas faz algum sentido? questionem-se no MÍNIMO, questionem-se!!! e se possível, façam-no em voz alta!! a tal da ‘democracia’ também se mede pela forma como tratamos quem ousa questionar.”
A jogadora prosseguiu com um pedido de esclarecimentos: “que tempos estes…. juro! Entretanto, respostas, também são precisas.”
No final, acrescentou: “ps. pimenta no cu dos outros é refresco”, reforçando a crítica à forma como são encaradas as dificuldades e o sofrimento alheios.
Ana Markl recorda noite na acampada: “Senti que eram todos meus filhos”
O testemunho mais extenso foi o de Ana Markl, que começou por cruzar duas referências geracionais: “Eu vi o rabo da Geração Rasca e faço parte da Geração à Rasca.”
A autora e radialista contou que esteve na acampada dias antes e descreveu o acolhimento que recebeu quando se sentou no chão.
“Estive na acampada há dias, na noite em que se tornou uma aconchada. Ao sentar-me no chão, um rapaz veio trazer-me uma manta. Senti que eram todos meus filhos. Ouvi-os discursar à vez, organizados, emocionados. Lembrei-me do meu filho, a dormir quentinho em casa, emocionei-me, tive medo, quis ir a correr abraçá-lo, dar colinho ao seu futuro.”
Nesse encontro, reconheceu também pessoas do seu passado, o que a levou a refletir sobre a persistência do inconformismo.
“Também vi velhos colegas de escola, daqueles que eu achava que eram anarquistas vagamente performativos. Talvez fossem, éramos miúdos. Mas, pelos vistos, o inconformismo não era ‘só uma fase’. Não existem fases. Só existe o movimento da vida.”
“Crescer não é desistir”
Ana Markl comparou as críticas dirigidas aos manifestantes de hoje com os juízos que ouvia quando era mais nova.
“Eu vi o rabo da Geração Rasca. Ouvi os adultos a desacreditar os anseios dos jovens, tal como agora. A tentar doutrinar o protocolo da revolta. A vergá-los para que cresçam ordeiros e infelizes como os senhores de gravata. Isso é de sempre.”
Ao recordar a sua participação em manifestações nos anos 90, distinguiu a experiência que viveu daquilo que agora vê.
“Nos anos 90, andei nas manifs mas não levei bastonadas, não me lembro de ver arrear como hoje ou então fugi porque sou uma granda menina. Só levei com as ideias feitas sobre o cabelo às cores ou a camisola esburacada, a mania que era diferente, o ar de quem não tomou banho.”
A reflexão prosseguiu com uma nota de ironia sobre a passagem do tempo: “Sou hoje uma privilegiada: tomo banho todos os dias e continuo com a mania. Não era ‘só uma fase’. Crescer não é desistir.”
Ana Markl critica insultos aos jovens e questiona os agentes
A dificuldade de acesso à habitação esteve no centro da defesa que Ana Markl fez dos manifestantes. A radialista apontou uma contradição entre os apelos à participação cívica e os insultos dirigidos a quem decide protestar.
“Mas, agora, a coisa muda de figura: os jovens, os primeiros com direito a sonhar, não têm acesso a uma casa onde concretizar os sonhos mais básicos. Vão para a rua reivindicar. As pessoas que dizem à boca cheia que ‘os portugueses deviam sair à rua’ agora chamam-lhes bando de drogados, esquerdalhos, egoístas.”
Sobre a intervenção policial, escreveu: “Lembro-me de que, há anos, gritávamos ‘a bófia não manda aqui’. Ligo a televisão e vejo a polícia a entrar por ali adentro outra vez, a tentar terraplanar direitos.”
A crítica foi acompanhada por uma reflexão sobre as condições de vida dos próprios agentes.
“Penso que, na volta, também alguns deles poderiam ser meus filhos. Que já foram jovens mas que decidiram lutar ao lado de quem manda para serem eles a bater em vez de levar, mas que também contam os tostões para pagar a renda da casa.”
No final, imaginou o que alguns poderiam pensar ao regressarem a casa e verem os filhos a dormir. Nessa reflexão hipotética, escreveu: “Eu protejo-te. Mas quem te protege de mim?”
“Quem me dera que pensassem”, concluiu, juntando a expressão “#oamoréonovopunk”.
Filipe Vargas apela ao regresso ao Rossio e Aldina Duarte responde
Filipe Vargas publicou a frase “Resistir é vencer” e deixou uma indicação concreta na legenda: “Às 17h no Rossio. ‘Onde há repressão, há resistência!’”
Nos comentários, Aldina Duarte respondeu: “Lá estaremos, Filipe”, anunciando a intenção de se juntar à mobilização.
A fadista fez ainda uma publicação própria sobre os perigos da indiferença. Partilhou uma versão de um texto que atribuiu ao pastor luterano alemão Martin Niemöller, apresentado na legenda como uma reflexão sobre o silêncio perante a perseguição de diferentes grupos.
Na imagem divulgada, sucedem-se referências a vizinhos levados sem que o narrador se manifeste. O texto termina com a frase: “No quarto dia, vieram e levaram-me a mim; já não havia mais ninguém para reclamar…”
