Jorge Jesus assume emoção na estreia e avisa para a Noruega; Rúben Dias acredita numa Seleção “mais e melhor” nos próximos jogos.
A vitória por 1-0 sobre o País de Gales encerrou o primeiro capítulo de Jorge Jesus enquanto selecionador nacional, mas o treinador não saiu de Alvalade a considerar o trabalho concluído. Na conferência de imprensa, falou da emoção sentida na estreia, destacou a resposta defensiva, assumiu que há jogadores capazes de render bastante mais e começou a projetar aquilo que Portugal terá pela frente.
Rúben Dias levou uma leitura semelhante para a zona mista: há sinais positivos, mas três dias de trabalho não chegam para apresentar uma equipa acabada.
“O meu país, a minha bandeira, o meu povo”
Jorge Jesus esteve particularmente interventivo durante toda a partida e explicou que houve uma componente emocional, mas também uma necessidade prática de corrigir posicionamentos quase em tempo real.
“Vocês já me conhecem, sabem que sou um treinador que estou sempre dentro do jogo. É normal que hoje até pudesse estar mais dentro do jogo por dois motivos. Um, pela emoção: o primeiro jogo na Seleção, o meu país, a minha bandeira, o meu povo, faz criar algum sentimento.”
O segundo motivo estava relacionado com o reduzido tempo de preparação.
“Os jogadores têm pouco tempo de treino de campo comigo. Estou a ver o jogo e estou a ver que, antes das coisas acontecerem, está mal um posicionamento ofensivo ou defensivo. Procuro entrar dentro do jogo, alertar os jogadores e pedir-lhes que corrijam os seus posicionamentos. É assim que eu estou no futebol e hoje foi igual.”
“Quando tens jogadores inteligentes, tudo é mais fácil”
O pouco tempo para implementar novas ideias não é, para Jesus, um obstáculo impossível de ultrapassar devido à qualidade do grupo.
Questionado sobre a transição relativamente ao trabalho de Roberto Martínez, respondeu: “Não. Penso que não, porque se tu tens uma ideia, não estás a pensar, quando metes um processo de treino, que aquilo que estás a passar seja difícil em relação ao que estava.”
E justificou: “Tens jogadores de alto nível, jogadores que estão habituados a jogar ao mais alto nível com ideias diferentes de vários treinadores.”
Daí a conclusão do selecionador: “Quando tu tens jogadores inteligentes taticamente e tecnicamente, tudo é mais fácil. Foi isso que aconteceu hoje.”
Jesus destacou sobretudo o comportamento defensivo.
“Se me disserem qual é o setor de que gostou mais hoje da equipa: os quatro jogadores atrás. Defensivamente pensaram como equipa. Defensivamente pensaram que não é a bola e o jogador, há muito mais para além disso quando se defende.”
Rúben Dias: “Já conseguimos absorver muita coisa”
Rúben Dias reconheceu, na zona mista, que o contexto obrigou os jogadores a acelerar o processo de aprendizagem.
“Tudo é mais fácil quando as coisas fazem sentido. Obviamente que foi o primeiro jogo, só tivemos um dia no campo e outros dois dias de treino de sala. Mas já conseguimos absorver muita coisa e colocar em prática em campo.”
O central apontou para aquilo que ainda falta construir: “As coisas vão afinar-se e vamos em busca de mais e melhor, com maior perfeição.”
E deixou a sua avaliação do encontro: “Defensivamente, estivemos fortes. Conseguimos anular o que eles queriam fazer. Com bola, podemos ser ainda mais perigosos, mas ainda assim tivemos os nossos momentos. Em geral, boas sensações.”
Jesus não quer jogadores presos ao que fazem nos clubes
A conferência trouxe ainda uma indicação importante sobre a construção futura da equipa. Jorge Jesus não pretende reproduzir obrigatoriamente as posições e relações que cada jogador tem no respetivo clube.
Questionado sobre uma eventual dupla Vitinha-João Neves, respondeu: “Aquilo que é nos clubes a mim não me interessa, interessa-me aquilo que faço na Seleção.”
Desenvolveu depois o princípio: “Quando os trago para a Seleção, não me importa muito… Claro que não vou pôr um central a ponta de lança, como é óbvio, mas não me interessa muito o que eles fazem na equipa deles. O que me interessa é que eles tenham qualidade para ter a ideia de jogo que pretendo para a Seleção.”
“Há jogadores importantes que não estiveram perto da qualidade deles”
Apesar da vitória, Jesus não considerou que Portugal tenha apresentado todo o potencial disponível.
“Hoje penso que tivemos jogadores que são importantes na Seleção que não estiveram tão perto daquilo que é a qualidade deles individualmente, mas a equipa jogou como equipa.”
O técnico voltou a salientar o trabalho realizado atrás: “Principalmente os últimos cinco jogadores atrás, a linha de quatro mais o Diogo Costa, que não fez uma defesa.”
E apontou o caminho: “É isso que temos de consolidar e melhorar.”
O País de Gales também obrigou Portugal a ajustar durante a primeira parte. Jesus admitiu que esperava uma organização diferente do adversário e que a equipa demorou cerca de 15 minutos a encontrar referências.
“Temos uma margem muito grande ainda para melhorarmos, como é normal. Não entrámos bem no jogo porque taticamente eu pensava que o País de Gales ia jogar com um trio no meio-campo completamente diferente daquilo que apareceu.”
Depois, considerou que Portugal cresceu sobretudo a partir da organização defensiva: “Depois dos 15 minutos, a equipa começou a ter referências, principalmente quando defendia. E quando começas a defender bem, começas a jogar também melhor.”
Noruega já aumenta a exigência
O próximo adversário será a Noruega e Jorge Jesus não esconde a dimensão do desafio.
“Portugal pode fazer melhor e vai fazer melhor.” E prosseguiu: “No próximo jogo com a Noruega temos de crescer mais, porque a Noruega, na minha opinião, é uma seleção muito forte. Tem dois avançados que talvez sejam das duplas mais fortes do mundo.”
Rúben Dias poderá encontrar pela frente Erling Haaland, seu colega no Manchester City, mas recusou transformar desde já o duelo numa questão individual.
“Já veremos. Agora é descansar bem. Como é óbvio, eles são uma equipa, não só pelo Haaland, forte e perigosa. Mas só vamos pensar nisso a partir de amanhã.”
O central aproveitou ainda para fechar definitivamente o ciclo do Mundial e deixar uma palavra a Roberto Martínez.
“O que queremos é sermos tão fortes quanto podemos ser e sentir que podemos chegar a uma fase final e ter impacto. É a nossa ambição.”
Depois acrescentou: “As reflexões já foram feitas e aproveito para deixar uma palavra ao mister Martínez. Foi uma pessoa impecável. Demos o nosso melhor com ele, só lhe tenho a agradecer todo o esforço, mas agora é uma nova etapa e só estou a pensar no que está a acontecer e no que aí vem.”
A confiança para o novo ciclo ficou resumida nas últimas palavras: “Estamos fortes, tenho muita esperança e acredito muito no que está para acontecer. Como tal, o foco está aqui.”
