José Tolentino Mendonça reflete sobre a necessidade de aceitar o inesperado: «A nossa forma de arrumação torna-se uma obsessiva ilusão», disse.
O cardeal José Tolentino de Mendonça partilhou nas redes sociais uma reflexão sobre a tendência humana para organizar, controlar e procurar uma determinada ordem na vida, contrapondo-a à importância de deixar espaço para aquilo que chega de forma inesperada.
Numa publicação feita na sua página de Facebook, o cardeal português começou por recuperar versos seus da obra «A Papoila e o Monge»:
«O meu desejo na primavera: / que mesmo as flores selvagens / venham florir à minha porta.»
A imagem do jardim serve depois como ponto de partida para falar da forma como cada pessoa tenta moldar aquilo que a rodeia.
«Por vezes a nossa vida é uma arte permanente»
«Gostamos da arte da jardinagem, e por vezes a nossa vida é uma arte permanente. Olhamos para o jardim, gostamos, não gostamos, intervimos, cortamos, cerceamos», escreveu José Tolentino Mendonça.
O cardeal compara esse impulso a «um jardim à maneira francesa», marcado pelo gosto «pelas figuras geométricas, pelas formas, pelo jogo da simetria, pelo padrão».
É precisamente nesse desejo de controlo que coloca uma das ideias centrais do texto.
«Por vezes, a nossa forma de arrumação torna-se uma obsessiva ilusão, porque a vida é viva, isto é, é informe, em bruto, não trabalhada.»
José Tolentino Mendonça defende, por isso, que é possível desejar ordem sem rejeitar aquilo que não estava previsto.
«Temos de desejar os nossos canteiros muito bem ordenados e floridos, mas também desejar que as flores selvagens, de que não conhecemos o nome nem a forma, venham florir à nossa porta.»
«Dão-nos o espelho do nosso inacabamento»
No final da reflexão, o cardeal regressa às flores selvagens para falar daquilo que escapa à normalização e ao controlo.
«Elas dão-nos o espelho do nosso inacabamento, dão-nos a impressão não de uma vida doméstica, que é sempre uma vida domesticada, mas a impressão de uma vida outra, de uma vida na sua torrente, na sua originalidade, na sua verdade.»
A publicação foi assinada pelo próprio José Tolentino Mendonça e partilhada esta semana nas suas redes sociais.
