Quinta-feira, Outubro 21, 2021

Juanito: “O público quando paga bilhete quer ver uma obra artística”

Juanito: “O público quando paga bilhete quer ver uma obra artística”
Fotografia: Rute Nunes e Carlos Pedroso

Juanito: “O público quando paga bilhete quer ver uma obra artística”, revela o matador de touros português em longa entrevista ao Infocul.pt.

Badajoz, é a localidade onde, actualmente, habita João Silva, conhecido na tauromaquia como Juanito. Em Badajoz, na praça de touros local, foi também onde tirou alternativa e onde no próximo dia 24 de Junho regressa.

Em praça estará frente a touros da ganadaria Zalduendo, compartindo cartel com Antonio Ferrera e Morante de la Puebla.

Manhã tórrida, calor forte, vento quase nem mirá-lo, mas nem por isso João abrandou a sua preparação. Primeiro física, depois técnica. Um silêncio apenas interrompido pela natureza.

Após a preparação diária, sentámo-nos de fronte da piscina que tem junto da sua casa. E conversámos, ao natural, sem rede e sem temas tabu.

João Silva tem a sua vida, actualmente, em Badajoz, mas não esquece as raízes nem o amor à pátria.

Questionado se actualmente se sente mais português ou espanhol, João respondeu-nos que “sou português! Nasci em Portugal, nasci português, a minha infância foi em Portugal, mas claro que aqui na Extremadura e restante Espanha tive a sorte, mas também devido ao trabalho, de me acolherem muito bem. É uma coisa que é muito difícil. É algo em que precisas de ter muita sorte, mas também muito trabalho e constância. E tens de o demonstrar todos os dias, e cada vez mais. Mas sou português, embora aqui na Extremadura seja onde tenho a minha casa, a minha vida e onde me tenho formado como toureiro. Aqui cresci como toureiro!”.

Lamenta que em Portugal não seja possível fazer uma temporada como matador de touros, “sim, o que referes, ter uma temporada completa como matador de touros em Portugal, é extremamente complicado. Primeiro, e temos de ser conscientes, ao nível de público. Felizmente que agora estamos numa fase de rejuvenescimento do toureio a pé em Portugal, mas passámos momentos críticos e complicados. E os primeiros culpados somos nós toureiros por não termos dado esse passo. Mas felizmente que agora se começa novamente a falar do toureio a pé em Portugal… Contudo, sabemos que a verdade vem daqui, as praças de 1ª e 2ª daqui são as que dão categoria, a importância de matar também conta”.

Juanito encontra-se num momento de grande tranquilidade, focado na sua carreira e em tudo o que um matador de touros precisa para que no dia da corrida possa brilhar.

Sim, é o que tu dizes. A vida não se resume aos dias em que temos corrida na praça, porque a corrida dura duas horas e são apenas duas horas na tua vida. Mas antes disso há todo um trabalho duro incrível, aliás como puderam ver quando chegaram, e são todos os dias assim”, contou, revelando depois como é o seu dia-a-dia: “Costumo levantar-me pelas 8:30/8:45, vou correr com os meus bandarilheiros (sempre que não há dias de campo), depois tenho um preparador físico para exercícios físicos e de explosão física, tudo de seguido. Depois, e friso muito isto, a parte de tourear de salão que acho que é muito importante”.

A pandemia provocada pela COVID-19 veio ainda obrigar os toureiros a uma melhor preparação, porque “devido à má sorte da pandemia, não havendo grande regularidade de corridas, há que batalhar todos os dias, trabalhar, tourear de salão, melhorar. A maior dificuldade é a pessoa não se deixar comer pelo artista, mas tu saberes preparar a pessoa para o artista”.

Prefere não definir o seu conceito de toureio, “apesar de os aficionados falarem em toureiros de intuição […] acredito que há toureiros que podem ter mais técnica e actuar de forma mais arrebatadora, mas todos os toureiros têm uma incrível preparação”.

Sobre a opção de ser toureiro, algo que vem desde muito novo devido à força que a tauromaquia tinha em sua casa, João explica que é uma vida que obriga a muito rigor e rápido amadurecimento.

Fazes-te homem demasiado cedo, a conviver com homens e adultos demasiado cedo, começas a ter conversas sérias demasiado cedo, o que é perfeitamente normal. Quando te metes à frente de um touro, ele não entende idades, género, momentos, e o público quando paga bilhete quer ver uma obra artística”, contou-nos.

Juanito que destacou a importância da mulher numa praça de touros, quer enquanto aficionada quer enquanto toureira.

Assume, inclusive, que começa a ter público feminino a segui-lo e considera isso muito positivo.

Sim, graças a Deus. Acho que é importante, não só para mim, mas para a tauromaquia que esse tipo de público tenha influência e que vá à praça. Primeiro de tudo, é importante a figura da mulher, seja na bancada ou na arena. A figura da mulher é de beleza e bonita e dá grandiosidade a uma corrida”, explicou-nos.

Na fase em que era criança, “era mais rebelde, mais brincalhão, engraçado. Mas tornei-me mais ponderado, até porque entrei num mundo mais adulto, com muitas decisões. As pessoas podem confundir isso com antipatia, mas não é nada disso. Os que me conhecem e estão perto sabem que sou muito brincalhão”, disse-nos sobre o seu processo de crescimento.

Já quando questionado se as miúdas eram mais atrevidas com ele ou o inverso, foi parco em palavras: “Depende do interesse”.

Sobre o afastamento que esta vida, de toureiro, provoca relativamente aos amigos de infância, explicou que “quando escolhes esta vida, não tens os teus amigos da universidade, tens um leque de pessoas próximas que são e tornam-se os teus melhores amigos. Agora está a acontecer uma coisa muito interessante. Os toureiros além de se relacionarem com as suas quadrilhas, relacionam-se muito com os ganadeiros”.

O normal [quando cresces e deixas os estudos e segues uma profissão] é que as pessoas se separem, mas mantenham contacto. Contudo, o meu percurso levou-me para longe dos meus amigos de infância, tive de fazer escolhas que me levaram a distanciar mais. Mas quando estamos juntos, divertimo-nos. Contudo, há coisas que não posso fazer. Eles têm férias no verão e no verão é quando tenho mais corridas, antes disso temos uma pré-temporada, temos de ser muito cuidadosos”, acrescentou.

João Silva destacou, ainda, a dificuldade de ser toureiro, “se me perguntares se tive dias em que me apeteceu deitar a toalha ao chão, digo-te que sim. As pessoas acham que isto é tudo muito bonito, todos os dias são bons, mas não é assim. Há dias verdadeiramente complicados”.

Eu cuido muito do físico, porque gosto muito de comer. Quando era pequeno não era assim, ainda a minha mãe hoje diz que era muito complicado. Era um pisco. De há uns anos para cá, não sei se da ansiedade ou dos nervos, como muitíssimo”, disse-nos.

Fotografia: Rute Nunes e Carlos Pedroso

No próximo dia 24 de Junho, regressa à praça de touros de Badajoz, praça onde tirou a alternativa.

A 22 de Junho de 2019 recebeu a alternativa das mãos de Antonio Ferrera, tendo como testemunha Cayetano Rivera Ordoñez.

O touro da sua alternativa pertenceu à ganadaria de Victoriano del Rio, tinha o número 54, chamava-se Lastimado e era colorado de capa.

Agora, a 24 de Junho, regressa a esta praça para compartir cartel com Antonio Ferrera e Morante de la Puebla.

Regressar à praça de Badajoz, além de ter sido ali que tirei alternativa foi ali que cresci como toureiro, é regressar a uma praça onde muito sonhei actuar, onde toureei milhares de vezes de salão, dando milhares de muletazos enquanto miúdo sonhar lá actuar”, explicou-nos.

Depois, voltar a tourear após a pandemia é mais difícil, daí a preparação ser mais dura, porque não vens rodado das corridas, não vens solto e livre, então tens de intensificar mais a preparação e isso claro que aumenta a responsabilidade e compromisso”, acrescentou.

Sobre a dificuldade em fazer amigos no meio tauromáquico, explicou que “não é fácil, sendo totalmente compreensível. É um mundo de muita competição, há menos corridas, todos querem estar nelas. Há competição entre os jovens e os consagrados, isso é também uma das coisas bonitas. Respeito todos os meus companheiros e tenho amizade com alguns”.

Nesta grande entrevista concedida ao Infocul, João Silva explicou ainda a origem do nome ‘Juanito’, curiosamente através de José Cutiño, empresário da praça de touros de Badajoz, numa história muito engraçada e que nos faz recuar à infância de João Silva.

No vídeo abaixo, além desta história, pode ainda ver e ouvir a importância que João Silva dá à família e os conselhos que deixa aos empresários tauromáquicos em Portugal.

Uma entrevista conduzida por Rui Lavrador, com vídeo a cargo de Rute Nunes e Carlos Pedroso:

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