Laura Pausini fez da MEO Arena uma viagem por mais de 30 anos de canções

Laura Pausini regressou esta quinta-feira, 22 de outubro, à MEO Arena, em Lisboa, com a «Io Canto World Tour» e voltou a mostrar por que razão conseguiu atravessar mais de três décadas de carreira sem ficar presa apenas à nostalgia de quem a descobriu nos anos 90. A produção é de grande escala, visualmente ambiciosa e construída para impressionar, mas aquilo que verdadeiramente sustenta o espetáculo continua a ser o mesmo de sempre: uma voz reconhecível ao primeiro instante e uma relação muito particular com um público que cresceu com as suas canções.

A cenografia assume a forma de uma enorme fortaleza digital, distribuída por vários níveis e superfícies de LED, que ao longo da noite muda de configuração, de cor e de ambiente. Há fogo, projeções, bailarinos, banda, coros e sucessivas mudanças de figurino, num espetáculo pensado ao detalhe e com uma dimensão que facilmente poderia colocar a cantora em segundo plano. Isso, porém, não acontece.

Laura Pausini consegue usar toda essa maquinaria sem se esconder atrás dela. Sempre que a produção ameaça ocupar demasiado espaço, a cantora recupera naturalmente o centro através da interpretação, e é sobretudo nos temas mais conhecidos que se percebe como o espetáculo não vive apenas do aparato visual, mas da memória coletiva construída ao longo de décadas.

«Io Canto» abre uma noite sem espaço para aquecimentos

A entrada com «Io Canto» coloca desde logo a voz de Laura Pausini em primeiro plano e elimina qualquer hipótese de início cauteloso. Não há uma primeira parte feita apenas para preparar o público. A cantora entra imediatamente num território vocal exigente e assume desde o primeiro momento a dimensão do espetáculo.

Ao longo da noite, a fortaleza criada em palco vai-se transformando e adaptando aos diferentes blocos do concerto, acompanhando as mudanças de ambiente musical sem retirar protagonismo às canções. Em alguns momentos, a cenografia ajuda a amplificar a intensidade; noutros, desaparece quase por completo da nossa atenção, sobretudo quando chegam temas como «Tra Te e il Mare», «Vivimi» ou «Invece No».

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É aí que se percebe que há canções que já não precisam de grande enquadramento cénico. Quando milhares de pessoas sabem a letra, antecipam a frase seguinte e reconhecem cada pausa da interpretação, os efeitos visuais passam a ser apenas complemento de uma ligação que já existia antes do concerto começar.

Uma carreira longa sem viver exclusivamente do passado

Um dos riscos mais evidentes para qualquer artista com mais de 30 anos de carreira é transformar os concertos em exercícios de nostalgia, apoiados exclusivamente na memória de quem acompanhou os primeiros discos. Laura Pausini poderia fazer isso com relativa facilidade, porque tem repertório suficiente para construir uma noite inteira apenas com sucessos antigos, mas a «Io Canto World Tour» tenta escapar a essa fórmula.

O público que hoje acompanha a cantora não é composto apenas por quem ouviu «La Solitudine» quando a música chegou às rádios no início dos anos 90. Há diferentes gerações, diferentes percursos e até diferentes línguas dentro da mesma arena, algo que ajuda a explicar a forma como Laura Pausini conseguiu transformar uma carreira profundamente italiana numa carreira internacional sem perder identidade.

Italiano, espanhol, português e inglês foram entrando no percurso da cantora ao longo dos anos, mas a impressão vocal nunca deixou de ser a mesma. A internacionalização não apagou a origem, antes lhe deu novas formas de chegar a públicos diferentes.

A própria «Io Canto World Tour» joga com essa ideia. Há sucessos próprios, homenagens, canções de outros autores e momentos em que Laura Pausini deixa de ser apenas a artista que todos conhecem para regressar ao lugar de alguém que também cresceu a ouvir outros músicos.

«Io Canto 2» devolve Laura Pausini ao lugar de fã

Depois de tantos anos a ouvir outras pessoas cantarem as suas músicas, Laura Pausini decidiu nesta fase da carreira fazer também o caminho inverso e interpretar temas que fizeram parte da sua própria formação musical.

«Ritorno ad Amare», de Biagio Antonacci, surge logo numa fase inicial do espetáculo, mas há espaço também para «Quanno Chiove», de Pino Daniele, «L’Italiano», de Toto Cutugno, ou «16 Marzo», de Achille Lauro.

Não se trata apenas de escolher canções conhecidas e encaixá-las num alinhamento. Há um lado quase confessional na forma como Laura recupera repertório alheio e o integra numa digressão com este peso biográfico. Durante alguns minutos, a cantora deixa de estar no centro por ser Laura Pausini e passa a estar no centro porque também foi, e continua a ser, uma ouvinte.

Essa dimensão ajuda a humanizar um espetáculo visualmente gigantesco, porque cria contraste entre o aparato cénico e uma artista que ainda consegue mostrar referências, admirações e influências sem transformar tudo numa celebração da própria carreira.

O problema inevitável de ter canções a mais

Há, no entanto, um problema que acompanha qualquer artista com um catálogo tão extenso: é impossível tocar tudo.

Laura Pausini tem sucessos suficientes para prolongar o concerto muito além das duas horas e meia, e a solução encontrada nesta digressão passa por vários medleys que permitem atravessar fases diferentes da carreira sem transformar a noite numa maratona interminável.

«Ascolta il tuo cuore», «Benedetta Passione» e «Il primo passo sulla luna» aparecem agrupadas num dos blocos, enquanto «La prospettiva di me», «Frasi a metà» e «Una storia che vale» surgem noutro momento. Mais tarde, o espetáculo ganha uma tonalidade mais latina com uma sequência onde convivem «La mia banda suona il rock», «Livin’ la Vida Loca», «La Isla Bonita», «Non c’è», «Se fue» e «Oye mi canto».

Há ainda espaço para um bloco que reúne «Simili», «Le cose che vivi», «Benvenuto» e «Primavera in anticipo».

A solução funciona porque permite mostrar a dimensão do repertório, mas não deixa de ter um preço. Quem tem uma ligação particular a determinada canção poderá sentir que alguns temas terminam precisamente quando começavam a ganhar corpo. É uma consequência natural de tentar condensar mais de três décadas de carreira num único espetáculo.

Também as mudanças de figurino e a necessidade de reorganizar uma produção tão complexa introduzem pequenas quebras de ritmo. Não chegam a comprometer a noite, mas fazem sentir em alguns momentos o peso da estrutura que é necessária para manter um espetáculo desta dimensão.

Entre a balada, o rock e a América Latina

A «Io Canto World Tour» está organizada por capítulos e isso evita que o concerto fique preso a um único tom emocional.

Há a Laura das grandes baladas, aquela que talvez tenha criado a imagem mais forte junto do público português, mas há também uma cantora muito confortável no pop, no rock e nas sonoridades latinas. Ao longo da noite, essa variedade é usada para criar movimento e impedir que o espetáculo se torne demasiado previsível.

O concerto acelera e desacelera, passa de momentos de maior intensidade para outros mais íntimos e deixa espaço para versões de «Set Fire to the Rain», «Uptown Funk», «Call Me» ou «Proud Mary».

Laura Pausini não parece interessada em utilizar estas canções para provar versatilidade. Aos 52 anos e com uma carreira desta dimensão, essa demonstração seria desnecessária. O que se percebe é sobretudo prazer em cantar e alguma liberdade para sair do território onde o público normalmente a coloca.

Essa descontração acaba por contaminar a própria arena e é também uma das razões pelas quais o espetáculo não soa a uma celebração demasiado rígida de carreira.

Quando o espetáculo deixa de precisar do cenário

Os momentos mais reveladores da noite talvez sejam aqueles em que mentalmente se poderia retirar quase tudo aquilo que está em palco e, ainda assim, o concerto continuaria de pé.

«Io Sì», tema que levou Laura Pausini também para o universo do cinema internacional, é um desses momentos. «E ritorno da te», «Un’emergenza d’amore», «In assenza di te» e «Resta in ascolto» pertencem ao mesmo território.

É nestas canções que se percebe melhor uma das razões da longevidade de Laura Pausini. A cantora atravessou várias mudanças na indústria musical, sobreviveu a modas e a alterações profundas na forma como as pessoas consomem música sem tentar artificialmente parecer-se com quem chegou depois.

Continuou a soar a Laura Pausini.

Isso pode parecer uma evidência, mas não é. Numa carreira longa, manter identidade sem ficar parado no tempo talvez seja uma das tarefas mais difíceis.

A voz mudou, como tinha de mudar

Seria pouco honesto ouvir Laura Pausini em 2026 à procura da mesma voz que tinha quando venceu Sanremo em 1993. Mais de três décadas de palco alteram qualquer instrumento humano e a voz da cantora também carrega essa passagem do tempo.

O que existe hoje é uma interpretação mais madura e mais consciente da forma como deve gerir a potência vocal ao longo de um espetáculo extenso. Laura continua a conseguir sobrepor-se a uma banda inteira quando a música o exige, mas já não parece sentir necessidade de transformar cada tema numa demonstração permanente de força.

Há mais controlo, mais gestão e também uma capacidade diferente de escolher onde colocar intensidade.

A juventude vocal pode ter outras características, mas a experiência trouxe-lhe uma leitura muito mais apurada das próprias canções. É aí que uma frase cantada centenas de vezes consegue continuar a parecer emocionalmente válida.

Lisboa e Laura Pausini já têm uma história própria

A relação da cantora com Portugal atravessou um período demasiado longo sem concertos em nome próprio, até ao regresso em 2024, cerca de 25 anos depois da anterior atuação portuguesa.

A resposta nessa altura mostrou que a ausência dos palcos nacionais não significara ausência da memória coletiva.

Dois anos depois, Laura Pausini voltou à MEO Arena já sem o peso simbólico de um reencontro após décadas. Desta vez havia outra coisa: continuidade.

Ao longo da carreira, a italiana manteve também uma relação próxima com a língua portuguesa, que utilizou em diferentes momentos e voltou a integrar neste novo ciclo musical.

Talvez essa ligação ajude a explicar por que razão Portugal nunca tratou Laura Pausini apenas como uma cantora estrangeira que teve alguns sucessos por cá. Muitas das suas músicas chegaram numa época em que a rádio ainda conseguia transformar uma canção italiana ou espanhola numa presença quase diária na vida de milhares de pessoas.

«Se fue» não precisou de tradução para criar ligação. «La Solitudine» muito menos.

O final pertence às músicas que já não são apenas dela

A reta final guarda alguns dos temas mais fortes de todo o repertório.

«Strani Amori», «La Solitudine» e «Incancellabile» surgem quando o espetáculo já percorreu diferentes fases, estilos, homenagens e experiências, e acabam por devolver a noite ao ponto onde a relação entre Laura Pausini e o público se torna mais evidente.

Há músicas que, depois de muitos anos, deixam parcialmente de pertencer ao artista que as gravou.

«La Solitudine» é uma delas.

Continua a ser Laura Pausini quem a canta, naturalmente, mas a canção pertence também a quem a ouviu na adolescência, a quem a descobriu na rádio, numa cassete, num CD ou numa viagem de carro, e a quem regressa a ela décadas depois já numa fase completamente diferente da vida.

Essa é talvez a maior força deste concerto.

Não é apenas ouvir Laura Pausini cantar músicas antigas. É perceber que essas músicas envelheceram ao mesmo tempo que o público e carregam agora memórias que já não pertencem exclusivamente à pessoa que está em palco.

A «Io Canto World Tour» chegou a Lisboa com uma produção pensada para impressionar pela dimensão, mas acabou por confirmar que a verdadeira escala de Laura Pausini continua a medir-se menos pelos ecrãs, pelo fogo ou pela quantidade de elementos em palco e mais pela facilidade com que milhares de pessoas reconhecem uma canção ao primeiro acorde.

Mais de três décadas depois, Laura Pausini não precisa de transformar cada concerto numa prova de sobrevivência artística. A MEO Arena recebeu uma cantora que já ultrapassou essa fase e que pode agora fazer aquilo que talvez seja mais difícil: olhar para a própria história sem ficar presa dentro dela.

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