Marcos Bastinhas e o regresso: “Quero viver apenas o agora” revela em segunda parte da entrevista ao Infocul, que concedeu na sua casa em Elvas.
Entrevista e Texto: André Nunes
Fotografia: Diogo Nora
Vídeo: Nuno Almeida
“Vamos sempre procurando aquele cavalo perfeito, que nunca encontramos”
Na segunda parte da conversa, Marcos Bastinhas recebe as perguntas num registo próximo e reflexivo. Depois de já ter falado com o diretor Rui Lavrador, a entrevista recua no tempo para abordar outras dimensões do seu quotidiano, nomeadamente a ligação ao mundo rural e ao setor agrícola, onde se inclui a coudelaria que gere em família, com o irmão e a mãe.
Presente diariamente na coudelaria, Marcos descreve um trabalho feito de observação, tentativa e prazer. “Na coudelaria também estou presente diariamente e também vou sempre procurando, também é muito giro porque vamos sempre procurando qual será a melhor ligação para chegarmos àquele dito cavalo perfeito, que nunca encontramos, mas que procuramos”, explica, sublinhando o jogo quase genético e emocional de tentar conjugar características entre éguas e garanhões. Uma procura que não visa a perfeição absoluta, mas sim aquilo que faz sentido para quem cria: “não quer dizer que seja o mais perfeito, mas que nos sirva melhor a nós próprios”.

“São cavalos que têm uma cabeça extraordinária”
A base genética da coudelaria remonta a um cavalo marcante, que integrou a quadra do seu pai. Apesar de já não estar vivo, continua presente através dos descendentes. Marcos explica o que procura manter nessa linhagem: “são uns cavalos que têm uma cabeça extraordinária, nós quando dizemos que têm uma cabeça extraordinária é o facto de aprenderem bem, de serem dóceis, de serem muito afáveis para as pessoas e de terem uma pronta resposta ao que nós lhe pedimos e ensinamos”.
A par do temperamento, há também uma exigência física e estética: “procuramos um cavalo que seja muito elástico, que seja muito dinâmico, que seja muito rápido a executar o que nós lhe pedimos e que também tenha uma beleza e um porte físico também muito bom”.

“Temos de tirar positividade de todas as coisas”
O trabalho na coudelaria, tal como o agrícola, surge como uma experiência quase terapêutica. Para Marcos, o prazer no que se faz é essencial: “se conseguirmos ter esse prazer diário em qualquer coisa que fazemos será muito mais benéfico para nós, para as nossas vidas”.
Defende que muitas frustrações surgem quando as pessoas ficam presas a situações que já não lhes trazem alegria, o que acaba por gerar revolta interior.

“Sempre fui acompanhado por cavalos a vida toda”
A relação com os cavalos é também formativa e emocional. Marcos recorda a infância passada no campo, com o avô, em momentos de liberdade absoluta. “Hoje em dia olho para trás e vejo que era muito bonito estar naqueles momentos com o meu avô no campo a montar sem pensar em nada, apenas a desfrutar do momento”, confessa, assumindo uma nostalgia por esse tempo em que o prazer estava dissociado de objetivos e resultados.
A formação técnica, feita em Mafra e na Calçada da Ajuda, trouxe-lhe disciplina e estrutura, num contexto militar que reconhece como determinante, não só como cavaleiro, mas também como pessoa.

“É sempre bom absorvermos de vários sítios”
O contacto com diferentes disciplinas — dressage, obstáculos e equitação clássica — ajudou a construir um estilo próprio. Para Marcos, a diversidade é essencial: “é sempre bom absorvermos de vários sítios, não só de um sítio”, defendendo que o cruzamento de aprendizagens gera resultados diferentes e mais ricos.

“Quero viver apenas o agora”
Se há um tema transversal à conversa é o da consciência do presente. Marcos admite que durante muito tempo montou sempre com objetivos técnicos, deixando o prazer para segundo plano. Hoje tenta regressar a uma equitação mais intuitiva, livre e emocional.
Essa mesma filosofia aplica-se à vida. Quando questionado sobre o futuro, é claro: “não me permite fazer futurologia. Permite-me sim estar no presente e controlar as coisas que eu posso controlar”. O futuro, diz, não é controlável, e pensar constantemente no que virá rouba valor ao agora.

“Foi libertador, foi um peso que saiu de cima”
Ao abordar a questão da saúde mental, Marcos fala sem filtros. Assumir essa humanidade foi simultaneamente libertador e desafiante. “foi também eu conhecer uma realidade que não conhecia”, admite, relatando o choque com a incompreensão de algumas pessoas. Ainda assim, acredita que a informação e o exemplo são fundamentais para quebrar preconceitos.
A mensagem que deixa a quem atravessa situações semelhantes é direta: “Que procure ajuda. Penso que a ajuda é fundamental”, oferecendo-se inclusive para ajudar quem precise de orientação.

“Quero ter essa oportunidade de voltar a pisar numa arena”
Sobre um eventual regresso, Marcos não fecha portas. A frase “2026 e regresso” faz sentido, diz, sobretudo pela necessidade emocional de voltar à arena, nem que seja para agradecer. “tenho de voltar a pisar numa arena para lhe dar essa resposta e essa contribuição”, reconhecendo o apoio constante do público, e em especial aos “Bastinhistas”, expressão usada pelo entrevistador.

“O que me deixaria feliz era se a minha família se lembrasse de mim com orgulho”
No final, quando se fala de legado, Marcos afasta-se de títulos ou feitos públicos. O essencial está na esfera íntima. “para mim a família é tudo, é o centro da vida”, conclui, afirmando que nada o deixaria mais feliz do que ser recordado com orgulho por quem lhe é mais próximo.
Um testemunho sereno, consciente e profundamente humano, onde o campo, os cavalos e a arena se cruzam com uma ideia simples e poderosa: viver o presente com verdade.


Veja a segunda parte da entrevista no vídeo abaixo:
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