Miguel Gomes quer filmar manifestações pela habitação no Rossio, em Lisboa, para incorporar essas imagens em «Selvajaria». O realizador e a produtora Filipa Reis apresentaram um pedido urgente de autorização de rodagem à Câmara Municipal de Lisboa, segundo um comunicado divulgado pela Uma Pedra no Sapato.
Rodado no Brasil, o filme deverá estar concluído na primavera de 2027. A intenção é integrar na montagem imagens das acampadas pelo direito à habitação, estabelecendo uma ligação entre a resistência retratada na obra e os protestos em Portugal.
O comunicado dá conta do pedido à autarquia, mas não indica que a autorização já tenha sido concedida.
Filipa Reis explica ligação entre o filme e os protestos
Para a produtora, os acontecimentos em Lisboa e no Porto encontram correspondência nos temas que atravessam «Selvajaria», nomeadamente a resistência de uma comunidade perante o poder.
“«Selvajaria» revela-nos o poder da luta e da resistência, quando o poder autoritário quer impor a sua visão sobre os valores que devem reger a sociedade, quando não há abertura para expressar opiniões ou contestar as leis que são implementadas”, afirma Filipa Reis, em comunicado.
A responsável da Uma Pedra no Sapato explica também o que motivou a iniciativa: “O que temos assistido em Lisboa e no Porto, com manifestações pacíficas de milhares de pessoas em prol de um direito básico e constitucional, como é o da habitação, faz com que queiramos também integrar estas imagens de resiliência no nosso filme.”
Embora a produtora mencione os protestos nas duas cidades, o pedido de rodagem anunciado diz respeito às acampadas no Rossio.
«Selvajaria» parte de «Os Sertões», de Euclides da Cunha
O novo filme de Miguel Gomes é uma adaptação livre de «Os Sertões», obra de Euclides da Cunha sobre a guerra de Canudos, na Bahia, no final do século XIX.
A narrativa acompanha os sertanejos liderados pelo profeta Antônio Conselheiro, cercados por milhares de soldados da jovem república brasileira. Os militares procuram capturar o líder religioso e dissolver a comunidade, que se opõe ao novo regime.
Após meses de conflito, os soldados enfrentam a resistência dos habitantes, a fome e as condições adversas do território. Para sobreviver, acabam por adotar hábitos daqueles que combatem, até que a chegada de reforços e mantimentos prepara um novo ataque.
É a esta história que Miguel Gomes e Filipa Reis pretendem juntar imagens dos protestos pela habitação, através da montagem de «Selvajaria».
