Morante: Um regresso que merecia surpresa ou quando o anúncio tira a magia

Morante: Um regresso que merecia surpresa ou quando o anúncio tira a magia, um artigo de opinião sobre o artista tauromáquico de La Puebla. 

Bilhetes e expectativas: a arte de surpreender

Morante de la Puebla regressa sem surpresa e sem espetáculo. Foi anunciado que ele voltaria a uma praça épica, com bilhetes já à venda para uma data especial. Mas se a tauromaquia é arte e espetáculo, por que não fazê-lo de outra forma?

Nota inicial: este artigo não se prende aos cânones ou termos tauromáquicos. O objetivo é transportar a linguagem e o espírito da arte taurina para outras áreas culturais e do espetáculo, valorizando-a perante um público mais amplo, até “viral”. Afinal, estamos num fim de defeso, com alguns cartéis já anunciados — que vão do engraçado ao medíocre — e a surpresa seria um sopro de emoção.

Morante como artista universal

Talvez por terras lusas, para venda de bilhetes e calar as “más bocas”, uma praça previamente esgotada seria isso mesmo, com Morante anunciado e com bons olhos postos na nossa cultura e tradição. Mas, na data que é e no sítio que é, com os colegas Rey e Miranda, seria o regresso de Morante necessário para vender bilhetes? 

Até porque é o regresso de um dos maiores artistas da arte tauromáquica, sempre bem-vindo e sempre diferente. Um artista completo, tal como Chaplin estava para o cinema mudo, tal como James Dean estava para a mudança do paradoxo do que é ser ator/artista em Hollywood, tal como Picasso para a pintura e Kurt Cobain para a mudança da estela da música como pessoa vulnerável e com faíscas que levam à autodestruição. 

A sensibilidade da arte de Morante de la Puebla requer mais

Todos artistas misteriosos, com uma outra sensibilidade para as suas áreas, tal como Morante de la Puebla. É sempre diferente, enigmático, muda paradigmas e é sempre especial. Nunca tem a mesma prestação, e o público come tudo isso como a brigada da terceira idade come amendoins e sementes nas praças. Mas, se assim é, por que não um regresso diferente? Por que não um regresso SURPRESA?

Porque não um regresso inesperado? Repentino e silencioso, antes dos gritos de um público louco?

Um regresso inesperado: o poder da surpresa ideal com pasodobles e emoção

Imagine-se: os matadores já anunciados, Roca Rey e Miranda, entram no paseíllo, o pasodoble característico toca, e o público espera mais um momento familiar. De repente, silêncio. A banda começa a tocar com emoção o pasodoble “Morante de la Puebla”, de Abel Moreno Gómez, com aquele riff inicial cinematográfico que eleva o suspense. Pela porta grande, surge de la Puebla. Artifícios, máquina de fumo, luzes, o seu traje inspirado nos tempos áureos e clássicos da tauromaquia — tudo é usado para intensificar o momento. A reação do público seria estrondosa.

Oiça qui: https://www.youtube.com/watch?v=T60ObJ9rOpw

Ou, num toque ainda mais cultural já que por cá também misturamos Fado e pasodobles, poderia entrar a canção ao vivo de José Luis del Serranito, no trecho impactante aos 55 segundos do tema:
“Morante tórea / Y se para el tiempo / Campanas de bronce / Suenan en el cielo”

Oiça aqui: https://www.youtube.com/watch?v=T6p_q2dIzic 

O paralelo com o wrestling com outros grandes espetáculos


No wrestling, os regressos são sempre surpresa. Um lutador interrompe outro, a música característica toca, luzes e fogo de artifício explodem, e o público reage com êxtase. A emoção é instantânea e viraliza neste novo mundo digital (aliás, este é um “cavalo” cujas rédeas os empresários e artistas tauromáquicos têm de se agarrar com mais conhecimento e convicção). 

É a mesma lógica que Morante poderia aplicar: entrar sem aviso, provocar arrepio coletivo e elevar o espetáculo ao máximo. Um regresso assim, confiante e arrebatador, transformaria a Plaza de Toros de la Real Maestranza de Caballería de Sevilla numa experiência inesquecível — como qualquer grande retorno deve ser.

Grandes regressos que marcaram gerações

Há regressos que não precisam de anúncio, nem de cartaz, nem de promessas antecipadas. No wrestling, os momentos mais inesquecíveis da história nasceram precisamente do inesperado. 

Quando John Cena apareceu no Royal Rumble de 2008 meses antes do previsto devido a uma lesão grave, a arena ficou em choque; quando Edge regressou no Royal Rumble de 2020, depois de todos acreditarem que nunca mais lutaria após 9 anos de uma lesão quase mortal, o tempo parou; quando CM Punk voltou em 2021, após sete anos de silêncio na empresa e polémicas enormes de “bate boca”, bastaram poucos segundos de música para provocar uma das maiores explosões emocionais de sempre. 

As luzes apagam-se, a música começa e o impacto é surreal

Nenhum desses momentos teria tido o mesmo impacto se tivesse sido previamente anunciado.

Veja aqui alguns dos maiores regressos, https://www.youtube.com/shorts/ilp9JjOWiLk, e aqui o regresso de John Cena no pay-per-view Royal Rumble 2008, no Madison Square Garden https://www.youtube.com/watch?v=bNlObJjzoyk. Repare na reação retumbante do público em todos os regressos não anunciados! 

São regressos que não se explicam — sentem-se. As luzes apagam-se, a música começa, e durante um instante o público não acredita no que está a ver. É nesse espaço entre a surpresa e a emoção que nasce a magia do wrestling. É memória coletiva, é saudade transformada em grito.

Robert Downey Jr. e o efeito da surpresa no cinema

Há surpresas que redefinem uma era inteira. Imaginar o regresso de Robert Downey Jr. ao Universo Cinematográfico da Marvel (MCU) é imaginar um desses momentos raros em que o cinema respira como um espetáculo ao vivo. 

Não um anúncio em conferência de imprensa, não um teaser revelador, mas um instante puro de choque emocional, na Comic Con de San Diego em 2024, com uma sala repleta de fãs ansiosos. 

A câmara fixa-se numa figura imponente, Doctor Doom, envolto em mistério. A máscara cai. E, por um segundo, o mundo prende a respiração. É Tony Stark. É Robert Downey Jr. De volta. Pode ver o momento aqui: https://www.youtube.com/watch?v=jmM1BRu4hSw

Porque Morante devia regressar sem aviso e pompa publicitária

É por isso que o regresso de uma figura como o matador Morante de la Puebla devia seguir esse mesmo caminho. Morante não pertence à lógica do calendário nem à previsibilidade do marketing. 

Tal como as grandes lendas do wrestling, ele é génio, é instinto, é imprevisibilidade. 

Anunciar previamente o seu regresso seria retirar à arena o momento mais precioso: aquele segundo em que o coração reconhece antes da mente.

Siga-nos no Google News
André Nunes
André Nunes
André Nunes escreve e fotografa para o Infocul.pt. Entre a cultura western e country, a música, o cinema, os desportos americanos e a tauromaquia, procura novas formas de olhar o espetáculo taurino, mundo do espetáculo no geral, a tradição e as narrativas que continuam a reinventar-se no tempo, como corpo vivo da identidade humana.

Artigos Relacionados

Siga-nos nas redes sociais

31,799FãsCurtir
12,697SeguidoresSeguir
438SeguidoresSeguir
314InscritosInscrever