Música portuguesa despede-se de Jorge Palma: «Nunca haverá outro», foi destacado no dia de hoje.
Não foram apenas as canções de Jorge Palma que começaram a ser recuperadas nas horas seguintes à notícia da sua morte. Entre músicos que partilharam palcos, amizades e diferentes momentos da vida com o cantor e compositor, as redes sociais encheram-se de fotografias, memórias e palavras de despedida.
Carolina Deslandes foi uma das artistas que lhe dedicou um texto mais longo. Chamou-lhe «o inventor das palavras» e não escondeu o impacto que a morte do músico teve em si.
«Morreu o homem que me fez sentir que a poesia morreu com ele.»
Na mesma homenagem, Carolina Deslandes deixou também uma reflexão sobre a forma como Portugal se relaciona com os artistas mais velhos, considerando que Jorge Palma não terá recebido em vida todo o reconhecimento que merecia.
«O Jorge não foi amado à proporção da sua genialidade.»
E terminou de forma taxativa:
«Nunca haverá outro Jorge Palma. E o mundo hoje acordou mais feio e mais só.»
Paulo Gonzo: «Perdi um irmão»
Mais do que um colega de profissão, Paulo Gonzo perdeu alguém que considerava família.
«Perdi um irmão.»
Foram décadas de proximidade que o cantor procurou resumir numa mensagem de despedida.
«Foram muitos anos de vida, de música, de palcos, de conversas, de cumplicidade. Daquelas amizades que já não precisam de explicação, porque fazem parte de nós.»
Paulo Gonzo confessou ainda ser difícil encontrar palavras para um momento para o qual nunca se está verdadeiramente preparado.
«Obrigado por tudo, Jorge. Pela música, pela amizade, pelas memórias e por tantos pedaços de vida que levamos juntos. Vais fazer-me muita falta, meu irmão.»
Pedro Abrunhosa também escreveu sobre o amigo e sobre a dimensão que atribui à obra de Jorge Palma. Para o músico, aquilo que Palma deixou não se limita à sua discografia.
«A sua música é espinha dorsal deste país.»
Abrunhosa recordou que durante muitos espetáculos terminou os concertos com «Encosta-te a Mim» e revelou que, apenas três dias antes da morte de Palma, lhe tinha dedicado a última canção de uma atuação.
Não viu esse momento como uma premonição.
«Foi respeito. Pelo homem e amigo que foi e pelo Músico que há-de continuar a ser.»
E terminou:
«Este país não faz ideia do quanto precisa de ti, Jorge! Encosta-te a nós. E obrigado! Mil vezes, Obrigado!»
David Fonseca recorda o «espírito livre»
David Fonseca escolheu recordar não apenas o compositor, letrista, intérprete e pianista, mas sobretudo a personalidade que encontrou sempre que se cruzou com Jorge Palma.
«O que eu mais admirava era a sua forma inconformada de estar no mundo, um espírito livre que não se encaixava em nenhuma prateleira possível.»
Para David Fonseca, Palma conseguiu conservar essa identidade num meio cada vez mais formatado:
«Num mundo tão formatado como o nosso, ele seguiu o seu caminho único, igual a si próprio e a mais ninguém.»
O músico recordou ainda a relação de Jorge Palma com o público, nomeadamente o silêncio que se instalava quando começava uma canção e os aplausos que surgiam no final.
David Fonseca admitiu também que continuava a sentir-se um admirador quando estava junto de Palma, embora esse nervosismo desaparecesse rapidamente perante a simplicidade com que era recebido.
Samuel Úria encontrou menos palavras.
«O que hoje perdemos não é sequer do domínio do dizível.»
O músico recuperou nas redes sociais uma versão de «Beijos e Papas de Leite», gravada quando Jorge Palma completou 70 anos, e contrapôs a dimensão da perda àquilo que permanece.
«Mas o que fica é, e será — pelo menos enquanto este país existir (e houver estrada para andar).»
A despedida terminou com uma pergunta:
«Que miseráveis que teríamos sido sem ti, Jorge. E agora?»
Tim recupera a «derradeira vénia»
Tim, que partilhou com Jorge Palma o projeto Rio Grande, preferiu poucas palavras.
O vocalista dos Xutos & Pontapés publicou uma fotografia daquele que descreveu como o momento da «derradeira vénia» entre ambos e escreveu simplesmente:
«Obrigado Jorge.»
Também Mafalda Veiga escolheu uma fotografia para guardar uma memória muito particular. Na imagem, Jorge Palma surge a pintar-lhe a mão.
«Querido Jorge Palma, esta tatuagem será sempre eterna. Obrigada por tudo.»
Camané recordou, por sua vez, as diferentes dimensões de Palma, descrevendo-o como «grande compositor, grande letrista, homem de cultura e da cultura», mas acrescentando aquela que, neste momento, se tornou a mais pessoal: «um amigo».
«Um abraço, Jorge.»
Entre textos longos e despedidas reduzidas a duas palavras, as homenagens mostram diferentes relações com Jorge Palma. Para uns desapareceu uma referência musical; para outros, desapareceu também o homem com quem dividiram palcos, conversas, viagens e anos de amizade.
E talvez por isso muitas das mensagens publicadas esta terça-feira tenham acabado por fugir às grandes definições sobre a carreira. Quem esteve próximo de Jorge Palma falou sobretudo do amigo. Quem cresceu a ouvi-lo falou do homem que escreveu algumas das canções que os acompanharam.
Como escreveu Carolina Deslandes: «Nunca haverá outro Jorge Palma.»
