O Padre Guilherme Peixoto criticou a comunicação da Igreja Católica sobre os abusos sexuais, considerando que a forma como foram transmitidas algumas decisões comprometeu o trabalho desenvolvido junto das vítimas. No podcast «Isso Não Se Diz», de Bruno Nogueira, o sacerdote descreveu uma abordagem que, em determinados momentos, classificou como “miserável” e amadora.
A conversa aconteceu depois da polémica em torno de um sketch da série «Ruído», no qual Bruno Nogueira recorreu a uma paródia da Eucaristia para abordar os abusos na Igreja. Perante o humorista, o padre, também conhecido pela sua atividade como DJ, distinguiu a atuação da instituição da forma como esta foi apresentada publicamente.
“Em muitos casos que tivemos, a postura da Igreja foi incrível, mas a comunicação foi miserável. A Igreja, em muitos dos casos, por exemplo na gestão da pedofilia, ao ouvir as vítimas, falar com elas, criar uma comissão independente, Portugal foi dos primeiros países do mundo a fazer isso. Quando começa a comunicar o que estava feito, tudo foi feito parece que de uma forma amadora”, afirmou.
“As vítimas não esquecem, querem ser ouvidas”
Bruno Nogueira observou que os problemas não desaparecem por terem sido mal comunicados. Guilherme Peixoto concordou e sublinhou a importância de a instituição reconhecer publicamente o que aconteceu.
“Não só não desaparece como piora sempre, porque as vítimas não esquecem, querem ser ouvidas, querem que a Igreja assuma, não às escondidas, mas às claras, aquilo que aconteceu e a Igreja fez esse caminho”, respondeu.
O sacerdote assumiu o desconforto que sentiu perante algumas intervenções públicas: “O que me dói é que a Igreja fez o caminho, mas, quando começa depois a falar, foi em alguns casos de deitar as mãos à cabeça. Foi muito mau.”
Ainda assim, afastou, na sua leitura, a hipótese de uma estratégia deliberada de ocultação: “Não acredito que seja uma estratégia, porque, se for, não está a resultar. Acredito que, olhando para algumas dioceses e alguns comunicados, lembro-me que algumas são economicamente dioceses que contam as moedinhas, como costumamos dizer.”
Falta de recursos e resistência aos gabinetes de apoio
Para o convidado de «Isso Não Se Diz», parte das dificuldades pode explicar-se pelas limitações financeiras das estruturas locais. “Penso que, em muitos casos, foi uma questão de gestão de recursos”, sustentou.
Nesse sentido, desenvolveu: “Uma diocese que não tem muitas possibilidades económicas de contratar duas ou três pessoas para este gabinete não o faz simplesmente. E depois vai comunicar como acha que estamos bem, que não temos nada a esconder…”
Guilherme Peixoto recordou também aquilo que descreveu como uma resistência inicial à criação de estruturas permanentes de apoio às vítimas, atribuindo a orientação a Bento XVI.
“Quando o Papa Bento XVI determinou que em todas as dioceses tinha de existir um gabinete de apoio às vítimas permanente e aberto, com a pessoa a tempo inteiro lá. Algumas dioceses no início questionavam: ‘Se nunca tivemos nenhuma queixa, porquê ter isto?’ E precisamente é para, se existir, estar lá alguém para receber”, relatou.
Exigência à Conferência Episcopal
Apesar de reconhecer as dificuldades das dioceses com menos meios, o sacerdote defendeu que a Conferência Episcopal Portuguesa tem uma responsabilidade acrescida na preparação da comunicação.
“Mais uma vez, Portugal foi dos primeiros a adotar essa medida, de ter as portas abertas. Mas quando se tratava de explicar, mesmo uma diocese mais pobre, do interior, sem comunicações para ter uma equipa de comunicação preparada para isto… A Conferência Episcopal tem de a ter. Quando são os bispos como um todo a falar… se é importante uma diocese estar bem organizada, a Conferência Episcopal muito mais”, concluiu.
