Passos Coelho admite regresso se PSD falhar e critica Montenegro por não procurar acordo à direita

Passos Coelho admite regresso se PSD falhar e critica Montenegro por não procurar acordo à direita, em entrevista.

Na SIC Notícias, o antigo primeiro-ministro negou estar a preparar uma candidatura, mas deixou aberta a possibilidade de voltar à política ativa. Defendeu entendimentos com Chega e IL, criticou a lentidão das reformas e alertou para a degradação do SNS.

Pedro Passos Coelho admitiu ponderar um regresso à política ativa se o PSD não conseguir dar uma resposta satisfatória ao país. Na entrevista conduzida por Maria João Avillez, transmitida pela SIC Notícias no domingo, 11 de outubro, garantiu que não tem uma candidatura em preparação, mas deixou um aviso à liderança social-democrata.

“Se eu tivesse de equacionar um regresso à política ativa, tinha de corresponder à ideia de que tinha a obrigação e a possibilidade de fazer alguma coisa de diferente. Se isso se vier a colocar, se o PSD não vier a ser bem-sucedido, se não vier a entregar um resultado satisfatório, ponderarei e tomarei uma iniciativa”, afirmou.

A possibilidade surgiu numa entrevista marcada por críticas à estratégia parlamentar de Luís Montenegro e à velocidade com que o Governo está a executar as mudanças que prometeu.

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“Não sou candidato a nada”

Passos Coelho procurou distinguir a disponibilidade para intervir de uma decisão já tomada sobre o seu futuro.

“Nesta altura não sou candidato a nada, nem estou a preparar nenhuma candidatura. Se o estivesse a fazer, dizia-o”, assegurou.

O antigo primeiro-ministro disse não procurar protagonismo, mas considerou que o afastamento de cargos políticos não eliminou as responsabilidades que sente perante o país.

“Acho que tenho algumas responsabilidades, que não se esgotaram depois de ter deixado de ser governante. (…) É um exercício que tenho o dever de fazer. Não é invulgar ser abordado na rua por pessoas que gostavam que eu interviesse mais.”

Reforçou que uma eventual decisão teria de assentar numa proposta distinta: “Se um dia eu equacionar [um regresso] será para oferecer algo diferente.”

Entendimento com Chega e IL devia ter sido tentado

Uma das críticas centrais incidiu na ausência de um acordo mais estável à direita. Passos defendeu que o PSD tinha a obrigação de explorar uma solução com o Chega e a Iniciativa Liberal.

“O PSD tinha obrigação de explorar essa possibilidade. Talvez não fosse fácil, mas era importante tentá-lo. Os governos de coligação não são fáceis, mas julgo que o PSD deveria ter tentado.”

Na sua avaliação, a composição do parlamento justificava essa iniciativa: “Mais de 60% dos deputados no parlamento se situam à direita do Partido Socialista.” Por isso, acrescentou, “essa maioria deveria estar a ser explorada desde o início, com o Chega e com a Iniciativa Liberal”.

Recorrendo à experiência de governação com o CDS, sustentou que “os governos para poderem transformar alguma coisa de importante precisam de apoio (…) no parlamento”.

O Executivo, defendeu, “devia ter tentado criar condições, ou com coligações, ou com acordos parlamentares, para ter um programa que pudesse durante quatro anos ser executado”.

Elogio a Ventura e rejeição de um Bloco Central

Ao analisar o papel do Chega, Passos Coelho descreveu André Ventura como “uma pessoa com bastante mérito e um político com um poder de iniciativa notável”. Relacionou ainda parte do populismo do partido com a ausência de experiência governativa.

Em contrapartida, rejeitou a estratégia de procurar apoios pontuais em diferentes partidos, que classificou como “uma armadilha política imensa”.

Segundo explicou, essa atuação transmite a ideia de que “ao PSD tanto lhe faz negociar medidas à esquerda com o Partido Socialista, como à direita pontualmente com o Chega ou com a Iniciativa Liberal”.

Também afastou um entendimento de Bloco Central, considerando que a ideia “não tem pernas políticas para andar” e pode ser “perigosa” no atual contexto partidário.

Passos alertou que PSD, Chega e IL poderão ser penalizados, ainda que em graus diferentes, se não conseguirem traduzir a maioria à direita em mudanças concretas.

A comparação com António Costa

O antigo líder social-democrata mostrou-se desiludido com o ritmo das reformas e com o peso da gestão quotidiana na ação do Governo.

“A ambição transformadora tem sido lenta a passar do programa para as ações do governo e para a realidade do país”, afirmou.

Na sua leitura, a estratégia de António Costa de adiar a resolução de problemas acabou recompensada eleitoralmente com uma maioria absoluta. Esse precedente, argumentou, pode levar o PSD a seguir um caminho semelhante.

Passos referiu que Costa alcançou essa maioria “com a ajuda do Presidente da República e depois de um Orçamento de Estado que não foi viabilizado no parlamento”.

O risco, na sua perspetiva, é que a procura de sobrevivência política se sobreponha às reformas, deixando o país preso à “gestão do dia a dia” e à “política de empurrar os problemas com a barriga”.

SNS: “São os próprios profissionais que já não acreditam”

A situação dos serviços públicos mereceu algumas das críticas mais severas da entrevista. Sobre a saúde, Passos Coelho afirmou que “o Estado já não tem autoridade para reabilitar o Serviço Nacional de Saúde como ele precisava de ser reabilitado”.

Especificou que se referia também à capacidade de gestão: “Já não tem autoridade, se quiser, gestionária.” E justificou o diagnóstico com a distância entre as instituições e os trabalhadores: “São os próprios profissionais que já não acreditam nisso.”

O antigo primeiro-ministro estendeu a preocupação à Educação e à Habitação, insistindo na necessidade de mudanças mais profundas.

“Muita coisa vai ter de mudar e eu não vejo nada a mudar”, declarou.

Imigração, nacionalidade e expectativas dos portugueses

Passos questionou também a demora na resposta às questões da imigração e da nacionalidade, considerando que se perdeu um ano antes de começar a trabalhar nessas matérias.

Na sua interpretação, esse atraso contribuiu para que as medidas fossem associadas à pressão do Chega, em vez de resultarem de uma iniciativa política própria do Governo.

Defendeu ainda uma visão de médio e longo prazo que dê aos portugueses perspetivas mais ambiciosas: “As pessoas não percebem porque é que as suas perspetivas são tão modestas.”

Quanto ao Presidente da República, António José Seguro, considerou necessário dar-lhe tempo antes de avaliar a sua atuação, que descreveu como cautelosa. Sobre uma eventual ambição presidencial sua, foi direto: “Nunca pensei em ser presidente da República. Eu sou um executivo.”

Críticas à resposta europeia para a competitividade

Na parte final, Passos Coelho alargou a análise à Europa. Valorizou o diagnóstico do relatório de Mario Draghi sobre a perda de competitividade, mas discordou das soluções assentes no aumento da intervenção pública.

“Acham que isto se resolve com muito mais dinheiro público e com muito mais investimento público, criando novos fundos e criando nova dívida europeia”, criticou, acrescentando que “o Estado a gastar dinheiro são impostos que estão a cobrar às pessoas”.

“Eu temo muito que a Europa, que está estrangulada pelo peso do Estado na sua economia e que perdeu competitividade porque regulou demais (…) esteja a tentar resolver o problema com as mesmas receitas que nos trouxeram até aqui.”

O combate aos extremos, concluiu, exige resultados concretos nos problemas que mais afetam a população:

“Se nós queremos combater os populismos e os radicalismos, temos de resolver os problemas das pessoas e dar respostas àquilo que as aflige: a segurança, a imigração descontrolada, a estagnação dos rendimentos, a degradação dos serviços públicos.”

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