Pedro Chagas Freitas critica “indústria da felicidade”: “Não estou feliz”, afirmou o escritor nas redes sociais.
Pedro Chagas Freitas questionou a obrigação de parecer bem a toda a hora num texto publicado no Facebook. Através da frase “Não estou feliz”, repetida ao longo da reflexão, o escritor defendeu a liberdade de reconhecer a tristeza e criticou a distância entre aquilo que se sente e a imagem que se apresenta aos outros.
O alvo da publicação é aquilo a que chama “indústria da felicidade”, associada à pressão para corresponder a um modelo de realização permanente.
“Temos a pintura imaculada por fora”
Para o autor, admitir que nem tudo está bem faz parte de uma vida que não precisa de esconder as suas contradições.
“Todas as vidas que interessam têm de ter esta frase. Às vezes não estou feliz, às vezes não sou o melhor profissional do mundo, a melhor pessoa do mundo. Não dizemos isto. Estamos todos amolgados por dentro mas temos a pintura imaculada por fora”, escreveu.
Pedro Chagas Freitas prolongou essa imagem numa frase sobre a aparência de felicidade: “Somos sucata presa por arames, mas com smiles na carroçaria.”
A crítica tornou-se mais direta quando abordou os discursos e produtos que prometem ensinar a viver melhor.
“É a bosta da indústria da felicidade. É uma ditadura mórbida, asquerosa. Poucas coisas são mais tóxicas do que a tirania da felicidade. É uma fábrica de felicidade enlatada.”
O escritor acrescentou: “Compramos pacotes de ‘gratidão’, inscrevemo-nos em cursos de ‘amor próprio’, repetimos os mantras de gurus mais infelizes do que nós. No fim, ficamos com o sabor azedo de não correspondermos ao molde. É uma orgia hipócrita de máscaras, uma feira de mentiras, de sorrisos de plástico.”
Escritor defende coragem para reconhecer a tristeza
Depois de voltar a escrever “Não estou feliz”, Pedro Chagas Freitas apelou a uma maior honestidade na forma como cada pessoa olha para si.
“Que todos tenhamos a coragem de o dizer, pelo menos a nós próprios. A tristeza não mente, é nossa, também somos dela, e é daí que vem a grandeza absoluta: sermos todos os pedaços que temos em nós.”
Na sua perspetiva, a procura de um estado permanente de felicidade pode produzir o efeito contrário: “Querer estar sempre feliz é meio caminho andado para a mais devastadora das infelicidades. A dor é honesta, por mais que seja uma cabra. A consciência da imperfeição ajuda-nos a respirar.”
O texto encerrou com a frase que o atravessa, seguida de uma afirmação de continuidade: “Não estou feliz. Ainda assim, continuo. Eis tudo.”
