Pedro Chagas Freitas escreve aos pais de crianças com autismo: “O vosso filho não precisa de ser corrigido”

Pedro Chagas Freitas publicou uma carta dirigida aos pais de crianças no espectro do autismo, na qual aborda o cansaço, a culpa e a solidão que podem acompanhar as famílias. Num texto partilhado no Facebook, o escritor pede compreensão para as crianças e contesta a pressão para que correspondam às expectativas dos outros.

“O vosso filho não precisa de ser corrigido; precisa de ser compreendido”, escreveu, numa das passagens da publicação intitulada «Carta aos pais de crianças no espectro do autismo».

Uma carta que começa por recusar promessas

Pedro Chagas Freitas abriu o texto afastando a garantia de que todas as dificuldades serão ultrapassadas: “Não vos vou dizer que tudo ficará bem.”

O autor explicou essa escolha, procurando reconhecer a incerteza que as famílias podem sentir ao longo do crescimento dos filhos.

“Seria uma mentira confortável. As mentiras confortáveis são a principal droga de uma sociedade que foge de tudo o que não sabe controlar. O que vos espera não é um caminho recto, não há um Manual de Instruções. O que vos espera é uma travessia. Às vezes vai ser bela, às vezes vai ser exaustiva. Vai ser sempre feita de perguntas para as quais ninguém tem respostas completas.”

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A reflexão prosseguiu com uma mensagem sobre a forma como as crianças são vistas e sobre o impacto das palavras dirigidas aos pais.

“O vosso filho não vive ‘fora’ do mundo. Vive num mundo próprio. O vosso filho não quebra nada; só não dança a música imposta. Haverá dias em que as palavras dos outros vos ferirão mais do que o silêncio, momentos em que amar parecerá insuficiente. Muitas vezes, não é. Isso não é fracasso; é humanidade.”

Crítica à rigidez das estruturas e à pressão social

Na carta, o escritor deslocou a atenção para as dificuldades criadas pelo meio envolvente, defendendo que a diferença não deve ser encarada como uma tragédia.

“O autismo não é uma tragédia”, afirmou, antes de desenvolver a sua crítica à organização da sociedade e às expectativas colocadas sobre cada pessoa.

“O mundo fá-lo parecer. A tragédia está na rigidez das estruturas, na impaciência dos olhares, na velocidade absurda das escolas, dos empregos, das relações. O vosso filho não corre ao ritmo dos outros. Vê detalhes que os outros ignoram, sente vibrações que os outros não percebem, ou simplesmente não quer correr.”

O texto recorre a uma linguagem literária para defender uma maior disponibilidade para compreender diferentes formas de estar e comunicar.

“Amar uma criança no espectro é aprender uma língua sem dicionário”, escreveu.

“O amor, por maior que seja, não anula o cansaço”

Uma parte significativa da publicação foi dedicada aos sentimentos dos próprios pais. Pedro Chagas Freitas procurou reconhecer o desgaste sem o transformar numa medida do amor que sentem pelos filhos, abordando também as comparações e a culpa.

“A comunicação nem sempre acontece com palavras. O silêncio pode ser uma forma de presença. O amor, por maior que seja, não anula o cansaço. Não há mal algum em admiti-lo. Serão tentados, muitas vezes, a comparar. A imaginar como seria ‘se fosse diferente’. Não se culpem por isso. Pensar o que poderia ser não vos torna maus pais.”

O escritor deixou depois um apelo direto: “Não procurem ser perfeitos.”

A essa ideia juntou a necessidade de respeitar a criança, em vez de tentar enquadrar todos os seus comportamentos num modelo de normalidade.

“Resistam à tentação de traduzir tudo em ‘normalidade’. O vosso filho não precisa de ser corrigido; precisa de ser compreendido.”

Um apelo contra a solidão das famílias

Na parte final da carta, Pedro Chagas Freitas pediu aos pais que não se deixem isolar, voltando à importância da presença na relação com os filhos.

“Não se deixem engolir pela solidão”, escreveu.

“A solidão dos pais é um silêncio perigoso. Não se deixem naufragar nele. Amar uma criança no espectro é uma forma rara, e bruta, de amor: não há garantias, não há medalhas. Há vocês e uma criança que sente a vossa presença como âncora. Aguentem-se aí, sim?”

A publicação terminou com uma referência a «O Livro do Pechimperé», que o autor apresentou como “o livro mais lindo de todos os que publiquei, e que pode muito bem ser o último que publico”. Não desenvolveu, nessa mensagem, a possibilidade de deixar de publicar.

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