Pedro Chagas Freitas recorda morte do tio e deixa reflexão sobre a perda: «Resta-nos amar contra a morte»

Pedro Chagas Freitas recorda morte do tio e deixa reflexão sobre a perda: «Resta-nos amar contra a morte», afirmou.

Pedro Chagas Freitas voltou às redes sociais esta quarta-feira, 23 de setembro, para partilhar uma memória profundamente ligada à infância. O escritor recordou a morte do tio Paulo, aquele que descreve como o seu primeiro verdadeiro confronto com a morte, e refletiu sobre o medo de perder quem se ama.

A publicação começa precisamente nesse momento de descoberta.

«Foi o meu primeiro encontro com a morte. Foi mais um confronto do que um encontro. A morte de quem amamos mata-nos. Um vai, o outro fica. Não sei qual dos dois morre mais.»

Pedro Chagas Freitas era ainda criança quando recebeu a notícia da morte do tio. Até então, contou, nunca tinha vivido uma perda tão próxima.

- Publicidade -

«Naquele dia, eu era a criança que soube que o tio Paulo morreu. Ninguém me tinha morrido até àquele dia. Nunca tinha visto o meu avô a chorar, a minha avó a chorar, os meus tios a chorar. Nunca vi uma casa inteira a chorar.»

«Eu estava lá quando a polícia bateu à porta»

Uma das memórias que o escritor conserva é a chegada da polícia à casa da família.

«Eu estava lá quando a polícia bateu à porta. Eram dois. Traziam a tristeza de quem não sabe como se carrega a morte de um filho até à mãe que está à frente.»

Depois vieram as reações de quem recebeu a notícia.

«O grito da minha avó. O grito de toda a gente. Quando se morre por dentro, resta um grito ou o silêncio. Ou o grito e depois o silêncio.»

Antes da morte do tio Paulo, existira ainda uma última despedida que Pedro Chagas Freitas continua a guardar.

«Antes de partir para a última viagem veio lá a casa dar um abraço. Não sei se foi coincidência mas foi assim: ‘já sabes chutar com o pé esquerdo, russo?’, e eu a querer mostrar-lhe num instante que já conseguia, que estava a ficar um craque.»

A memória prossegue com pequenos gestos que ganharam outro significado depois da perda: «As mãos dele no meu cabelo pela última vez, aquele sorriso inteligente (a inteligência vê-se, não vê?), o carro a ir e ele a ir.»

A infância mudou a partir daquela morte

Pedro Chagas Freitas explicou que aquele episódio alterou a forma como passou a olhar para as pessoas que amava.

«A imortalidade dos que amava morreu ali, com ele. Eu menino a tentar perceber quem seria o próximo.»

Nessa noite, revelou, o medo instalou-se de uma maneira que nunca desapareceu totalmente.

«Nem dormi, ou dormi pouco: passei as horas a pensar que iria ver morrer todos aqueles que amava. Eu era o mais novo: iriam todos antes de mim. Chorei ali a morte de cada um, um por um, por antecipação.»

Muitos anos depois, o escritor reconhece que aquela criança continua, de alguma forma, presente.

«Ainda continuo a ser aquele menino, cheio de medo, embrulhado debaixo dos lençóis a pensar quando será o próximo.»

E alargou essa sensação a uma experiência que considera comum: «Acho que somos todos esse menino debaixo dos lençóis cheio de medo de que a morte chegue. Nunca deixamos de ser esse menino, nunca, nunca.»

Pedro Chagas Freitas terminou a reflexão deixando aquilo que considera possível perante a inevitabilidade da perda: «É a nossa desgraça e o nosso milagre. Resta-nos aguentar, aproveitar. Resta-nos amar contra a morte.»

- Publicidade -

Destaques

António Manuel Ribeiro: há pedaços da nossa vida escritos nas suas canções

António Manuel Ribeiro: há pedaços da nossa vida escritos...

Rui Bento Vasques: uma temporada que confirma peso empresarial

Rui Bento Vasques: uma temporada que confirma peso empresarial,...

Morreu Jorge Palma. Cantor e compositor tinha 76 anos

Morreu Jorge Palma. Cantor e compositor tinha 76 anos,...

Alejandro Talavante deixa vontade de regressar: “Espero voltar a Portugal em breve”

Alejandro Talavante deixa vontade de regressar: “Espero voltar a...

João Raposo: “Tenho um grupo com muita qualidade e merecíamos pisar outras praças”

João Raposo: “Tenho um grupo com muita qualidade e...
- Publicidade -

Reportagens

- Publicidade -

Artigos relacionados