Portugal vence Noruega e Jesus elogia talento: “Nunca treinei aquilo”, afirmou ontem o seleccionador nacional.
A vitória por 2-1 garantiu o apuramento para os quartos de final da Liga das Nações. Cancelo explicou o golo, Nuno Mendes admitiu cansaço e o selecionador destacou a evolução de Gonçalo Ramos.
Portugal terminou a concentração com quatro vitórias em quatro jogos e o apuramento para os quartos de final da Liga das Nações. O triunfo por 2-1 sobre a Noruega, no domingo, 4 de outubro, no Estádio do Dragão, deixou Jorge Jesus satisfeito com o resultado, embora tenha reconhecido que a exibição não atingiu o nível do encontro anterior.
Ajer colocou os noruegueses em vantagem aos 36 minutos, João Cancelo empatou aos 38 e Gonçalo Ramos marcou o golo decisivo aos 79. Portugal terminou com dez jogadores, após a expulsão de Francisco Conceição aos 86 minutos.
À RTP, Jesus destacou a dificuldade do adversário.
“Tudo o que projetámos em relação à nossa equipa, não preciso de dizer. Os resultados no Mundial estão aí. Tem o melhor ponta de lança do Mundo atualmente. Tem Odegaard, um dos melhores segundos avançados do Mundo. É uma equipa muito completa e fisicamente muito grande e potente. Só com muita qualidade de jogo técnica podes vencer esta equipa. De outra forma não tens hipótese de equilibrar”, afirmou.
“O importante era ganhar e apurarmo-nos”
Jesus admitiu que a qualidade da exibição ficou abaixo da apresentada na Dinamarca.
“Ganhámos sem fazer um jogo como com a Dinamarca, mas o importante era ganhar e apurarmo-nos. 4 jogos, 4 vitórias. É um percurso que quando comecei se calhar não pensei que podia ter, independentemente de acreditar muito nesta equipa. Há que esperar pelos últimos dois jogos na próxima convocatória”, declarou à RTP.
Na conferência de imprensa, reforçou a importância do resultado.
“Voltamos a falar do que é o importante. Importante foi Portugal ganhar mais uma vez a uma das melhores seleções atualmente da Europa. Isso é que tem de ser valorizado. Sem fazermos um jogo que poderei chamar com nota artística. Com a Dinamarca tivemos, hoje não”, afirmou.
Expulsão obrigou a defender vantagem
O selecionador considerou que Portugal poderia ter ampliado o resultado antes de ficar reduzido a dez.
“Poderíamos ter nos últimos 15 minutos, quando o Chico foi expulso a Noruega era uma equipa partida, só uns atacavam e uns defendiam. Íamos fazer golos, pelo menos mais um. Também senti a equipa da Noruega mais cansada do que a equipa portuguesa. Do meio-campo para a frente foram sempre aqueles seis jogadores que fizeram 4 jogos consecutivos. Podem ser muito grande e muito fortes, mas não são extraterrestres”, analisou.
A expulsão alterou a prioridade.
“Estava a olhar para o jogo e a ver que isso acontecia, mas com a expulsão do Francisco complicou-se. O importante era a vitória, garantir a vitória e foi defender o resultado”, explicou.
Quanto a possíveis estreias na próxima convocatória, apontou o rendimento nos clubes como critério.
“O selecionador vai escolher em função daquilo que esses mesmos jogadores mais jovens façam nos clubes onde estão. Se não jogarem, é mais difícil. Mas pensamos que neste momento isso pode ser, não direi uma certeza, mas um pensamento que tenho”, afirmou.
Treinos de sala compensaram falta de tempo
Jesus explicou que o calendário obrigou a aproveitar os próprios jogos para desenvolver ideias.
“Fomos aproveitando os jogos como se fosse treino. Como não tivemos tempo para treinar de jogo para jogo, eu aproveitei os 4 jogos para trabalharmos em cima daquilo que a equipa poderia e deveria fazer no que consideramos os processos de jogo, ideias de jogo. Uma vez que não tínhamos muito tempo para treinar a prática e a prática é o critério da verdade, tive de passar para a teoria”, contou.
O trabalho incluiu sessões fora do relvado.
“Fiz vários treinos de sala com a equipa, tentando corrigir, tentando falar com os jogadores qual era a ideia principalmente defensiva que devíamos ter. Melhorámos no jogo com a Dinamarca o ataque posicional. Na minha opinião é o mais difícil dos 5 momentos do futebol. Vamos crescer quando tivermos mais tempo para treinar porque esta equipa tem muito sumo, tem muito talento”, afirmou.
Sobre o lance do primeiro golo, atribuiu o mérito aos jogadores.
“Só uma equipa que tem muito talento é que cria uma jogada… A do Nuno Mendes para o Cancelo, de lateral para lateral. Qual estratégia do treinador? Nunca treinei aquilo. Eles é que viram, eles é que criaram. Têm muito talento e veem as coisas à frente”, declarou.
Cancelo descreve remate por instinto
João Cancelo explicou à RTP como surgiu o empate.
“Estava bem posicionado e o Nuno tem um lançamento muito forte. Quando vi a bola bater a primeira vez no chão, foi como um instinto, rematei e graças a Deus correu bem. Fiz um grande golo”, afirmou.
Ao Canal 11, mostrou-se satisfeito, mas evitou eleger o melhor golo que marcou pela Seleção.
“Por acaso, os meus golos na Seleção são quase todos bonitos, não me lembro de todos, mas pode ser um dos mais bonitos. Não posso dizer que é o mais bonito, porque não me lembro dos outros”, comentou.
O lateral destacou também a resposta coletiva.
“Para além de conseguirmos assimilar rapidamente os conceitos do novo treinador, acho que também tem que se ter um bocadinho de sorte. E a sorte também se procura. Todos os meus colegas neste estágio, tanto os que jogaram mais como os que jogaram menos, nas poucas vezes em que treinámos — acho que foram quatro jogos em 11 ou 12 dias — conseguimos assimilar bem as ideias e passá-las para o campo. Acho que hoje fomos a melhor equipa outra vez e merecemos a vitória”, afirmou.
Nuno Mendes admite que preferia descansar
À Sport TV, Nuno Mendes confirmou que o lance do golo não tinha sido preparado.
“Não, não trabalhámos, mas os meus colegas sabem que consigo meter a bola longe. Vi o Félix à entrada da área solto e felizmente apareceu o Cancelo a fazer um grande golo”, explicou.
Titular nos quatro encontros, o lateral admitiu o desgaste.
“Sim, foram partidas de muita intensidade perante adversários de elevado poderío físico, mas estou cá para representar a Seleção e se o treinador pretender que jogue os 90 minutos estou preparado. Sinto-me contente por acabar bem estes quatro jogos, mas claro que preferia descansar um pouco”, afirmou.
Sobre o balanço da concentração, acrescentou: “Sim, ainda para mais com um novo treinador, novas ideias. Torna-se sempre mais difícil trabalhar assim em pouco tempo, mas foi bom.”
Companheiros mantêm porta aberta a Ronaldo
Cancelo afirmou ter falado em privado com Cristiano Ronaldo e remeteu a resolução da situação para o selecionador e para o presidente da FPF.
“O míster e o sr. Pedro Proença falarão desse assunto. Mas, como o Bruno já disse anteriormente, o Cristiano é o nosso capitão, é o símbolo da nossa seleção, é o melhor jogador que Portugal já teve e as coisas certamente vão acabar da melhor maneira”, declarou à RTP.
“O importante aqui são estas quatro vitórias. Acho que todos fizemos um grande trabalho, ele incluído. Agora é desfrutar e em novembro estamos cá outra vez”, acrescentou.
Nuno Mendes deixou uma mensagem semelhante: “Não há dúvidas. Somos um grupo unido, tanto Cristiano como qualquer outro que não está cá será sempre bem recebido de braços abertos.”
Jesus elogia crescimento de Gonçalo Ramos
O selecionador também destacou o contributo do autor do golo da vitória.
“O Gonçalo Ramos, como todos os avançados, vive de golo. Foi isso que o Gonçalo fez nos últimos 4 jogos. Não só fez golos, também assistiu alguns, como o caso do golo em que tabelou com o Cancelo na Dinamarca”, recordou.
“O Gonçalo Ramos é um jogador que quando começou a carreira dele no Benfica, como sénior, eu era o treinador. Hoje está muito mais jogador, nem há comparação possível. Foi um desempenho que estava à espera. A grande maioria dos jogos ele jogou, está em crescimento, vai ajudar muito o Milan e o meu colega Ruben. Está a crescer e cada vez vai crescer mais”, afirmou.
Nas redes sociais, Ramos assinalou os resultados com a legenda “4/4” e fotografias do jogo. Republicou ainda uma mensagem de Luís Freitas Lobo com a frase “O estatuto de ser o melhor!”, sem acrescentar uma explicação sobre a partilha.
Proença satisfeito com o novo ciclo
Pedro Proença também fez o balanço à RTP.
“Muitíssimo satisfeito neste novo ciclo, um novo treinador, novas metodologias, os resultados falam por si. São 14 dias intensos com 25 jogadores de eleição, uma nova equipa técnica. Somos a primeira seleção a ser qualificada para os quartos de final. O que hoje sentimos é que os portugueses voltaram a acreditar na nossa Seleção. É o resultado desta nova equipa técnica”, afirmou.
“O futebol português tem tudo para ganhar, temos gerações extraordinárias. Era aquilo que nós tínhamos prometido e aconteceu em apenas 14 dias de trabalho com os 25 jogadores que já se conheciam, todos de grande capacidade. 4 vitórias em 4 jogos com equipas muito fortes”, acrescentou.
Jesus rejeita leitura de ajuste de contas com o passado
Questionado sobre se vencer no Dragão significava curar feridas antigas, Jesus afastou essa interpretação.
“Não, por amor de Deus. Tenho uma carreira de treinador de 36 anos, onde joguei várias vezes no Dragão. Ganhei, perdi, como é óbvio. Carreira de um jogador não é ganhar sempre. A minha tem sido a ganhar mais, também perco. 80, 90 por cento, ganho sempre os objetivos. Este foi um objetivo atingido com o apuramento, mas eu falei do passado, da minha carreira como treinador de Sporting e Benfica, neste caso”, respondeu.
O técnico recusou ainda desvalorizar a Noruega pelas três derrotas consecutivas.
“É verdade que perdeu 3 jogos seguidos, mas não podemos qualificar a Noruega por isso, não podemos dizer que não seja uma excelente seleção. Neste Mundial espelhou isso. Melhor do que eu poder responder, o selecionador norueguês tem melhor conhecimento. Sabe melhor do que eu porque perdeu estes três últimos jogos consecutivos. Não sei porque não trabalho com os jogadores e não posso ter uma afirmação assertiva”, concluiu.
