Ricardo Martins Pereira denuncia ameaças aos filhos após vídeo sobre manifestações: “Não me sinto intimidado”

Ricardo Martins Pereira, conhecido como O Arrumadinho, denunciou ter recebido insultos e ameaças dirigidas aos filhos depois de se pronunciar sobre manifestações e sobre a intervenção da polícia. Numa publicação no Instagram, o comentador mostrou uma mensagem em que se lia “acho que não deves querer que aconteça nada aos teus filhos” e garantiu que não deixará de expressar as suas opiniões.

A denúncia surgiu depois de um vídeo em que criticou a cobertura jornalística dos distúrbios em França, acusou a extrema-esquerda de instrumentalizar causas sociais e antecipou a possibilidade de episódios de violência nos protestos pela habitação em Portugal. Entretanto, um comentário seu numa publicação do Expresso, sobre declarações de Manel Cruz, motivou outra troca de mensagens que decidiu tornar pública.

“Acho que não deves querer que aconteça nada aos teus filhos”

Na captura de ecrã divulgada por Ricardo Martins Pereira, o interlocutor exigiu que apagasse um comentário e envolveu os filhos na mensagem.

“Vai tu comer palha oh filho da puta, burrinho és tu e os teus pais que pelos vistos não te puseram na escola, vai mas é apagar a merda de comentário que fizeste, ou estás a responder a todos um por um como fizeste comigo? Vamos ver se intimido, acho que não deves querer que aconteça nada aos teus filhos, seria uma pena. Anda pela sombra que merda ao sol derrete e tens muita nesse cérebro de piço.”

O comentador respondeu recorrendo à ironia: “Ganda machão, que ameaça fazer mal a crianças. Mas olha que o meu filho de 8 anos tem mais bíceps que tu. 😂😂😂”

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Na legenda da publicação, explicou que tinha recebido várias reações ao vídeo anterior.

“A propósito do post de ontem, claro, tive todo o tipo de comentários de ódio, daquelas pessoas que se dizem os defensores da liberdade e da tolerância, desde que todos digam o mesmo que eles.”

O comentário sobre Manel Cruz e a atuação da polícia

Ricardo Martins Pereira contou que, durante a tarde, comentou uma publicação do Expresso sobre as manifestações, na qual eram reproduzidas palavras de Manel Cruz, vocalista dos Ornatos Violeta, que disse admirar.

Segundo o relato do comentador, a declaração citada era: “A polícia que pagamos com os nossos impostos vem aqui tirar esta gente a mando de um gajo que nós elegemos? A polícia devia ir lá tirá-lo a ele.”

O Arrumadinho reproduziu também a resposta que escreveu nessa publicação:

“Não. A polícia que pagamos com os nossos impostos faz cumprir a lei. É precisamente para isso que lhes pagamos. Se alguém usou de força indevida e desproporcional, que seja punido. Mas num estado de direito quem se manifesta não tem só esse direito. Tem também o dever de cumprir a lei. E quando não a cumprem, a expectativa de quem paga impostos para que exista uma polícia é que essa autoridade atue.”

De acordo com Ricardo Martins Pereira, um utilizador reagiu enviando-lhe a mensagem “Vai mas é dormir oh otário”. O comentador respondeu “Eu prefiro estar acordado” e acrescentou: “Belo bíceps para usar manga cava. Não vás ao ginásio, não.”, acompanhando a frase com um emoji a rir.

“Dizermos o que pensamos traz um risco, para nós ou para os nossos filhos”

Na continuação do relato, Ricardo Martins Pereira afirmou que o interlocutor passou a insultá-lo e a fazer comentários que interpretou como ameaças.

“Esse senhor, de nome Simão Monteiro, que é este que partilho aqui, achou por bem chamar-me então ‘filho duma grande puta’ e dizer-me ‘olha mas é por cima do ombro’. Ainda acrescentou um ‘cabrão’ e um ‘arde no inferno’ (que católico!). Depois, virou as ameaças para os meus filhos, como podem ver no print.”

O comentador relacionou o episódio com a posição que tem defendido sobre intolerância política.

“É disto que eu falo há muito tempo, deste perigo de acharmos que a violência, o ódio, a cultura da ditadura da opinião única é um exclusivo da extrema-direita. Cá está um exemplar que vem mostrar que, nos dias que correm, dizermos o que pensamos traz um risco, para nós ou para os nossos filhos.”

Apesar das mensagens, garantiu que manterá a sua intervenção pública.

“Claro que não me sinto intimidado (até porque… aqueles bíceps) e ainda está para nascer a pessoa que me fará deixar de dizer o que penso sob ameaças, mas é importante que toda a gente veja que ter visibilidade pública e assumir-se aquilo que se pensa traz este preço agarrado. Eu estarei sempre, sempre disponível para o pagar, em nome da liberdade.”

O vídeo que antecedeu a denúncia: críticas à cobertura dos distúrbios em França

No vídeo anterior, Ricardo Martins Pereira começou por criticar a forma como jornalistas descrevem os participantes nos episódios de destruição em França.

“Nós temos que nos saber rir de tudo, não é? Até da desgraça, não é? Isso que andam a dizer há muito tempo, não é? E para mim, de facto, há uma coisa que me tem feito rir muito quando vejo estas imagens do que está a acontecer em França, com as lojas pilhadas, os carros vandalizados, os edifícios públicos destruídos, calçadas arrancadas, os bancos de jardim todos partidos, as ruas a arder. E o que é que me tem feito rir? Bom, são as piruetas que os jornalistas da televisão e da imprensa têm feito para chamar aqueles vândalos de manifestantes, os ativistas. E o mais engraçado de tudo é os estudantes.”

O comentador contestou depois as motivações apresentadas para os protestos, invocando o investimento público no ensino, sem identificar, nesse excerto, a fonte dos dados.

“O que está a acontecer em França não é uma revolta dos estudantes contra as condições de ensino. Isso é só o pretexto para eles poderem fazer o que estão a fazer agora. Porque nunca a França gastou tanto em ensino público como gasta atualmente.”

Habitação: reconhece a causa, mas antecipa violência

Ricardo Martins Pereira distinguiu a legitimidade das reivindicações da utilização política que lhes atribui.

“Então porquê é que isto está a acontecer agora? E uma vez mais, claro que a causa é legítima. E a causa é muitas vezes justa. A questão não é essa.”

Na sua leitura, a escolha dessas causas dificulta a crítica aos movimentos que as defendem.

“A questão é, eles tentam encontrar uma causa que para as pessoas de bem, aquelas que são moderadas, que não são necessariamente nem de extrema de esquerda nem de direita, são pessoas que fazem o seu trabalho normal, vivem o seu dia-a-dia, tenham dificuldade em atacar. Porque se atacam essas causas, são olhados como desumanos por todos os outros postais cavaleiros do bem. Em Portugal e em Espanha, a causa é outra.”

Sobre o acesso à habitação, reconheceu as dificuldades enfrentadas pelas famílias.

“A causa é o preço das casas. E claro que as casas na Grande Lisboa e no Grande Porto estão a um preço proibitivo como nunca estiveram. As rendas estão a níveis inatingíveis para o salário da maior parte das famílias e sobretudo dos jovens.”

Ainda assim, antecipou um cenário de violência em Portugal, apresentado como uma previsão sua: “A causa é mais do que justa e inatacável. Mas vão ver, o que se vai passar em Portugal é exatamente isso. A causa vai ser só o pretexto para poder semear o caos, culpar o capitalismo, dividir, destruir e apelar à revolta e à revolução.”

Bandeiras da Palestina e acusações à extrema-esquerda

O comentador questionou também a presença de bandeiras palestinianas em manifestações com diferentes reivindicações.

“E aqui entra aquela parte que muita gente não percebe, que é, porquê estão ali bandeiras da Palestina? O que é que a Palestina tem a ver com as rendas das casas e com os estudantes? Porque no Porto, em Madrid, em Lisboa, em Bruxelas, em Paris, as bandeiras da Palestina estão por todo o lado.”

Na interpretação que apresentou, essa presença estabelece uma ligação entre movimentos políticos.

“Porque a Palestina é a cola que liga todas estas supostas causas da extrema-esquerda para poder apelar à destruição do modo ocidental. Que é desde há 100 anos o objetivo central das ideologias marxistas, leninistas e maoístas que estão na base da maioria dos pequenos partidos que agitam estes ativistas, estes manifestantes, estes estudantes. Ou estes jovens que só querem uma casa para poder morar.”

Ricardo Martins Pereira associou essa mobilização ao que considera ser uma perda de influência eleitoral.

“E porquê é que isto está a acontecer agora? Porque a extrema-esquerda politicamente morreu. E morreu em todo o mundo ocidental.”

“Sem peso nas urnas, a extrema-esquerda tem de se virar para a rua”

Para sustentar o argumento, o comentador apresentou comparações eleitorais entre França, Espanha e Portugal, sem indicar no vídeo as fontes ou todas as eleições a que se referia.

“Vejam, em França, o Partido Comunista praticamente desapareceu. Nas últimas eleições teve 2% dos votos. Em Espanha, o grande Podemos, que há 12 anos chegou a ter 69 deputados, tem agora 4. Em Portugal, o Bloco de Esquerda, o PCP e o LIVRE juntos têm hoje 9 deputados. Só o Bloco de Esquerda há 7 anos tinha 19. As ideologias de extrema-esquerda deixaram de ter peso nas urnas. Já quase ninguém se revê nelas.”

Prosseguiu com a sua leitura sobre a relação entre resultados eleitorais e mobilização social:

“Porque cada vez menos pessoas acham que a solução para os seus problemas seja uma luta de classes, seja a revolução, seja fazer greves, seja ver no patrão o inimigo. E sem peso nas urnas, a extrema-esquerda tem de se virar para a rua, para a agitação social, para fazer passar a ideia de que a sociedade está toda a ela revoltada e quer toda destruir o sistema. Não está, não quer.”

O Arrumadinho contrapôs a essa interpretação aquilo que considera ser a vontade da maioria.

“Em Portugal, na Europa e no mundo ocidental, que a extrema-esquerda quer destruir, as pessoas querem viver em paz, querem ter segurança, querem viver com leis, com ordem, em estados de direito, em democracias. É esse o modelo europeu que nós construímos e que nós valorizamos. E dizemos isso à extrema-esquerda nas urnas, que é onde tem de se dizer isso nas democracias.”

Imigração, minorias e movimento “woke” entram na crítica

A intervenção estendeu-se às políticas de imigração e à forma como os partidos de esquerda abordam as desigualdades.

“E aqui entra a ligação com a imigração e a defesa que os partidos de esquerda fazem das políticas de fronteiras abertas. Quando a tua filosofia política assenta numa luta de classes, tu precisas sempre de ter um opressor e um oprimido. E quando não o tens, tens de inventar um.”

O comentador argumentou que as transformações económicas alteraram os grupos a que esses partidos se dirigem.

“Durante décadas, a fórmula foi o patronato versus o proletariado. Mas isso deixou de fazer sentido a partir do momento em que as sociedades ocidentais deixaram de ser máquinas de produção industrial, com milhões de operários, e passaram a ser sociedades tecnológicas, de serviços, que assentam em microempresas, pequenas empresas, médias empresas. Então houve a necessidade de criar novas vítimas, novos oprimidos.”

Foi nesse contexto que fez uma crítica abrangente ao movimento “woke” e às causas que lhe associa.

“E é aqui que entra o movimento woke, que serve precisamente para inventar oprimidos e vítimas artificiais. São os trans, são as vítimas climáticas, é o racismo sistémico, são as minorias, é a comunidade LGBT, são os jovens sensíveis com as suas microagressões, que ficam ofendidinhos com tudo. Tudo isto são criações artificiais para dividir e isolar as pessoas, para as fazer sentirem-se vítimas, sentirem-se oprimidas.”

Referência a Catarina Martins e à luta de rua

Ricardo Martins Pereira acusou depois os movimentos que descreveu de procurarem apresentar-se como salvadores desses grupos.

“E porquê? Porque depois, os que os vão salvar, os que surgem como os grandes defensores das causas nobres, os donos do bem, da moral, que ostentam as bandeiras com as foices e os martelos e as bandeiras da Palestina, são esses que os vão salvar. E os imigrantes, juntamente com estas novas vítimas, são o público que a extrema-esquerda precisa para poder continuar a parecer relevante. Viram o discurso há dias da Catarina Martins a gritar Somos todos Mari Carmen! É disso que eu falo.”

A acusação culminou numa referência às ideologias que, na sua perspetiva, sustentam esses movimentos.

“Esta gente só precisava de soldados para levar a luta que perderam nas urnas para uma luta de rua. Uma luta de rua contra a sociedade democrática que os deixa defenderem os ideais que estão na base da morte de milhões de pessoas como o comunismo ou o lenilismo ou o maoísmo. Eu não misturo as coisas.”

“Eu sei muito bem o que é não ter dinheiro”

Na parte final do vídeo, o comentador recuperou a sua experiência para afirmar que compreende as dificuldades económicas de quem protesta.

“Eu sei muito bem o que é não ter dinheiro. Eu sei o que é olhar para o preço de uma renda e pensar como é que eu consigo pagar isto. Eu também sei isso. Eu sei mesmo.”

Defendeu depois mudanças políticas e reformas como resposta aos problemas sociais.

“Eu sei que há muita, muita coisa que tem que mudar na nossa sociedade e no nosso modo de vida. E é por isso que eu defendo reformas, defendo políticas diferentes, que não votem sempre nos mesmos e defendo que se impliquem políticas que funcionaram noutras sociedades, ao contrário da extrema-esquerda que continua a apresentar as mesmas ideias que nunca funcionaram em lado nenhum e que só agravaram sempre cada vez mais o problema das pessoas e geraram miséria e fome.”

Ricardo Martins Pereira deixou ainda uma mensagem de solidariedade a quem enfrenta dificuldades no quotidiano.

“Eu estou solidário com as pessoas de bem que sofrem todos os dias com estes problemas mas que vão à luta, que trabalham, que apertam o cinto, que cortam em tudo para conseguirem viver e ter uma vida minimamente digna e proporcionar uma vida o melhor possível aos seus filhos.”

Apelo à condenação da violência

O comentador terminou distinguindo essas pessoas de quem participa em atos de destruição.

“Uma coisa eu sei. Não são estas pessoas que vão para a rua pilhar montras e destruir carros e vandalizar lojas. Lojas essas de pessoas que elas também dão um litro há décadas para criar o seu pequeno negócio e viver disso.”

Por fim, dirigiu um apelo às pessoas de esquerda e reiterou o receio de que episódios semelhantes ocorram em Portugal.

“Eu só espero ver uma coisa. Que as pessoas de esquerda de bem e há muitas, eu tenho muitos amigos de esquerda de bem eu quero vê-las a virem condenar abertamente o que se está a passar em França, em Espanha e eu temo que é exatamente aquilo que se vai passar em Portugal daqui a duas ou três semanas. Espero que não, mas é isto que eu tenho para acontecer. Vamos ver.”

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