Rui Fernandes vs João Moura Jr em Reguengos: uma rap battle de alta nota musical

Rui Fernandes vs João Moura Jr em Reguengos: uma rap battle de alta nota musical, foi aquilo que testemunhámos ontem, dia 11 de abril, num dia completamente taurino em pleno Alentejo.

Texto: André Nunes.
Fotografias: Diogo Nora.

Quando a praça vira palco

O público quase esgotou a praça, num ambiente de grande expectativa, com poucas dezenas de bilhetes por vender, sinal claro da dimensão do duelo anunciado. A batalha principal seria um duelo artístico entre Rui Fernandes e João Moura Jr. face a touros de Santa Maria, e com as pegas a cargo dos Grupos de Forcados Amadores de Évora e Monsaraz.

Nas cortesias, os forcados de Évora exibiram uma lona com a mensagem “cultura não se censura”, enquanto o grupo de Monsaraz respondeu com “exigimos igualdade”, num momento simbólico que marcou o tom da tarde.

Tratando-se de um mano a mano, foram também apresentadas as quadras dos cavaleiros em redor da arena, reforçando o carácter especial e direto deste confronto.

Rui Fernandes: a voz que impõe o ritmo

Rui Fernandes entrou como “Without Me”, de Eminem: afirmativo, provocador, a lembrar desde cedo que o centro do duelo também passava por si — e que, tendo feito aparições esporádicas, mas especiais em Portugal em temporadas anteriores, é caso para dizer que “não é a mesma coisa sem mim”.

No primeiro touro, com grande em porte e presença, mostrou eficácia desde cedo. Dobrou-se com o oponente com critério e cravou ferros compridos certeiros, com pouquíssima intervenção dos peões de brega. Nos curtos, destacou-se nas batidas ao pitón contrário, arrancando fortes ovações. Elevou o nível ladeando com proximidade e expressão facial emocionante, chegando a tourear como se o cavalo fosse um capote, num toureiro de cercanias e rematando com piruetas ajustadas perante o oponente.

No segundo, manteve a alegria e o desfrute da lide, apostando em sortes frontais e numa ligação clara com o público. Apostou em cites em levadas, conduzindo a lide ao ritmo que pretendia, quase como quem dita a cadência de um tema.

No terceiro, voltou a mostrar inteligência no domínio do tempo. Recebeu o touro com eficácia, preparando uma lide à sua medida e para o espetáculo que quis proporcionar aos aficionados, reforçando com a sua técnica carismática. Perante um oponente mais bravo e a falsear mais para o final, que chegou a colher um peão de brega, respondeu com sagacidade, elevando o nível nos ferros finais com adornos de sucesso perante o público presente.

Houve na sua atuação essa marca de presença constante, não apenas pela técnica, mas pela forma como assume o espaço, acelera o ritmo e transforma cada intervenção numa afirmação artística.

João Moura Jr.: entre controlo, emoção e narrativa com todas as estrelas

Do outro lado, João Moura Jr. respondeu de forma distinta. Constrói a lide com a mesma lógica de “All the Stars”, de Kendrick Lamar: controlo, sensibilidade e leitura do contexto, numa abordagem mais construída e emocional. onde cada momento parece calculado para ter impacto sem perder harmonia. Não responde apenas — interpreta. E, em vários momentos, mais do que disputar diretamente, gere o tempo e o ambiente, impondo uma leitura mais emocional e cinematográfica do duelo, onde tudo parece ter intenção e significado.

Recebeu o primeiro touro com um ferro comprido em sorte de gaiola de grande nível, seguido de outro igualmente seguro. Desenvolveu a lide com batidas ao pitón contrário no limite, mostrando irreverência e risco, e expondo a barriga do cavalo com confiança face à córnea do oponente, levando o público ao rubro.

No segundo, recebeu o touro à porta dos curros e desenhou uma lide marcada pelos seus remates característicos e reuniões bem definidas. Um dos momentos altos foi o cravar de um ferro curto entre tábuas, de elevado risco, seguido de um remate pleno de expressão. Terminou com um ferro de palmo, consolidando uma lide que colocou o público de pé.

No terceiro, voltou a receber em sorte de gaiola, com velocidade e verdade. Perante um touro com mobilidade, respondeu com sortes frontais e levou-o por todos os terrenos, sempre com risco. Destacaram-se duas mourinas — uma clássica para felicidade suprema nas bancadas e outra de grande compromisso artístico, antes de terminar com um palmito.

No final da lide, também o ganadeiro deu a volta à arena juntamente com o cavaleiro.

Forcados: coragem, impacto e verdade crua

E quando entraram os forcados, o tom mudou por completo. As pegas tiveram o impacto bruto de 50 Cent: direta, sem filtros, resolvida “num instante” na esmagadora maioria das pegas.

Na pega não há estética associada à sobrevivência e emoção de um duelo corpo com corpo. Como em “Many Men (Wish Death)” de 50 Cent, cada segundo conta e tudo se decide num momento único, onde a coragem não se exibe, prova-se. Não é só sobre quem avança — é sobre quem segura.

Évora abriu com António Braga a concretizar à primeira tentativa, apesar da investida imediata do touro. Monsaraz respondeu por intermédio de João Tiago Ramalho, também ao primeiro intento, perante um touro irregular e com tendência para ziguezaguear. Évora voltou à cara com Rafael Silva, igualmente eficaz à primeira, enquanto Monsaraz, por André Mendes, só consumou a pega ao terceiro intento. No quinto touro, Évora resolveu novamente à primeira tentativa, cabendo a Monsaraz fechar a noite com David Ramalho também à primeira tentativa.

Nestes instantes, o duelo deixou de ser individual para passar a coletivo. E foi aí, nessa transição entre o confronto a dois e a força dos grupos, que a corrida encontrou uma das suas expressões mais cruas e mais verdadeiras.

Como em “Many Men”, cada segundo conta e tudo se decide num momento único, onde a coragem não se exibe, prova-se.

Ganadaria de Santa Maria: bravura, mobilidade e critério na seleção

A ganadaria apresentou um lote com características distintas, mas globalmente bem escolhido para permitir a expressão dos cavaleiros e o espetáculo da tarde. Houve touros bem apresentados, com diferentes graus de mobilidade e exigência, alternando entre momentos de maior regularidade e outros de comportamento mais irregular e traiçoeiro, o que obrigou a leituras rápidas e adaptação constante.

A bravura esteve presente, com investidas vivas e exigentes que valorizaram tanto a técnica como a capacidade de resposta dos intervenientes, contribuindo para uma corrida competitiva, emotiva e tecnicamente desafiante.

“It’s not the same without me”: um duelo que marca a temporada

O final resume-se numa ideia simples: “it’s not the same without me”. Sem estes dois, não seria a mesma corrida. Nem a mesma temporada que agora se começa a concretizar para lá dos esboços da época do defeso.

Rui Fernandes, mais presente em Espanha nos últimos tempos, e João Moura Jr., que tem focado a sua temporada em Portugal e nos Açores, reencontraram-se agora num duelo que abre caminho a novas rivalidades. Num momento de transição na tauromaquia nacional, com a saída de figuras como Rui Salvador, a despedida próxima de Luís Rouxinol, o regresso tão esparado de Marcos Bastinhas que será só em junho e mudanças geracionais em curso — esta corrida surge como uma lufada de ar fresco e esperança no arranque da temporada. Uma corrida marcará o tom e a expectativa certamente.

Foi um espetáculo que não pesou no tempo, bem cronometrado e com o público sempre ligado. A direção de corrida foi direta e eficaz na gestão da música e dos tempos, com pouca intervenção dos peões de brega e valorização da nobreza dos touros. Até a rega da arena, feita de forma rápida e eficiente, contribuiu para um intervalo sem quebras.

Foi, por isso, menos uma sucessão de ferros e mais um confronto de linguagens. Entre a afirmação e a resposta, entre o domínio técnico e a leitura emocional, construiu-se um mano a mano que viveu tanto do que se fez como da forma como se fez.

Mais do que uma corrida, foi um duelo que elevou a tauromaquia em 2026.

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André Nunes
André Nunes
André Nunes escreve e fotografa para o Infocul.pt. Entre a cultura western e country, a música, o cinema, os desportos americanos e a tauromaquia, procura novas formas de olhar o espetáculo taurino, mundo do espetáculo no geral, a tradição e as narrativas que continuam a reinventar-se no tempo, como corpo vivo da identidade humana.

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