Rui Jorge criticou duramente a forma como terminou a sua ligação à seleção portuguesa de sub-21 e apontou a ausência de uma palavra de Pedro Proença na despedida. Em entrevista à agência Lusa, o treinador classificou o processo como “desonesto” e de “baixo valor humano”, admitindo que ainda lhe custa assistir aos jogos da equipa que orientou durante quase 15 anos.
Atualmente à frente da seleção sub-20 do Azerbaijão, o antigo internacional português esclareceu que aceita a decisão de mudar de treinador. A mágoa está na forma como foi tratado no final de uma ligação que se prolongou por vários ciclos competitivos.
“Nem sei se me agradeceram em comunicado. O que eu sei é que acho que deveria ter saído de outra maneira, com outro respeito. Acho que foi, não só desonesto da forma como o fizeram, como também de baixo valor. De baixo valor humano, de baixo valor profissional. Isso é uma coisa que me deixa alguma mágoa”, afirmou à Lusa.
Rui Jorge deixou o cargo depois do Europeu e do final do contrato, tendo sido substituído por Luís Freire.
“Foi um momento feio e que não dignifica a FPF”
Ao recordar a saída, Rui Jorge separou a sua responsabilidade da atuação de quem conduziu o processo e garantiu que teria procedido de outra maneira se estivesse na posição dos responsáveis federativos.
“Não sou responsável pela atitude das outras pessoas, mas acho que efetivamente foi um momento feio e que não dignifica a FPF. Nada posso fazer em relação a isso. Eu tenho consciência que fiz as coisas como deveriam ser feitas, mas tenho plena consciência de que se estivesse do outro lado não faria da mesma forma”, declarou.
O treinador reconheceu que “é perfeitamente natural que se queira mudar”, insistindo, porém, que “a forma como é feito é que pode ser e deveria ser bem diferente”.
Foi nesse contexto que dirigiu a crítica ao presidente da Federação Portuguesa de Futebol, Pedro Proença, invocando os anos em que representou Portugal como jogador e selecionador.
“São muitos anos ligados à nossa seleção e não é, para mim, admissível que, quando se vai embora, o presidente não tenha uma palavra connosco. Além de não ser feito de uma forma clara, não é admissível. Não é de uma pessoa de bem. E isso deixou-me obviamente triste”, assumiu.
Ainda não consegue ver os jogos, mas telefonou a Luís Freire
Desde que deixou os sub-21, Rui Jorge não voltou a assistir a um jogo da equipa. Continua a acompanhar os resultados, mas ver em campo jogadores com quem já projetava o ciclo seguinte permanece difícil.
Essa distância não se estende ao sucessor. Ao saber que Luís Freire assumiria o cargo, fez questão de lhe telefonar para desejar sucesso.
“Prefiro não o fazer [ver os jogos]. Acompanho logicamente os resultados. Quando soube que era o Luís [Freire] que iria pegar na seleção sub-21, telefonei-lhe para lhe desejar toda a sorte e para que fosse tão feliz na seleção sub-21 quanto eu fui. […] Se ele for tão feliz quanto eu fui na seleção sub-21 acho que ele vai ficar muito satisfeito. Se puder conquistar o troféu que eu tanto tentei e não consegui, vou-lhe pedir para estar lá na final também e para me deixar tocar um bocadinho nesse tal troféu que há tanto tempo andamos atrás”, contou.
Rui Jorge assegurou que não guarda mágoa do futebol português. Explicou que as funções no Azerbaijão também condicionam o acompanhamento das competições nacionais, embora o caso dos sub-21 tenha um peso particular pelos planos que já tinha para vários jogadores.
“É nesse sentido que prefiro não ver. Quando vejo o Mateus [Fernandes], o [Geovany] Quenda, o [Rodrigo] Mora, o [Carlos] Forbes… Eram muitos jogadores que já estavam naquela fase e que eu perspetivava um apuramento seguinte e um Campeonato da Europa seguinte de uma determinada maneira. Então prefiro não o fazer. Mas é apenas com a seleção de sub-21”, explicou.
Rui Jorge deseja a Ronaldo uma despedida à altura do seu nome
Na mesma entrevista à Lusa, Rui Jorge abordou a situação de Cristiano Ronaldo na Seleção Nacional. Ressalvou que não acompanhou em detalhe a polémica saída do estágio antes do encontro com a Dinamarca e que conhece o assunto apenas “por alto”, através de mensagens que recebeu.
Por isso, preferiu falar do jovem com quem se cruzou no Sporting e com quem partilhou o balneário da Seleção, incluindo no Euro 2004.
“A única coisa que eu posso falar é em relação à pessoa, em relação ao miúdo. Quando deixou de fazer parte da minha proximidade, era um jovem jogador. Em 2004, era um jovem jogador. Apareceu no Sporting como jovem jogador, já eu era um jogador com seis anos de Sporting, com vários anos de seleção e muitos anos de 1.ª Liga. E é desse miúdo, dessa vontade, dessa paixão pelo jogo que eu continuo a ter as minhas grandes lembranças”, recordou.
Sobre o percurso que Ronaldo construiu depois desses primeiros anos, Rui Jorge considerou-o “o melhor português de todos os tempos, isso é inegável, dos melhores do mundo de todos os tempos”.
Sem tomar posição sobre o conflito com Jorge Jesus, deixou um desejo para o encerramento da carreira do avançado ao serviço de Portugal.
“É só isso que me apraz dizer. Percebendo que há muita agitação em torno disto, só desejar que, quando a situação termine a nível de seleção, seja de uma forma que efetivamente um nome como ele merece”, afirmou.
