Sabores no Barro: em Beringel não há evento, há vida e assim concretizou-se mais uma edição no passado fim-de-semana.
Texto: Rui Lavrador
Fotografias: André Nunes
Há coisas que não se escrevem bem à primeira. Porque não cabem em palavras direitas.
O Sabores no Barro não foi só mais uma edição. Foi um daqueles momentos em que o Alentejo se mostra como é, sem precisar de pedir licença. Intenso, por vezes doloroso, mas também valoroso.

Beringel encheu. Mas mais do que gente, encheu-se de vida.
Logo à entrada, sentia-se. O cheiro da comida no ar, o vinho a correr devagar, o barulho bom das conversas cruzadas. Aquela mistura que não se fabrica. Que só acontece quando as pessoas estão mesmo ali, sem pressas.
E havia tempo. Isso hoje vale muito.

Via-se gente sentada horas à mesa, a comer, a beber, a falar. Sem telemóveis à frente, sem aquela ansiedade de estar noutro lado qualquer. Só ali. Presente.
É isto que o Alentejo ainda consegue fazer. Obriga-nos a abrandar.
Depois, os sabores. Diretos. Sem enfeites. O cozido de grão, o pão, o vinho. Tudo com aquele peso que não se aprende, que vem de trás.

Não havia necessidade de impressionar ninguém. E talvez por isso impressionou.
Mas o Sabores no Barro não vive só da comida. Nem da música. Vive daquilo que está por trás.
O barro.
E ali percebe-se bem que o barro não é só artesanato. Não é só uma peça para levar para casa. É identidade. É história moldada à mão.

Há ali gente que ainda sabe fazer. Que ainda tem tempo para fazer. E isso hoje é quase um ato de resistência.
Vê-se nas mãos. Nos gestos. Na forma como cada peça nasce sem pressa.
E isso liga tudo. Liga o que se come, o que se canta, o que se vive.

Porque o cante também esteve lá, como sempre. Sem hora certa. Sem formalidade.
Nas ruas, nas mesas, no palco. Às vezes nem se percebia onde começava e onde acabava.
E é assim que tem de ser. Não é espetáculo. É vida.

No meio disto tudo, o mais forte acabou por ser o convívio. As pessoas.
Os reencontros. Os abraços. As histórias repetidas mais uma vez, como se fosse a primeira.
Gente que vem todos os anos. Gente que veio pela primeira vez e percebeu logo.
Beringel tem qualquer coisa que não se explica bem.

Talvez seja isso que faz com que quem lá vá queira voltar.
No fim, não é sobre o programa. Nem sobre os nomes. Nem sobre os números.

É sobre aquilo que se sente quando se vai embora. E a verdade é simples.
Sai-se de lá com mais qualquer coisa do que aquilo que se levou.





