Salvador Sobral critica Cristiano Ronaldo em Espanha e divide painel do V+ Fama, na manhã de hoje.
Salvador Sobral criticou Cristiano Ronaldo durante uma participação no programa espanhol “La Revuelta”, da TVE, e as declarações deram origem a um debate no “V+ Fama”. O cantor acusou o futebolista de ter dificuldade em aceitar decisões do treinador e utilizou a expressão “síndrome do semideus”, que esteve no centro da análise dos comentadores.
Na emissão do V+ TVI, Adriano Silva Martins, Isabel Figueira, Guilherme Castelo Branco e António Leal e Silva discutiram o conteúdo das palavras do músico, o tom adotado e o impacto de as ter proferido num programa espanhol.
Ao lançar o tema, Adriano Silva Martins apresentou os dois protagonistas:
“Ou melhor, Salvador Sobral parece que está em guerra com Cristiano Ronaldo. Isto é um duelo de titãs, porque de um lado temos um dos melhores jogadores do mundo, ou o melhor jogador português de sempre, e do outro temos o vencedor da única, da primeira e única Eurovisão portuguesa. Agora, o que é que disse Salvador que pode estar a irritar tanto Cristiano Ronaldo e o clã Aveiro? Vamos ver o que disse então no programa La Revuelta, na televisão espanhola.”
“É o treinador que decide quem entra”
Na conversa com David Broncano, Salvador Sobral defendeu que cabe ao treinador escolher os jogadores que entram em campo.
“Mas é que esse é o problema, ele tem este síndrome do semideus e então custa-lhe entender estas coisas, mas é o treinador que decide quem entra e quem não entra”, afirmou.
O cantor contestou também a ideia de que o percurso de Ronaldo deva determinar as decisões desportivas do presente.
“E as pessoas misturam tudo e dizem: ‘mas que ingrato, depois de tudo o que fez o Cristiano’. Mas o que é que tem a ver o que fez o Cristiano com o facto de que agora não sabe jogar, não pode jogar, sabes, não pode. O mesmo The Guardian o disse: ‘10 homens e uma estátua no Mundial’. Assim foi. Pois agora vês, bom, mas sim, foi para a sua casa com o seu avião privado, foi-se embora e não voltou mais”, declarou.
A referência ao jornal britânico foi feita pelo próprio músico durante a entrevista.
Isabel Figueira surpreendida com o registo do cantor
Depois de ver as imagens, Isabel Figueira destacou a abertura de Salvador Sobral para falar de diferentes assuntos.
“Bem, eu primeiro fiquei muito admirada com a vontade de Salvador Sobral ter falado e ter sido tão expressivo em várias áreas da sua vida, nesta entrevista no La Revuelta e com o David. Mas nestas declarações aqui, nomeadamente do Cristiano Ronaldo, são declarações sobre as quais algumas pessoas até têm opinião e realmente foram chocantes. Também brincou que Jorge Jesus conseguiu acabar com o cristianismo”, afirmou.
Guilherme Castelo Branco considerou que “a frase está engraçada, embora um bocado blasfémica”.
Isabel Figueira prosseguiu, defendendo que as palavras do músico encontram eco em parte do público.
“E acho que ele aqui foi um bocadinho ao encontro do que parte dos portugueses também pensam. Chamou-lhe aqui um semideus, acho que foi aqui talvez a frase mais polémica de que Cristiano Ronaldo possa não gostar, porque quem viu, quem estava a ver a entrevista ficou bastante ‘uau, isto com certeza vai ser notícia em todo o mundo’. E pronto, e foi aqui o Salvador Sobral a querer promover o seu projeto musical, mas também a dar aqui umas alfinetadas no assunto do momento, que é o Cristiano Ronaldo.”
As críticas feitas fora de Portugal
Adriano Silva Martins questionou se o local escolhido para estas declarações poderia alterar a forma como seriam recebidas pelos portugueses.
“Mas eu lanço-vos aqui uma pergunta, porque isto acho que é uma coisa muito afetiva dos portugueses. Nós até podemos criticar neste momento o Cristiano Ronaldo, e nós até podemos achar que o Cristiano Ronaldo não esteve bem. Muitos portugueses acham que não esteve bem nesta situação, mas daí a ir-se para um programa de muita audiência no país vizinho, em Espanha, com a rivalidade que muitas vezes temos com Espanha, ainda por cima no mundo do futebol. O Salvador Sobral fazer estas declarações, eu não sei até que ponto isto pode cair bem e até não pode ser benéfico para o Cristiano, porque o português sente-se muito quando lá fora se diz mal dos nossos.”
Isabel Figueira voltou a comparar esta entrevista com outras aparições do cantor.
“Mas também parece que houve uma vontade maior na entrevista lá fora do que cá, e realmente o Salvador estava a falar de uma forma que nós não estamos habituados a ver. Era muito mais contido nas suas entrevistas e a falar ele aqui, não só a falar na vida pessoal como também neste tema, que é um tema que está em cima da mesa, que é polémico, deu estas duas alfinetadas a chamar ao Cristiano Ronaldo semideus, e a dar também esta frase polémica de Jorge Jesus.”
Guilherme Castelo Branco destaca papel de David Broncano
Para Guilherme Castelo Branco, o contexto humorístico do programa e a condução da entrevista ajudam a explicar a conversa.
“Eu acho que isto tem graça, que um homem que se chama Jesus, a frase em si, ‘quem diria que Jesus iria acabar com o cristianismo?’. É uma frase um bocado blasfémica, mas faz sentido no contexto em que é criada. É humor. Eu acho que isto tem duas leituras. Há a leitura, obviamente, do Salvador Sobral estar mais à vontade lá fora. Isso é um facto, efetivamente, porque nas entrevistas que ele dá cá é sempre mais contido, não fala muito da vida privada, também não estica muito os temas. Mas temos que perceber que o David também é um entrevistador que é inteligente. Ele pegou no tema da atualidade sabendo que ele é português, sabendo que muitos portugueses estão um bocado revoltados com esta situação, sabendo que isto vai dar audiências e meteu o tema. Ao ler a linguagem corporal e ao ler a própria postura do Salvador, percebeu que aquilo podia esticar um bocadinho mais e realmente esticou. Em relação à opinião, acho que não há muito a dizer, porque em Portugal a opinião está muito dividida, muitos defendem muito, outros estão muito contra. Percebe-se perfeitamente o que é que ele está ali a dizer. Acho que há ali coisas que são um bocado exagero, ele estar a fazer uma análise e dizer que ele tem o síndrome de semideus. Ele não é psicólogo para fazer essa análise, mas pronto, percebe-se porque é que ele faz essa análise.”
Expressão “semideus” divide comentadores
Isabel Figueira ressalvou que “também é a opinião dele e é válida”. Guilherme Castelo Branco respondeu que “quando se faz um diagnóstico já roça um bocadinho”.
Adriano Silva Martins discordou de que Salvador Sobral tivesse feito uma avaliação clínica.
“Mas espera aí, eu não acho que o Salvador Sobral tenha feito um diagnóstico, eu acho que ele fez uma apreciação. Aliás, eu também posso dizer que o Cristiano Ronaldo tem o síndrome do semideus, ok, é um termo muito específico. Mas posso dizer que ele fez uma birra.”
Guilherme Castelo Branco considerou ainda que a conversa beneficiou a divulgação do programa e do trabalho do músico.
“Mas eu acho que isto é uma junção das duas coisas. É o David a puxar para as audiências e o próprio Salvador Sobral, sabendo que está a fazer a promoção ao seu disco, sabe que isto vai ser mais falado. Obviamente que às vezes não está a ser falado pelo que ele quer especificamente, mas o ser falado leva a que as pessoas pelo menos vão ver o que é que ele fez, o que é que ele não fez, descobrem que ele foi o único português que ganhou a Eurovisão, vão se calhar ver o trabalho dele e se calhar ficam a conhecê-lo, seja pelas boas ou pelas más razões. Portanto, o objetivo deles foi concluído, sem dúvida.”
Reação da irmã de Georgina chega ao debate
O apresentador trouxe depois para a conversa a reação de Ivana Rodríguez, irmã de Georgina Rodríguez.
“O que eu acho graça é que a família de Georgina Rodríguez, António, já começa também aqui a assumir a tradição dos Aveiro. Elas já são umas Aveiro. Porque vêm reagir nas redes sociais a estas declarações do Salvador Sobral. Vale a pena recordar que a irmã de Georgina trabalha na TVE, ou seja, na mesma casa que David Broncano. E veio reagir nas redes sociais por causa da questão do jato privado. Pois claro, ela está a defender o que é dela”, afirmou Adriano Silva Martins.
António Leal e Silva concordou com a defesa familiar, mas centrou a sua crítica na forma como Salvador se expressou.
“Na defesa do cunhado, e acho que faz muito bem, porque as pessoas devem defender aqueles que são seus. E ela agora também acha que deve defender. O Salvador Sobral é assim, eu acho que aqui o grande problema, na minha opinião, por vezes não é o que as pessoas dizem, porque as pessoas estão no seu direito de dizerem tudo o que bem entenderem. O grande problema, que acho que é um problema não só do Salvador Sobral, mas de Portugal em algumas pessoas, é a forma como se diz. Nós podemos dizer tudo, o que varia e o que pode ser melhor ou pior é a forma. Ele escolheu a pior fórmula. Acho que ele entrou numa situação de ataque, numa situação de um comentário que eu acho demais para aquilo que se passa. Podia ter sido um pouco mais contido, até porque ele estava ali para promover o disco, estava ali para falar da vida dele. Foi-lhe perguntado, ele podia ser mais discreto naquilo que diz, mais subtil nas palavras, e podia ter dito a mesma coisa, mas com menos. Por exemplo, a alusão, agora já estou como a irmã da Georgina, a alusão ao jato, porque depois as pessoas vão sempre buscar o jato e vão sempre buscar a casa e vão sempre buscar o dinheiro. Porque há sempre essa coisa que me enerva imenso, que acho isso de muito mau gosto. E ele entra contra o Ronaldo, que não reagiu, vamos ver o que vai reagir. Ele está com interesse obviamente na conquista do mercado espanhol, que é um mercado super apetecível.”
“Não gostei da forma como ele disse”
Questionado sobre se considerava que Salvador estivera bem ou mal, António Leal e Silva distinguiu novamente o conteúdo do tom.
“Eu acho que ele esteve bem, acho que percebo o que ele diz, até subscrevo alguma opinião do que ele diz. Não gostei da forma como ele disse.”
Adriano Silva Martins leu depois parte da mensagem atribuída à irmã de Georgina, explicando que a referência ao avião privado motivara a resposta.
“Agora, voltando aqui à resposta da irmã de Georgina, ela toca aqui no ponto do avião privado. Fica muito incomodada porque diz que o capitalismo e o avião privado que menciona com certo desdém é que é muito mau. Diz: ‘Falas com desprezo. Não duvido que sejas um maravilhoso cantor, mas é a primeira vez na minha vida que te vejo e obrigado a que falas de um momento doloroso do Cristiano’. Ou seja, ela aqui vem a dizer que ele está a aproveitar.”
António Leal e Silva concordou: “Que ele está-se a aproveitar e ele não tem moral, no meu entender, acho que ele não tem moral para falar assim do Cristiano.”
Visibilidade da entrevista também esteve em análise
Isabel Figueira colocou uma pergunta ao painel: “A pergunta é: se ele não falasse sobre este tema, estávamos aqui neste momento a falar do Salvador Sobral?”
Adriano Silva Martins respondeu que o assunto tinha sido determinante para o destaque dado ao cantor.
“Olha, honestamente eu acho que não. E não seria a abertura do programa. Aliás, portanto, eu acho que esta é a segunda vez que falamos do Salvador Sobral em dois anos. O objetivo foi conseguido. Foi um bom golo do David Broncano, o apresentador, obviamente. Isto vai ser falado em todo o mundo. Porque é de uma relevância brutal. Ele promove o seu disco indiretamente. É outra a realidade. Eu até estou de acordo com aquilo que diz. E assim, quando vais a um tipo de programa como é este, que é um programa de conversa, de humor, obviamente tu não vais só falar de ti. E acho que isto é um tiro certeiro, não tenho nada a apontar. Acho, e eu já entrevistei o Salvador, que o Salvador é uma pessoa educada. Mas atenção, o Salvador acabou a Eurovisão e, desculpem a expressão, cagou de alto para a Eurovisão. E falou de uma maneira, quando chegou ao aeroporto de Lisboa, a dizer que queria que aquela gente desaparecesse quando ele chegou, quando ele estava a ser recebido como se fosse um ídolo. Ele também tem o síndrome um bocadinho e o nariz empinado.”
António Leal e Silva recupera declaração antiga
Na parte final, António Leal e Silva invocou palavras antigas que atribuiu a Salvador Sobral para justificar as críticas à sua postura perante o público.
“Eu posso repetir um comentário um bocadinho vulgar que ele teve? Que é um bocadinho vulgar demais, mas é da boca dele, não é minha. O Salvador deu-se ao luxo de dizer numa entrevista no momento em que as pessoas estavam muito felizes, Portugal, porque as pessoas estavam felizes não é só com o Salvador, é com Portugal. E às vezes as pessoas baralham Portugal e o amor que os portugueses têm a Portugal, com o amor que têm aos próprios. E ele disse: ‘ai, as pessoas aqui valem o que valem, porque mesmo, se eu der um peido as pessoas aplaudem’. Isto são palavras de Salvador Sobral, não são minhas. Eu acho isto de uma violência e de uma falta de respeito para com o público e para com Portugal assombrosa. Na altura falou-se, eu acho esta expressão, eu percebo quem quer perceber, mas acho que a forma como é dita, e outra coisa que a mim me faz impressão, peço desculpa se me quiserem crucificar, crucifiquem, eu detesto pessoas que se consideram detentoras da verdade absoluta, que se consideram que são muito humildes, mas depois consideram que estão num patamar superior.”
Adriano Silva Martins encerrou a discussão retomando a comparação entre o cantor e o futebolista.
“Que ele fala desde um patamar superior. Ele não é superior a ninguém. Quem é o superior? Cristiano Ronaldo, que o acusa por sua vez de falar com os outros ou ter atitudes de semideus. Ou seja, há aqui um duelo de titãs, de egos.”
