Serenella Andrade pensou desistir da televisão em momentos em que os projetos que propunha não avançavam. Ao assinalar 40 anos desde a estreia diante das câmaras, a apresentadora falou à Nova Gente sobre o percurso na RTP e a vontade de ter um programa de entrevistas.
Na conversa com Nuno Azinheira, Serenella recordou que trabalhou durante vários anos a receber ao dia, antes de entrar para os quadros da estação pública.
“Tenho de dizer que só entrei para os quadros da RTP a 1 de janeiro de 2000. Até aí, ganhava ao dia. E a primeira coisa que fiz quando entrei para os quadros foi concorrer a um concurso para assistentes de realização. Já era apresentadora havia 13 anos.”
A candidatura não pôde avançar por uma condição relacionada com o tempo de permanência nos quadros.
“E disseram-me que não podia porque não estava nos quadros há três anos. Eu já estava na RTP há 13 a fazer coisas. Houve alturas em que pensei desistir e tentei fazer outras coisas, como apresentar projetos e produzir programas, mas nada avançava. Olhando para trás, talvez tivesse de ser assim.”
A primeira experiência foi nos bastidores
Embora a estreia como apresentadora tenha acontecido em 1986, com «Histórias do Vitinho», Serenella já tinha trabalhado em «Prata da Casa», em 1980.
A oportunidade surgiu depois de ouvir uma conversa entre o pai, o realizador Luiz Andrade, e Fialho Gouveia.
“Ele perguntou ao meu pai se eu queria ser assistente, daquelas pessoas que estavam em cima do palco a mostrar as bolinhas. O meu pai respondeu que eu era muito tímida e não gostava dessas coisas. Eu ouvi e disse-lhe: ‘Assistente não quero ser, mas pergunta se posso fazer outra coisa’.”
Acabou por acompanhar os concorrentes, conciliando a experiência com os estudos.
“Precisavam de duas pessoas para acompanhar os concorrentes, fui falar com o produtor, Melo Frazão, e fiquei contratada. Trabalhava à sexta-feira depois das aulas e passava o sábado e o domingo inteiros no Teatro Villaret. Ganhava cinco contos por fim de semana. Os produtores brincavam comigo e diziam que ganhávamos mais do que eles.”
Anos depois, respondeu a um anúncio para assistentes de realização, mas não foi chamada. Ao procurar saber o que tinha acontecido, soube que decorria um concurso para apresentadores.
“Eu era supertímida e não me via nada como apresentadora, mas pensei: ‘Vou experimentar e depois mudo’.”
Carlos Pinto Coelho comunicou-lhe o resultado da prova, que incluía improvisar um programa em francês e em inglês.
“O Carlos Pinto Coelho chamou-me e disse que tinha gostado muito da minha prova, que incluía inventar um programa em francês e em inglês. Disse-me que ficava e que fosse dar um beijo ao meu pai ao camarim. Ainda acrescentou: ‘Tens de envelhecer dez anos’. Não fisicamente, claro, mas em maturidade.”
O reconhecimento na rua depois do «Vitinho»
Serenella foi a primeira apresentadora a contar uma história no arranque de «Histórias do Vitinho», alternando depois com Vera Roquette.
“Fui a primeira pessoa a apresentar a história no primeiro dia, alternando com a Vera Roquette, que também tinha entrado no concurso. No dia seguinte, saí à rua e houve uma rapariga que me reconheceu e disse: ‘Eu vi-te ontem’. Fiquei tão envergonhada! Foi assim que tudo começou.”
Ao longo do percurso, passou por formatos como «Casa Cheia», «Jogo de Cartas», «Verão Total» e os «Casamentos de Santo António». Hoje, identifica com clareza o projeto que gostaria de desenvolver.
“Gostei muito de fazer Casa Cheia e a Casa de Artistas. Se hoje pudesse escolher um programa, gostaria de fazer entrevistas.”
“Gosto de descobrir coisas novas”
A apresentadora recordou com particular satisfação a rubrica «Agora Memórias», do programa «Agora Nós», na qual preparava homenagens a figuras conhecidas.
“Eu fazia a pesquisa, escolhia as imagens e acompanhava a edição. Chegava a ouvir entrevistas antigas na rádio e a procurar informação que nunca tinha sido publicada.”
O contacto com familiares permitia-lhe acrescentar outras perspetivas aos retratos.
“Quando era possível, convidava familiares, porque eles traziam histórias que não conhecíamos. Foi o caso de António Variações, em que estiveram os irmãos. Gosto de descobrir coisas novas e de contar essas histórias menos conhecidas.”
Questionada sobre se já apresentou à direção da RTP a ideia de um programa de entrevistas, Serenella explicou por que deixou de insistir.
“Não. Houve uma altura em que pedia, pedia e pedia, mas depois nada acontecia e eu ficava triste. Decidi deixar andar e ver o que surge.”
Ainda assim, espera encontrar espaço para esse trabalho em novos projetos: “Sei que vão existir novos programas e que devo integrar um deles com rubricas, mas ainda não tive uma reunião para saber o que vou fazer. Gostava que pudesse haver espaço para algumas entrevistas. Hoje a televisão é muito diferente e até os programas da tarde estão a acabar.”
