Sérgio Conceição defendeu Francisco Conceição das críticas e afirmou que “o treinador tem sempre razão” ao comentar a reação do filho a uma substituição. Na mesma entrevista ao podcast “La Tripletta”, da Gazzetta dello Sport, recusou tomar partido no conflito entre Cristiano Ronaldo e Jorge Jesus, recordou as dificuldades que encontrou no Milan e deixou aberta a possibilidade de voltar a trabalhar em Itália.
A insatisfação de Francisco ao ser substituído por Luciano Spalletti no encontro da Juventus com o Celta de Vigo, na Liga Europa, levou o técnico português a distinguir a autoridade do treinador da frustração de um jogador que quer continuar em campo.
“Partamos de um princípio claro: o treinador tem sempre razão. Se o Spalletti achou melhor fazer essa substituição, teria os seus motivos. No entanto, também é preciso compreender a frustração de um jogador que queria dar mais”, afirmou.
“Quero sempre um jogador que tenha personalidade”
Questionado sobre se estaria a falar como pai, Sérgio Conceição garantiu que a sua avaliação era profissional. O treinador admitiu preferir uma reação de desagrado à indiferença, embora reconheça que esses episódios nem sempre sejam agradáveis de ver.
“Não, não, é o meu pensamento como treinador. Na minha equipa quero sempre um jogador que tenha personalidade e se zangue por ser substituído, em vez de um a quem não importa nada. São episódios que se veem frequentemente no futebol, talvez não sejam muito bonitos, mas também não devem ser empolados”, sustentou no podcast.
A defesa de Francisco estendeu-se à forma como o seu rendimento é avaliado. Com um golo e uma assistência em oito jogos, o extremo tem sido alvo de uma leitura que, na opinião do pai e antigo treinador, deixa de fora uma parte importante do trabalho que faz pela equipa.
“Há uma narrativa sobre o Chico de que não gosto. Ele é um extremo, não um ponta de lança. Todo o trabalho que faz, tanto a nível ofensivo como defensivo para os colegas, não é valorizado: cria superioridade, corre, dribla, abre espaços… Quando joga bem ou marca, diz-se sempre que pode dar mais, enquanto se não marca, chovem críticas. Tudo bem com a vertente dura, mas de vez em quando um pouco de elogio não faria mal. É o meu juízo como técnico e reparem que eu cheguei a treiná-lo. Porque como pai, pelo contrário, zango-me com ele sempre que remata e não faz golo”, acrescentou, entre risos.
Ronaldo e Jorge Jesus: “Não me parece justo tomar partido”
Sobre a polémica entre Cristiano Ronaldo e Jorge Jesus na Seleção Nacional, Sérgio Conceição adotou uma posição de reserva. O técnico reconheceu o peso dos dois protagonistas e afastou a possibilidade de escolher um dos lados.
“É um tema sensível no meu país. O Cristiano é uma lenda, um dos cinco melhores jogadores de todos os tempos. Por sua vez, Jesus é o selecionador, um técnico respeitado e com muita experiência. A sério, não me parece justo tomar partido por um ou por outro”, declarou.
O nome de Ronaldo voltou à conversa num registo mais descontraído, quando Sérgio foi desafiado a escolher o melhor extremo entre si próprio e Francisco.
“O Sérgio!”, respondeu, a rir, antes de acrescentar: “Mas o melhor continua a ser o Luís Figo.”
Perante a pergunta sobre se colocava Figo também acima de Cristiano Ronaldo, o treinador delimitou a comparação à posição em campo.
“Ai, esta é difícil. Mas, como extremo, talvez ainda escolha o Figo, um verdadeiro fora de série”, afirmou.
Entre o filho e a Lazio, um domingo de lealdades divididas
Sérgio Conceição estará nas bancadas para acompanhar o duelo entre Juventus e Lazio, este domingo. De um lado estará Francisco; do outro, um clube ao qual o antigo internacional português continua ligado.
“Se estivesse em casa, estaria pelo Francisco, porque a família é a família. Mas no estádio, quem sabe…”, brincou.
Ao analisar a temporada italiana, considerou que o Inter tem condições para voltar a conquistar o campeonato e destacou o arranque da Lazio, que partilha a liderança com os nerazzurri.
“É uma surpresa, até pelo clima que se vive em Roma. Sei dos problemas com os adeptos. Contudo, Gattuso tem estado excecional a transmitir logo uma grande energia. Basta ver como está a jogar o Nuno Tavares, que regressou a níveis de seleção. E o Frattesi foi uma excelente contratação. Estou muito ligado à Lazio e espero que consiga manter-se nos lugares de cima até ao fim”, sublinhou.
Milan não tinha “as condições ideais”
A passagem pelo Milan, na temporada 2024/25, mereceu também um balanço. Sérgio Conceição reconheceu que não encontrou a estrutura necessária para aplicar todas as suas ideias, mas valorizou os resultados alcançados durante os seis meses em que orientou a equipa.
“Infelizmente cada treinador precisa de uma estrutura societária de certo nível por trás, caso contrário torna-se difícil ter credibilidade perante os jogadores. Digamos que no Milan, na altura, não havia as condições ideais. Não me arrependo daqueles seis meses. Vencer a Supertaça e chegar à final da Taça da Itália, derrotando a Roma e o Inter foi fantástico. Aliás, ainda me entristece ter perdido essa final contra o Bolonha”, afirmou.
O treinador recordou ainda a distância em relação a Gerry Cardinale, proprietário do clube, e contou que só leu muito mais tarde a mensagem que recebeu depois da conquista da Supertaça.
“Quando eu lá estava, o Cardinale nunca foi a Milanello. Pensem que me mandou uma mensagem a dar os parabéns após a Supertaça, mas eu nem lhe respondi porque nem sequer tinha o número dele e só a li muito tempo depois. Ao Amorim, pelo contrário, conheço-o bem. Tivemos duelos acesos em Portugal, eu como treinador do FC Porto e ele do Sporting. Desejo-lhe o melhor em Milão”, declarou, deixando votos de sucesso a Ruben Amorim.
Regresso a Itália é uma possibilidade
Sem clube depois da saída do Al Ittihad, Sérgio Conceição não fechou a porta a uma nova experiência no futebol italiano.
“Por que não? Gostava muito. No passado, além do Milan, já tinha havido outras opções”, revelou.
A Gazzetta dello Sport associou essas possibilidades anteriores a Nápoles e Lazio. Para o treinador português, voltar a Itália permanece uma hipótese que encara com interesse, depois de uma primeira passagem pelo banco do Milan que terminou sem apagar a vontade de regressar.
