Sofia Ribeiro defende os seus caracóis e Nélson Lisboa responde à polémica dos Globos de Ouro, na tarde de hoje.
A escolha de Sofia Ribeiro para a passadeira vermelha dos Globos de Ouro deu origem a uma discussão sobre os limites da crítica de moda. Depois de Nélson Lisboa considerar que o cabelo da atriz trazia vulgaridade ao visual, Sofia respondeu com uma reflexão sobre os padrões impostos às mulheres. O criador de moda defendeu posteriormente que as suas palavras foram deturpadas.
Para a atriz, o penteado tinha também um significado pessoal: recuperar, com mais volume, os caracóis que sempre fizeram parte da sua imagem. Para o comentador, estava em causa a combinação dos elementos usados naquela ocasião.
Sofia explica a escolha do cabelo
Na publicação que partilhou nas redes sociais, Sofia Ribeiro recordou a relação com o seu cabelo e a decisão de o levar particularmente volumoso à cerimónia.
“O meu cabelo sempre foi muito encaracolado. Tinha muito volume, era muito cheio e forte. Até o perder e tudo bem. Vão-se os anéis, ficam os dedos. Nestes Globos escolhi levá-lo, maior do que alguma vez já tive. Mais encaracolados e exuberante que nunca. (…) E olha, senti-me maravilhosa!”
A atriz reconheceu que a escolha não tinha de reunir aprovação, mas contestou a associação entre caracóis e vulgaridade: “Claro que houve quem não tenha gostado e é ok. Só foi infeliz quem disse que devia tê-lo levado mais liso e ‘cuidado’, porque encaracolado dava um ar vulgar.”
A reflexão começou com uma crítica às expectativas colocadas sobre a aparência feminina: “Há qualquer coisa de profundamente triste na forma como ainda tentamos ‘ensinar’ mulheres a caber. Caber num corpo, numa idade, num comportamento, numa ideia de beleza. Até o nosso cabelo parece ter de obedecer a regras para sermos consideradas cuidadas, elegantes ou bonitas.”
A recordação das críticas na infância
Sofia Ribeiro relacionou a reação às palavras do comentador com experiências anteriores e com o efeito que apreciações semelhantes podem ter noutras mulheres.
“Em que momento é que decidimos que cabelo liso é sinónimo de elegância e que um cabelo cheio de caracóis e personalidade, pode ser confundido com desleixo? Quem escreveu essas regras? E porque é que tantas vezes as aceitamos como se fossem verdades universais? Isto não é sobre gostos. É sobre a menina que tinha vergonha dos seus caracóis, porque na escola lhe diziam que tinha o cabelo que parecia um ninho de ratos.”
A atriz afirmou ter ultrapassado essa insegurança: “Só que a menina já não tem vergonha nem dos caracóis, nem de nada. Porém, ainda há muitas meninas e mulheres que têm. E que todos os dias tentam libertar-se de padrões. Porque não querem ser aquilo que esperam delas, mas aquilo que verdadeiramente são.”
A mensagem terminou com um apelo: “(…) Que cada mulher possa escolher como quer aparecer, ser e estar neste mundo. Mesmo que não caiba no molde! Tenham um bom dia e deixem as pessoas ser o que quiserem e como quiserem.”
O comentário que desencadeou a resposta
A apreciação de Nélson Lisboa tinha sido feita no «Casa Feliz», durante a análise dos visuais dos Globos de Ouro.
“Ela tem um ar muito mais sofisticado com o cabelo liso. Acho exagerado. (…) O cabelo não a favorece, no meu entendimento. Tira-lhe o lado glamouroso que ela tem por natureza e atrevo-me a dizer que traz vulgaridade ao ‘look’, não a ela, mas ao cabelo”, afirmou.
O criador distinguiu a sua opinião sobre o vestido da avaliação do penteado: “Quando vi o vestido disse ‘brilhante!’, mas depois vi o cabelo, com aquelas extensões, e pensei: ‘Ai, meu Deus, o que é que ela foi fazer?’”
Nélson Lisboa diz que avaliou o conjunto
No «Passadeira Vermelha» de terça-feira, 29 de setembro, Nélson Lisboa reagiu à publicação da atriz e negou ter feito uma apreciação pessoal.
“São trazidos pontos para cima da mesa que deturpam aquilo que eu disse. Tenho um enorme respeito pela história que a Sofia possa ter passado, mas, enquanto comentador, não tenho de estar a olhar e a limitar-me a essa dimensão da Sofia, uma análise estética em nada tem a ver com a pessoa”, declarou.
O comentador considerou que parte da sua intervenção tinha sido ignorada: “Só interessa sublinhar aquilo que lhes interessa, efetivamente. A Sofia não menciona sequer que comecei por elogiá-la. (…) A minha crítica foi única e exclusivamente para a construção global do ‘styling’. Jamais em tempo algum, disse que o cabelo encaracolado era vulgar. Disse que o cabelo, naquele contexto, trazia vulgaridade ao ‘look’.”
Nélson Lisboa afirmou não conhecer Sofia Ribeiro, sustentando que a análise dizia respeito à opção estética apresentada na cerimónia.
Comentador invoca a liberdade de crítica
Na mesma intervenção, o criador de moda defendeu o direito de avaliar publicamente os visuais usados numa passadeira vermelha.
“Acho que a Sofia tem de ter um poder de encaixe maior e conseguir separar as coisas. (…) É importante dizer que a liberdade individual não pode excluir a liberdade de eu fazer uma crítica estética.”
Prosseguiu com uma referência à sua área profissional: “A moda, o design, arquitetura, cinema são áreas que não existem num vazio. Elas têm uma linguagem, um contexto, um peso cultural, sociológico. Aconselharia a Sofia, enquanto atriz, a debruçar-se sobre estes conceitos.”
“Sou licenciado em design de moda e professor de Moda, é só com base nisso que faço um comentário”, acrescentou.
Nélson Lisboa terminou rejeitando as interpretações atribuídas à sua intervenção: “Há uma coisa que eu não aceito nem à Sofia Ribeiro, nem a ninguém. É que me coloquem ideias sobre algo que eu não proferi e não expressei, há ali ideias que ela menciona sobre moldes, de encaixe e padrões de mulher que temos de ter algum cuidado e delicadeza a falar sobre isto.”
