Tânia Laranjo critica custo da habitação em Lisboa: “O luxo de ter um teto”, destacou a jornalista, nas redes sociais.
Depois de acompanhar uma manifestação, a jornalista partilhou os testemunhos de quem teme perder a casa e questionou uma cidade que considera cada vez mais orientada para os turistas.
As dificuldades de quem trabalha e não consegue suportar as despesas da habitação estiveram no centro de uma reflexão de Tânia Laranjo, publicada no Facebook. A jornalista relatou o que ouviu durante a cobertura de uma manifestação em Lisboa e prolongou a análise com observações sobre o percurso que fez pela cidade para regressar ao carro.
Entre rendas, salários e turismo, o texto deixou uma pergunta sobre as condições que restam a quem pretende continuar a viver na capital.
“Gente que trabalha e está em risco de ficar sem casa”
Tânia Laranjo começou por descrever o crescimento da concentração e as preocupações que encontrou entre os participantes:
“Eram muitos. Começaram por ser dezenas, depois centenas, depois milhares. Fui fazer a cobertura jornalística da manifestação e ouvi jovens e menos jovens a falar de coisas muito pouco revolucionárias: rendas impossíveis, custo de vida, combustível. Gente que trabalha e está em risco de ficar sem casa. O luxo de ter um teto começa a ser isso mesmo: um luxo.”
No mesmo relato, a jornalista contou um episódio que afirmou ter presenciado durante a manifestação, recorrendo à ironia para o comentar:
“Pelo meio, uma rapariga de cabelo verde tentou incendiar uma papeleira. Como ninguém aderiu, foi-se embora zangada. Há quem queira incendiar o sistema e acabe a discutir com uma papeleira. Não correu como tinha imaginado.”
Bandeiras da Palestina motivam reflexão
A presença de bandeiras palestinianas levou Tânia Laranjo a distinguir a solidariedade com aquela causa do tema que estava a acompanhar. Embora tenha manifestado apoio, questionou a introdução de outras reivindicações naquele contexto:
“Depois apareceram bandeiras da Palestina. Sou solidária com a causa, mas confesso a minha confusão. Estávamos a falar de Portugal. Das casas que não se pagam, dos salários que desaparecem antes do fim do mês. A solidariedade não tem fronteiras, claro. Mas eu estava ali a tentar perceber como é que os portugueses conseguem continuar a viver no próprio país.”
“Lisboa está a ficar muito boa para visitar”
A publicação prosseguiu com o regresso ao carro, estacionado no Martim Moniz. Nesse percurso, a jornalista descreveu uma cidade onde considera que os moradores ficam em segundo plano:
“Atravessei Lisboa entre o Intendente e o Rossio para voltar ao carro, estacionado no Martim Moniz. A cidade parece ter sido entregue aos turistas. Podem parar, fotografar, ocupar tudo. Os habitantes fazem o desvio, de preferência sem atrapalhar a fotografia. No parque, o cheiro era tão nauseabundo que pensei que faltava apenas uma guia a explicar a experiência olfactiva.”
Tânia Laranjo terminou recuperando os receios que ouviu durante a reportagem e contrapondo a experiência de visitar Lisboa à de nela habitar:
“No meio disto, ouvi gente com medo de ser corrida de casa. Lisboa está a ficar muito boa para visitar. Para viver, pelos vistos, é que começa a ser preciso visto, fiador e uma herança.”
