Tolentino de Mendonça alerta para a fé que exclui: “Uma máquina de reprodução do nosso próprio egoísmo”, referiu.
O cumprimento religioso pode coexistir com a incapacidade de acolher os outros. É sobre esse risco que José Tolentino de Mendonça reflete num excerto de uma homilia divulgado na página de Facebook com o seu nome, no qual apela a um olhar crítico sobre a forma como cada pessoa vive a sua crença.
A advertência vai além dos comportamentos habitualmente identificados como pecado. O cardeal propõe que os crentes interroguem também o uso que fazem da própria fé.
“Nós temos de ter um sentido crítico não apenas para com o pecado, mas também para com a crença porque, às vezes, a nossa crença é uma máquina de reprodução do nosso próprio egoísmo. É um clube de gente exclusiva e que exclui os outros da sua vida, do seu coração e que, de muitas maneiras, vai dizendo: ‘O inferno são os outros’.”
O zelo religioso que serve para excluir
Para desenvolver esta reflexão, Tolentino de Mendonça parte da figura do fariseu e das práticas religiosas que cumpria, reconhecendo o empenho que elas exigiam.
“O que faltava ao fariseu? ‘Jejuo duas vezes por semana’; ‘pagais o dízimo da hortelã, da arruda e de todas as outras ervas’ – os fariseus piedosos faziam isso. E nós sabemos que não é fácil.”
O problema, explica, estava na finalidade desse cumprimento e na maneira como se traduzia na relação com os outros.
“Atenção, este homem, objetivamente, tem muitos méritos do ponto de vista da piedade religiosa. A Lei mandava pagar o dízimo de um certo tipo de mercadorias. Ora, ele, por zelo, pagava o dízimo de tudo. Quer dizer, era uma pessoa que, na prática de piedade, na prática religiosa, era um cumpridor, era um fiel e tinha até um cumprimento acima da média. Mas o problema é: todo esse zelo, toda essa devoção, para que é que serve? Para que é que serve? No caso dele, servia para excluir os outros. Servia para dizer aquela célebre frase de Sartre: ‘O inferno são os outros’.”
“O nosso coração é porta blindada”
A partir desse exemplo, o cardeal chama a atenção para a autossuficiência e para a tendência de encontrar justificações para tudo, sem reconhecer as próprias limitações.
“Queridos irmãos, é um desafio muito grande para nós a humildade. Porque, às vezes, o nosso problema, e foi esse o problema dos fariseus, é perdermo-nos numa autojustificação. Isto é, nós temos explicação para tudo, sabemos tudo, percebemos tudo, vemos tudo e, nesta soberba, Deus não entra no nosso coração porque o nosso coração é pedra, o nosso coração é porta blindada, o nosso coração é um fecho de correr.”
Em contraponto, Tolentino de Mendonça apresenta o reconhecimento da fragilidade como condição para acolher o perdão e a misericórdia.
“Só quando estamos conscientes da nossa fragilidade e da nossa fraqueza, só quando percebemos até ao fim e até ao fundo quanto carentes estamos do perdão, da misericórdia e da ternura de Deus é que, de fato, essa misericórdia é derramada nos nossos corações.”
O apelo fica condensado numa repetição: “Humildade, humildade, humildade.”
A publicação inclui ainda uma passagem do Evangelho segundo São Lucas, identificada como Lucas 11,42: “… deixais de lado a justiça e o amor de Deus. Vós deveríeis praticar isso, sem deixar de lado aquilo.”
