Iñigo Quintero em Lisboa: a beleza frágil de um concerto que recusou ser espetáculo

Iñigo Quintero em Lisboa: a beleza frágil de um concerto que recusou ser espetáculo, na noite de ontem no LAV-Lisboa ao Vivo.

Texto: Rui Lavrador
Fotografias: Diogo Nora

Há noites que não se explicam – atravessam-se

Há qualquer coisa de difícil em escrever sobre um concerto como este. Não pela falta de matéria. Mas pelo contrário.

Porque há noites que não se deixam organizar em parágrafos limpos. Não cabem em estruturas perfeitas. Nem pedem conclusões fechadas.

O concerto de Iñigo Quintero no LAV – Lisboa ao Vivo foi assim. Irregular na superfície, profundamente coerente por dentro. Como se tudo estivesse ligado por um fio invisível – e ainda assim tenso.

E talvez seja precisamente isso que o tornou tão difícil de largar.

A simplicidade não é ausência – é escolha

À primeira vista, poderia parecer pouco. Um palco contido. Uma presença discreta. Uma abordagem sem excessos.

Mas não era pouco. Era tudo o que interessava.

Há artistas que precisam de preencher o espaço. Iñigo Quintero faz o contrário. Deixa-o existir. E depois entra nele com cuidado.

E isso exige mais. Muito mais.

Porque não há onde esconder hesitações. Não há distrações. Só fica o essencial – e o essencial, quando exposto, pesa.

O que acontece quando alguém canta como se estivesse sozinho

Há um momento em que se percebe que não estamos perante uma performance tradicional. Não há aquela necessidade de convencer. Nem de conquistar.

Há, sim, uma espécie de recolhimento estranho. Como se as canções não fossem lançadas para fora, mas puxadas de dentro.

Em Si no estás, isso tornou-se quase desconfortável na melhor forma possível:

“Y odio cuanto estoy / Lleno de este veneno y oigo truenos si no estás”

Não foi um momento pensado para impacto imediato. Foi mais lento. Mais interno. Mais difícil.

E, talvez por isso, mais verdadeiro.

A tensão que nunca explode – e por isso permanece

Ao longo do concerto, houve uma sensação constante de contenção. Como se tudo estivesse prestes a quebrar – mas nunca o fizesse.

E isso não é falta de intensidade. É outra forma de a construir.

Sálvame trouxe essa tensão para o centro do palco. Não como catarse fácil, mas como um conflito que já vem de trás:

“Sálvame / Que esto puede conmigo / Soy mi peor enemigo”

O mais curioso é que não houve libertação total. A música não resolve o que levanta. E isso deixa marcas.

Porque o público não recebe respostas. Fica com as perguntas.

O silêncio como matéria-prima

Há concertos onde o silêncio é intervalo. Aqui, foi linguagem.

Houve momentos em que a sala parecia suspensa, não por obrigação, mas por respeito. Um respeito quase físico pelo que estava a acontecer.

E isso não se pede. Conquista-se.

Em El sitio de siempre, essa relação atingiu um ponto raro:

“Haces que me sienta tan grande / Y haces que se erice mi piel”

Não houve aplauso imediato. Houve um segundo de atraso. Como se ninguém quisesse quebrar aquilo demasiado cedo.

Esse segundo diz muito.

Um alinhamento que respira – e não apenas avança

O alinhamento sugere uma sequência clara. Mas, ao vivo, não se sentiu como uma lista.

Sentiu-se como algo que respira.

De Estrella fugaz até Tiempo que paso contigo, houve uma progressão emocional que não se impôs. Foi acontecendo.

Canções como Despedida e Extranjero trouxeram deslocação. El equilibrio abriu espaço para reflexão. Lo que queda de mí deixou uma espécie de eco.

E depois há aquelas que ficam coladas à pele. Não por serem maiores. Mas por chegarem num momento em que já não há defesas.

Não há truque – e isso é o mais arriscado de tudo

Num tempo em que tantos concertos são construídos para impressionar, este recusou essa lógica.

Não houve clímax óbvio. Não houve explosão final. Nem tentativa de fechar tudo de forma limpa.

E isso é arriscado. Porque deixa espaço para o vazio.

Mas aqui, o vazio não apareceu. Ou melhor, apareceu – mas como parte do todo. Como algo necessário.

Iñigo Quintero em Lisboa: a beleza frágil de um concerto que recusou ser espetáculo

Talvez o mais importante não tenha acontecido em palco

Quando terminou, não houve sensação de conclusão. Houve outra coisa. Uma espécie de continuidade silenciosa.

Como se o concerto não tivesse acabado ali. Como se tivesse apenas mudado de lugar.

E isso é raro.

Porque a maioria dos concertos vive no momento. Este ficou depois dele.

Ficou nas frases que continuam a repetir-se por dentro. Também na forma como certas canções ganham outro peso horas mais tarde.

Ficou, sobretudo, naquela sensação difícil de nomear – de termos estado diante de alguém que não tentou ser mais do que é.

E que, por isso mesmo, acabou por ser muito mais.

Alinhamento

  1. Estrella fugaz
  2. Siempre lo mismo
  3. Despedida
  4. Extranjero
  5. Todo el tiempo del mundo (guit.)
  6. Será por ti
  7. Sálvame
  8. La torre más alta
  9. Amor
  10. El sitio de siempre
  11. Sobredosis
  12. El equilibrio
  13. Si no estás
  14. Lo que queda de mí
  15. Bajo control
  16. El tiempo que paso contigo
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Rui Lavrador
Rui Lavradorhttp://www.infocul.pt
Jornalista e Director Infocul.pt

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