UHF no LAV: ainda há bandas que não precisam de pedir licença

UHF no LAV: ainda há bandas que não precisam de pedir licença, nem serem óbvias naquilo que fazem.

Texto: Rui Lavrador
Fotografias: Carlos Pedroso

Um concerto que não vive da nostalgia

Há uma coisa que se percebe logo nos primeiros minutos de um concerto dos UHF. Não é nostalgia. Nem sequer é memória no sentido confortável. É outra coisa. Mais direta. Mais difícil de ignorar.

Ontem, no LAV, isso voltou a acontecer. O concerto chamava-se “Underground”, mas havia ali uma ironia evidente. Nada estava escondido. Estava tudo à vista.

Só que nem sempre se olha para o mesmo lado ao mesmo tempo. E talvez seja esse o verdadeiro “underground” desta banda.

Uma sala cheia que não precisou de aquecimento

O início foi seco. Felizmente, porque as músicas quando são boas, não precisam de artifícios. Sem construção de expectativa. Sem entrada teatral. Entraram, começaram, e rapidamente a sala percebeu o que vinha aí. E quando se diz que a sala estava cheia, não é apenas um dado. É contexto. É perceber que havia ali uma ligação real, construída ao longo de décadas.

Mais do que assistir, o público participou. Cantou. Respondeu. Esteve dentro das canções. E isso não acontece por acaso.

Um alinhamento que não facilita – e ainda assim resulta

Há bandas que vivem de dois ou três temas. Que precisam de os colocar estrategicamente para segurar a noite. Os UHF fizeram o contrário.

O alinhamento percorreu canções menos óbvias, fases distintas, temas que não estão no circuito imediato. E, ainda assim, ninguém saiu.

Não houve quebras. Não houve aquela sensação de “esperar pela próxima conhecida”.

Houve um fluxo contínuo. E isso diz muito sobre a consistência da obra.

António Manuel Ribeiro continua fora de qualquer molde

António Manuel Ribeiro é, há muito, um caso à parte. Não procura encaixar. Também não ajusta discurso. Não suaviza presença. Está ali, inteiro, a dizer as palavras como sempre disse. E isso hoje, num tempo de filtragem constante, quase parece deslocado.

Mas não está. Aliás, é precisamente essa frontalidade que mantém estas canções vivas.

Não foi passado – foi presente

A meio do concerto já não havia dúvidas. Aquilo não era uma revisitação. Era presente.

E isso levanta uma questão desconfortável, mas inevitável: o que é que se faz, enquanto país, com uma banda que continua assim?

Porque não se trata apenas de longevidade. Trata-se de relevância. E ontem isso esteve à vista.

Quando chegam as canções inevitáveis, percebe-se tudo

No encore, Cavalos de Corrida surgiu com o peso que já não precisa de ser explicado.

E António Manuel Ribeiro disse-o sem rodeios: “sem esta canção e sem vocês, não estaríamos aqui”

Não houve pose. Não houve construção.

Houve reconhecimento.

Pouco depois, Rua do Carmo trouxe outra ideia, igualmente direta: “a canção mais importante, porque provou que ‘Cavalos de Corrida’ não era um acaso”

E não era. Nem é.

O incómodo de quem nunca precisou de agradar

Há uma leitura que pode não agradar a todos, mas é difícil ignorá-la. Os UHF – algumas vezes – não são esquecidos por falta de qualidade. Nunca foram.

Mas também nunca jogaram o jogo mais fácil. Não seguiram tendências. Não se adaptaram para caber em formatos.

E isso, em Portugal, tem um custo.

Um reconhecimento que chega sempre com atraso. Uma valorização que raramente é plena.

Como se houvesse alguma dificuldade em aceitar quem construiu uma obra sólida, contínua e sem concessões.

No fim, ficou o que interessa

O concerto terminou sem necessidade de fechar nada de forma perfeita. Não houve grande despedida. Nem era preciso.

Ficaram as canções. Ficou a energia. Ficou aquela sensação clara de que há bandas que não precisam de se reinventar para continuarem relevantes.

Os UHF não estão a revisitar o passado. Estão a continuar. E isso, para quem esteve ontem no LAV, foi impossível de ignorar.

OS UHF são uma instituição dentro da música em Portugal e António Manuel Ribeiro – que ontem não tocou guitarra devido a uma lesão no ombro – continua a dar cartas, fruto de uma sabedoria e de uma inteligência raras. Pena ter nascido em Portugal. Somos um povo injusto com os nossos que são bons.

Alinhamento

  1. O truque é morrer cedo
  2. Acende um isqueiro
  3. Persona non grata
  4. Concerto
  5. Devo eu
  6. Tu queres
  7. Lisboa hotel
  8. Quebra-me
  9. Geraldine
  10. Puseste o diabo em mim
  11. Ébrios (pela vida)
  12. Tudo o que é nosso
  13. Noites lisboetas
  14. Jorge morreu
  15. Vernáculo (para um homem comum)
  16. Há rock no cais
  17. Estou de passagem
  18. Quero sair vivo (deste mundo menor)

Encore

  1. Caçada
  2. Cavalos de corrida
  3. Rua do Carmo
  4. Bora lá
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Rui Lavrador
Rui Lavradorhttp://www.infocul.pt
Jornalista e Director Infocul.pt

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