Morante abriu a Porta Grande numa noite em que o Campo Pequeno voltou a acreditar no impossível devido ao sevilhano.
Texto: Rui Lavrador
Fotografias: Diogo Nora
Lisboa esgotou o Campo Pequeno para ver Morante de la Puebla e acabou por tirá-lo em ombros no final da corrida. Dito assim, parece simples. Não foi. Entre o primeiro silêncio da noite e a abertura da Porta Grande, houve um caminho feito de pureza, inspiração, fracasso, juventude e uma sucessão de momentos que não cabem inteiramente num curto parágrafo.

A primeira das quatro corridas da temporada de 2026 começou com a praça recolhida. Cumpriu-se um minuto de silêncio em memória do médico que durante tantos anos esteve ligado ao Campo Pequeno e das vítimas do terramoto na Venezuela. Só depois a arena voltou a pertencer ao ritual.

Nas cortesias ouviu-se Catedral do Toureio a Cavalo. A música não foi um detalhe decorativo. Ao longo da corrida, marcou mudanças de temperatura, acompanhou triunfos e, por vezes, expôs ainda mais aquilo que faltou na arena.
Em cartel, anunciados António Ribeiro Telles, Fermín Bohórquez, Morante de la Puebla e Tomás Bastos. As pegas foram concretizadas pelo Grupo de Forcados Amadores de Santarém. Lidaram-se touros de Murteira Grave, Álvaro Núñez e La Cercada (substituindo os anunciados El Freixo).

A lotação estava esgotada. Também isso pesava. Não no sentido estatístico, mas porque uma praça cheia altera o som de cada ferro, prolonga cada passe e torna mais evidente a diferença entre quem apenas passa pela arena e quem consegue tomar conta dela.

Telles não alterou uma vírgula do seu conceito
António Ribeiro Telles abriu a corrida diante de um Murteira Grave com 570 quilos. Vestiu casaca preta bordada a ouro e trouxe consigo aquilo que Lisboa esperava dele: um toureio sem cedências ao efeito fácil.
A lide foi construída de frente, sem enganos e sem recurso a batidas ao pitón contrário. Telles não precisou de inventar uma personagem para chegar ao público. Bastou-lhe ser fiel ao modo como sempre entendeu o toureio a cavalo.

Deixou três ferros compridos antes de entrar numa série de curtos que foi ganhando espessura. O terceiro e o quarto tiveram maior expressão, com reuniões cingidas e o cavalo colocado onde a sorte exigia.
É neste território que António Ribeiro Telles continua a ser uma figura singular. O seu toureio não se tornou antigo. Tornou-se mais apurado. Os anos retiraram-lhe alguma pressa e acrescentaram-lhe domínio, conhecimento do terreno e uma serenidade que não pode ser imitada.
Ao contrário de tantos que procuram transformar cada ferro num número isolado, Telles lidou. Preparou, esperou e deu sentido ao que fazia. Não houve sobressaltos artificiais, nem necessidade de provocar uma reação a cada passagem.

A banda interpretou o pasodoble António Ribeiro Telles durante a lide. A escolha musical acompanhou uma atuação que viveu da identidade e não da surpresa.
Francisco Graciosa foi o primeiro forcado da noite. Entrou com decisão e concretizou a pega ao primeiro intento. Sem dramatização, sem prolongar o que estava resolvido.



Fermín passou por Lisboa e por cá nada deixou
Depois chegou Fermín Bohórquez.
O rejoneador espanhol lidou o segundo Murteira Grave, com 580 quilos, ao som de Corazón Hispano. E nem música merecia ter ouvido. O nome e o percurso justificavam expectativa, mas a atuação ficou bastante abaixo da importância do cartel.

Houve vários toques nas montadas, pouca limpeza e uma ausência quase total de construção estética. Bohórquez passou pela arena sem conseguir criar uma linha de toureio que prendesse a praça. Terminou com dois pares de bandarilhas, mas nem esse remate conseguiu alterar a impressão deixada.
Noite negativa do espanhol em Lisboa.

Salvador Ribeiro de Almeida enfrentou depois uma pega dura. Na primeira tentativa, o touro provocou uma cambalhota violenta, enquanto o forcado procurava manter-se ligado à cara do animal. Regressou para a segunda tentativa e consumou a sorte com galhardia.
O Grupo de Santarém teve uma noite segura. Francisco Graciosa resolveu ao primeiro encontro. Salvador Ribeiro de Almeida precisou de voltar, mas confirmou na repetição a coragem que já mostrara na primeira entrada.
Destaque para a volta do ganadeiro, Murteira Grave, autorizada pela diretora de corrida, após a lide do segundo touro.



Morante toureou a partir de um lugar que não se ensina
Morante de la Puebla apresentou-se vestido à antiga. Não era fantasia nem exercício de representação. Nele, esses códigos não surgem como uma cópia do passado, porque fazem parte da forma como escolheu estar no toureio.
Usou o traje que estreou no domingo de ressureição, em Sevilha, sobre o qual já aqui escrevemos.

Recebeu o primeiro Álvaro Núñez, com 475 quilos, por verónicas. Vieram depois chicuelinas e uma larga a rematar. Logo aí ficou claro que Morante não tinha vindo a Lisboa apenas para cumprir presença.
O touro não era bom. Faltava-lhe entrega, continuidade e aquela franqueza que permite ao toureiro desenhar sem estar permanentemente a corrigir. Morante teve de o inventar por momentos, escondendo as limitações sem fingir que elas não existiam.

Foi essa a grandeza da faena. Não houve facilidade oferecida pelo animal. Houve inteligência na forma como Morante lhe foi encontrando distâncias, corrigindo tempos e levando-o para onde a investida parecia não querer ir.
A técnica esteve sempre presente, mas não se apresentou como demonstração. Em Morante, quando as coisas acontecem, a técnica desaparece dentro da expressão. O público deixa de ver o mecanismo e fica apenas com a sensação. É a alma e toda uma panóplia que vai do carisma à espiritualidade, que José António encarna e transporta como ninguém.

A faena foi acompanhada pelo pasodoble Morante de la Puebla, estreado nessa noite no Campo Pequeno. Na volta, a banda interpretou Paquito el Chocolatero.
Morante deu uma volta com a praça levantada. Esse primeiro triunfo já teria bastado para justificar a sua passagem por Lisboa. Contudo, o essencial ainda estava por acontecer.


Tomás Bastos esforçou-se
Tomás Bastos enfrentou a seguir um La Cercada com 490 quilos. Era o primeiro dos seus dois novilhos, numa noite que marcava a despedida dessa condição, a de novilheiro, antes de uma nova etapa da carreira.
Vestido de cinza e ouro, mostrou vontade, mas encontrou um animal brusco, pouco repetidor e incapaz de sustentar uma faena com continuidade.

Tomás não se escondeu. Procurou, insistiu e tentou ultrapassar as dificuldades. Porém, nem sempre a vontade consegue corrigir o que o touro não permite.
Na lide ouviu-se música, mas faltou dança sincronizada entre novilheiro e novilho, aqui mais por culpa do novilho, destacando-se o esforço de Tomás.

Não foi uma atuação para ficar como grande referência da noite, mas também não foi uma passagem vazia. Tomás mostrou capacidade para permanecer diante das dificuldades sem transformar a falta de matéria-prima numa desculpa.


Morante de la Puebla pintou toda uma coleção, depois do quadro no primeiro touro
Morante regressou no quinto touro, outro Álvaro Núñez, com 480 quilos.
Desta vez, o capote teve menor expressão. Depois, o sevilhano pegou nas bandarilhas e o ambiente começou a mudar.
Fê-lo porque quis. Morante continua a ser um toureiro movido por impulsos que não parecem obedecer a um guião previamente estabelecido. Há noites em que essas decisões se perdem. Nesta, cada uma acrescentou qualquer coisa.

Bandarilhou com acerto e com uma composição que não anulou a eficácia. Ao som de Ecos de Aragón, voltou a deixar Lisboa presa à sensação de que qualquer detalhe poderia desencadear algo maior. Foi com a muleta que a corrida entrou definitivamente noutro plano.
Morante iniciou a faena de joelhos. A música surgiu quase de imediato. Flamenco y solo começou a ouvir-se enquanto o toureiro construía séries pela direita, passava para a esquerda e regressava ao toureio em redondo.

Não foi apenas a quantidade de passes. Foi a forma como cada série parecia nascer de uma disponibilidade interior difícil de explicar.
Morante toureia muitas vezes como se procurasse dentro de si uma imagem que só ele conhece. Quando a encontra, a praça reconhece-a mesmo sem saber descrevê-la.

Há nele uma dimensão espiritual, mas não no sentido fácil ou teatral da palavra. Não se trata de transformar a arena num altar, nem de ver misticismo em cada gesto. A espiritualidade de Morante está na relação com o tempo.
Enquanto outros toureiros aceleram para não perder o momento, ele parece querer suspendê-lo. Deixa que o passe aconteça sem o empurrar, espera pelo touro e aceita o risco de tudo se desfazer. É nessa fragilidade que o seu toureio ganha profundidade.

Naquela segunda faena, Lisboa não estava apenas a ver uma execução tecnicamente superior. Estava diante de um homem que conseguia tornar íntima uma praça esgotada. Morante prolongou o toureio pelos dois lados, sem perder ligação com o animal. Houve séries em redondo, naturais e momentos em que a muleta pareceu conduzir o touro com um carinho avassalador.
Quando terminou, o Campo Pequeno já tinha tomado a decisão.
Amparito Roca acompanhou as duas voltas à arena. Morante recebeu o reconhecimento de uma praça rendida, mas sem aquela histeria que tantas vezes substitui a verdadeira emoção. O público percebeu o que tinha visto. A Porta Grande estava conquistada. E bem conquistada. É um toureiro de época, deixando-nos a todos em suspenso com a possibilidade da sua retirada. O que sobrará depois dele?

Tomás Bastos não aceitou ficar reduzido ao papel de promessa
Ainda faltava o último touro. Tomás Bastos regressou diante de outro La Cercada com 490 quilos.
Entrar depois de Morante, com a praça ainda absorvida pelo que acabara de acontecer, não era tarefa menor. O mais fácil seria deixar a corrida terminar lentamente.

Tomás recusou esse lugar. Com o capote voltou a mostrar disponibilidade e potencial. Depois pegou nas bandarilhas e assumiu a competição com a irreverência de quem não está disposto a passar despercebido.
Deixou três pares. O terceiro, executado a quiebro, teve risco e importância. Olé, Manuel dos Santos, o pasodoble, acompanhou esse momento.
Tomás tem essa inquietação própria de quem ainda não decidiu até onde pode chegar. Por vezes, a juventude leva-o a querer resolver tudo depressa. Noutras, como aconteceu no último touro, permite-lhe reagir quando a noite parecia já ter encontrado o seu dono.

Com a muleta, a faena não começou no ponto mais alto. Foi crescendo à medida que Tomás compreendeu melhor o animal. Ajustou distâncias, encontrou maior continuidade e chegou ao melhor da sua atuação nas duas séries em redondo e numa tanda por naturais.
Prolongou um pouquito a mais a lide. Podia ter evitado. Na volta à arena ouviu-se La Puerta Grande.
O pasodoble acabou por servir dois destinos. A volta de Tomás e a saída que Morante faria pouco depois.

Tomás não roubou a noite ao sevilhano, nem precisava de o fazer. Conseguiu algo mais importante para a própria carreira: não desapareceu depois dele.
Mostrou personalidade, atrevimento e uma vontade que ainda precisa de ser amadurecida, mas que não deve ser domesticada em excesso. Tem apenas de corrigir algumas questões naturais da idade tenra, além de tornar o seu toureio mais suave, natural, com menos tensão corporal. O seu futuro dependerá da capacidade para transformar essa irreverência em construção, sem perder o instinto que o distingue.

Lisboa despediu-se com três formas diferentes de entender o toureio
António Ribeiro Telles abriu a corrida com o peso de uma tradição que não precisa de ser anunciada. O seu classicismo vive da frontalidade, da reunião e de uma fidelidade quase obstinada ao toureio puro.
Tomás Bastos fechou-a com a inquietação de quem ainda está a começar e não aceita esperar calmamente pela sua vez.
Entre os dois, Morante percorreu um território que não pertence inteiramente à razão.
O Campo Pequeno viu um toureiro tecnicamente capaz de resolver um animal limitado e, depois, um artista suficientemente inspirado para transformar a segunda faena num dos momentos da temporada.
A saída em ombros pela Porta Grande foi justa. Não resultou da soma automática de voltas, nem da força de um nome.
Morante saiu porque nesta noite tomou conta da praça. Levou consigo a imagem de Lisboa de pé, o pasodoble ainda a ecoar e a certeza de que há toureiros que não se limitam a fazer faenas. Alteram a memória de quem os vê.
Assim, no dia 16 de julho de 2026, o Campo Pequeno voltou a sentir isso.
