NOS Alive terminou entre a apatia de Don West e o regresso avassalador dos Buraka Som Sistema

NOS Alive terminou entre a apatia de Don West e o regresso avassalador dos Buraka Som Sistema, neste sábado.

Texto: Rui Lavrador
Fotografias: Diogo Nora

O Palco NOS abriu o último dia do festival com Don West e despediu-se com os Buraka Som Sistema. Pelo meio passaram muitas horas, vários concertos e milhares de pessoas, mas a distância entre as duas atuações foi bem maior do que aquela que o relógio poderia medir.

O músico australiano trouxe a Algés uma soul polida, tocada por instrumentistas de evidente qualidade, mas nunca encontrou o nervo necessário para conquistar um palco daquela dimensão. Já os Buraka regressaram depois de vários anos afastados e recuperaram, em poucos minutos, aquilo que sempre lhes pertenceu: o domínio absoluto da festa.

Don West apresentou-se com imagem, voz e talento suficientes para despertar curiosidade. Alto, bonito e facilmente apreciado pelo público feminino, e não só, teria à partida vários argumentos para ganhar quem começava a chegar ao Passeio Marítimo de Algés. Porém, o concerto ficou preso a uma temperatura morna, chegando mesmo a tornar-se uma seca em vários momentos.

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Os músicos foram quem mais se destacou, dando substância a canções que raramente conseguiram provocar verdadeira reação. O australiano tem uma voz agradável e sabe habitar o universo da soul e do R&B, mas isso não chegou para vencer a dispersão habitual de um festival nem para transformar curiosidade em entusiasmo.

Don West passou por Algés sem deixar uma memória forte

Ser o primeiro nome do Palco NOS nunca é tarefa simples. O público ainda circula pelo recinto, reconhece os espaços e decide onde quer ficar, enquanto o artista tenta chamar a si uma atenção que está dividida por muitos estímulos.

Ainda assim, os horários difíceis não podem justificar tudo. Don West apresentou um espetáculo correto, acompanhado por músicos capazes e servido por uma produção cuidada, mas faltou-lhe intensidade, risco e uma identidade suficientemente forte para ocupar aquele espaço.

A atuação decorreu sem grandes falhas, embora também sem qualquer momento capaz de alterar o rumo do concerto. As canções foram-se sucedendo dentro de uma linha demasiado semelhante, criando uma monotonia que a boa execução instrumental não conseguiu ultrapassar.

O músico australiano tem qualidades e poderá resultar melhor numa sala mais pequena, onde a proximidade ajude a sua voz e a natureza das composições. No Palco NOS, porém, nunca deixou de parecer alguém colocado num cenário demasiado grande para o impacto que conseguiu produzir.

Don West não comprometeu. O problema é que, num festival desta dimensão, limitar-se a não comprometer raramente chega para ficar na memória.

Os Buraka regressaram sem pedir tempo para recuperar o palco

Quando os Buraka Som Sistema entraram em cena, muitas horas depois, o ambiente era completamente diferente. O atraso de seis minutos pouco importou a quem enchia o Passeio Marítimo de Algés para assistir ao reencontro com um dos projetos portugueses mais influentes deste século.

“Hangover” abriu o concerto e desencadeou uma resposta imediata. Kalaf Epalanga, Branko, Riot, Conductor, Blaya e Andro Carvalho voltaram a reunir-se diante de um público que não precisava de ser convencido, mas apenas de receber o primeiro ritmo para começar a dançar.

“É noite para dançar”, ouvir-se-ia logo no início, embora nessa altura a frase já fosse quase desnecessária. O Palco NOS tinha deixado de ser apenas o centro de um festival e transformara-se numa enorme pista de dança, com portugueses e estrangeiros unidos por uma linguagem que os Buraka ajudaram a levar muito além das fronteiras nacionais.

Não se sentiu qualquer ferrugem provocada pelos anos de afastamento. A banda regressou coesa, segura e com a mesma capacidade para conduzir multidões, alternando música, coreografia e comunicação sem permitir que a energia caísse.

Uma festa que recuperou rapidamente os seus códigos

Blaya assumiu cedo o tom da atuação. Antes de “Stoopid”, deixou claro que ninguém devia esperar contemplação:

“Isto é mesmo para fazer a festa.”

As chamas projetadas a partir do palco reforçaram o impacto visual, mas a verdadeira força estava na maneira como o grupo mobilizava o recinto. Os Buraka não se limitavam a tocar para o público. Davam instruções, pediam resposta e transformavam cada tema numa construção coletiva. E toda a gente dançava, desde público, a funcionários de limpeza, polícias e até bombeiros. Completamente visceral, até inexplicável, diga-se.

Antes de “(We Stay) Up All Night”, apresentaram-se a quem eventualmente ainda não conhecia o projeto e recordaram aos restantes as regras da casa:

“NOS Alive, para quem não nos conhece, somos os Buraka Som Sistema. Para quem nos conhece sabe como a gente faz. Não vale ficar parado. Vamos ficar acordados toda a noite?”

Milhares de pessoas baixaram-se até ao chão e, segundos depois, saltaram em conjunto. Foi uma das imagens mais fortes da noite, não apenas pela dimensão, mas por mostrar que os códigos da festa permaneciam intactos e que a ligação ao público sobrevivera à pausa.

Lisboa recebeu de volta uma banda que ajudou a redefinir o seu som

O regresso tinha também uma dimensão afetiva. Andro Carvalho traduziu-a quando se dirigiu ao público:

“Sabe bem estar de volta a esta cidade, já sentíamos saudades disto. Eu acredito que não há festa como as de Lisboa. Acredito que não há festa como uma festa dos Buraka Som Sistema.”

A frase encontrou uma plateia disponível para confirmar cada palavra. Os Buraka nasceram de uma Lisboa plural, feita de encontros culturais que durante demasiado tempo permaneceram afastados dos grandes palcos, e tiveram um papel decisivo na mudança dessa realidade.

A entrada de Petty para interpretar “Yah!” recuperou uma parte essencial dessa história. Primeira vocalista do grupo, foi recebida com carinho e deu ao concerto um dos seus momentos mais simbólicos, lembrando que o percurso dos Buraka se construiu através de várias vozes, fases e cumplicidades.

Depois, “Eskeleto” e “Carnaval” devolveram a velocidade ao espetáculo. Antes deste último tema, o grupo agradeceu também aos técnicos e trabalhadores responsáveis pelo festival, reconhecendo quem permanece quase sempre invisível quando os artistas ocupam o palco e as luzes se acendem.

O kuduro voltou a mostrar que não conhece fronteiras

“Sound of Kuduro” confirmou a capacidade de sobrevivência de uma canção que atravessou países, públicos e gerações. O tema continua a ser um dos maiores símbolos internacionais dos Buraka Som Sistema e, em Algés, encontrou um recinto preparado para responder a cada batida.

Deize Tigrona chegou diretamente do Rio de Janeiro para interpretar “Aqui Para Vocês”, reforçando a ponte entre geografias que sempre fez parte da identidade do projeto. O momento ganhou ainda outra irreverência quando Blaya pediu à multidão que levantasse o dedo do meio, criando uma imagem pouco habitual no NOS Alive. Evitável, mas resultou.

A atuação não ficou, contudo, dependente dos sucessos antigos. “Puro Mambo”, primeiro tema inédito editado depois de mais de uma década de interregno, mostrou que este regresso pretende olhar em frente e não apenas visitar o passado.

Em “Tira o Pé”, o verso “A Buraka é dona do terreno” soou menos como afirmação e mais como constatação. Naquele momento, o Palco NOS e tudo o que se estendia diante dele pertenciam verdadeiramente ao grupo.

Sara Tavares foi lembrada sem interromper a celebração

A emoção encontrou lugar em “Voodoo Love”, com as lanternas dos telemóveis a iluminarem o recinto numa homenagem a Sara Tavares, que participou no tema e morreu em 2023, aos 45 anos.

A memória surgiu com respeito, mas sem impor uma solenidade artificial ao concerto. Era uma celebração de Sara através da música e da marca que deixou, integrada numa noite que nunca abandonou a vida nem o movimento.

Blaya continuou a demonstrar por que razão permanece uma das performers mais fortes da música portuguesa. As coreografias, o domínio físico do palco e o famoso twerk não foram acessórios colocados entre canções, mas parte de uma presença artística que ajuda a explicar a dimensão dos Buraka ao vivo.

Perto do final, Kalaf quis medir a saudade do público:

“Sentiram a nossa falta?”

O grito que recebeu como resposta pareceu suficientemente claro. Ainda assim, o músico brincou:

“É mentira. Vocês são uns gajos mentirosos.”

O humor antecedeu a entrada naquele que seria um dos momentos mais aguardados do concerto.

“Kalemba” confirmou o lugar dos Buraka na memória coletiva

Ricardo Araújo Pereira surgiu nos ecrãs gigantes a declamar a letra de “Kalemba (Wegue Wegue)”, preparando o recinto para um tema que há muito deixou de pertencer apenas à época em que foi lançado.

Os primeiros segundos foram suficientes para recuperar a euforia máxima. “Kalemba” continua a ser reconhecida por quem acompanhou o crescimento dos Buraka e por uma geração mais nova que recebeu a canção já como parte do património popular português.

A força do tema reside também nisso. Não perdeu a capacidade de provocar movimento, nem se transformou numa recordação datada de um período específico. Continua viva, física e imediatamente reconhecível.

“Zouk Flute” encerrou a atuação sem diminuir a intensidade. Não houve uma despedida demorada nem qualquer tentativa de prolongar emocionalmente aquilo que já tinha sido dito através da música. Os Buraka terminaram com o público ainda em movimento, deixando o festival exatamente no estado em que sempre souberam colocá-lo.

O NOS Alive fechou com quem sabe transformar diferença em força

Os Buraka Som Sistema não foram apenas um projeto de sucesso. Mudaram a forma como a música produzida em Portugal podia relacionar-se com o mundo, recusando fronteiras entre o kuduro, a eletrónica, o rap e os sons de uma Lisboa construída por muitas origens.

O regresso ao NOS Alive mostrou que essa linguagem continua atual e que a banda preserva uma identidade impossível de confundir. A memória teve lugar, assim como os convidados e as canções que marcaram uma geração, mas o concerto não cheirou a reunião nostálgica.

Houve futuro, vontade e uma energia demasiado intensa para pertencer apenas ao passado.

O último dia do Palco NOS começou com Don West, um músico talentoso que não conseguiu retirar a sua atuação de uma morna correção. Terminou com os Buraka a dominarem o recinto, a recuperarem uma história importante da música portuguesa e a provarem que o afastamento não lhes retirou o poder.

Entre a apatia do início e a explosão final, o festival encontrou dois extremos. No último deles, os Buraka Som Sistema voltaram a ser donos do terreno.

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