Rúben Pacheco Correia recorda infância marcada pelo excesso de peso: “Foi aí que apareceu a vergonha”

Rúben Pacheco Correia recorda infância marcada pelo excesso de peso: “Foi aí que apareceu a vergonha”, afirmou.

Rúben Pacheco Correia atravessa uma das fases mais exigentes do seu percurso profissional. Aos 29 anos, o escritor açoriano assumiu recentemente a condução das manhãs da CMTV ao lado de Luciana Abreu, num desafio que chega depois de um caminho pouco convencional, iniciado muito antes da televisão entrar na sua vida.

Natural de Rabo de Peixe, nos Açores, escreveu o primeiro livro aos dez anos, foi distinguido por dois Presidentes da República e chegou a ser recebido por um Papa no Vaticano. Por detrás da segurança que hoje demonstra perante as câmaras, porém, existe uma infância marcada pela timidez, pelo excesso de peso e pelas inseguranças que começaram sobretudo quando entrou para a escola.

Em entrevista à Nova Gente, Rúben Pacheco Correia revisitou esse percurso e falou também da importância das mulheres da família na construção da pessoa em que se tornou.

Rúben Pacheco Correia assume responsabilidade nas manhãs da CMTV

A televisão representa atualmente uma realidade diferente daquela que conhecia através da escrita. A exposição é diária e a exigência aumentou, mas o apresentador não esconde a satisfação pela oportunidade que recebeu.

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“Sinto, claro. É uma enorme responsabilidade, mas também um privilégio. A televisão é um desafio completamente diferente da escrita. Obriga-nos a estar permanentemente atentos, preparados e disponíveis. Estou muito feliz por esta oportunidade e por sentir que confiam em mim para um projeto desta dimensão.”

A naturalidade com que atualmente comunica diante das câmaras contrasta, no entanto, com o Rúben da infância. O próprio admite que sempre foi uma criança tímida e associa essa característica ao ambiente em que cresceu.

Filho de uma mãe muito jovem, foi o primeiro neto, bisneto e sobrinho da família e passou grande parte dos primeiros anos rodeado por adultos.

“Sempre fui muito tímido. Acho que isso tem muito a ver com a forma como cresci. A minha mãe foi mãe muito nova e eu fui o primeiro neto, o primeiro bisneto e o primeiro sobrinho da família. Cresci praticamente rodeado de adultos. Não tinha primos da minha idade, nem muitas crianças com quem brincar. Vivi sempre muito dentro daquele universo familiar, na casa da minha avó, em Rabo de Peixe, nos Açores. Só quando entrei para a escola comecei verdadeiramente a conviver com outras crianças.”

A expressão de Mota Amaral que nunca esqueceu

Mesmo reconhecendo essa reserva, Rúben Pacheco Correia recorda uma definição feita por Mota Amaral que acabou por guardar ao longo dos anos.

“Lembro-me de o professor Mota Amaral dizer, numa apresentação de um dos meus livros, que eu era um ‘falso envergonhado’. É uma expressão de que nunca mais me esqueci. Talvez tivesse razão. Sempre fui reservado, mas, quando me sentia confortável, conseguia abrir-me completamente.”

Foi precisamente a entrada na escola que lhe trouxe uma realidade diferente daquela que conhecia dentro de casa. O excesso de peso, que até então nunca tinha sido encarado pela família como algo que o tornasse diferente, começou a ser motivo de insegurança.

“As crianças podem ser muito cruéis”

Rúben não esconde que foi uma criança obesa. No ambiente familiar, contudo, sentia-se protegido e acarinhado, recordando até a forma como a bisavó Rosa associava a comida ao afeto.

“Sempre fui um miúdo gordo. Em casa isso nunca foi um problema [pausa]. Pelo contrário, era muito acarinhado. A minha bisavó Rosa, por exemplo, alimentava-me com pão e açúcar e aquilo era uma demonstração de amor. Na família, nunca senti que fosse diferente.”

A perceção do próprio corpo mudou quando começou a conviver diariamente com outras crianças.

“Foi aí que apareceu a vergonha. As crianças podem ser muito cruéis e comecei a olhar para o meu corpo de outra forma. Passei a sentir inseguranças que nunca tinha sentido dentro de casa. Hoje percebo que essa fase também ajudou a construir a pessoa que sou.”

Olhando agora para esse período com a distância dos anos, Rúben Pacheco Correia reconhece que as experiências menos felizes da infância também tiveram influência na personalidade que desenvolveu.

Mulheres da família foram as grandes referências

Se a escola lhe trouxe inseguranças, foi dentro de casa que encontrou o contraponto. A estrutura familiar de Rúben Pacheco Correia foi fortemente feminina e o apresentador não hesita quando identifica quem mais contribuiu para a sua formação.

“As minhas grandes referências são femininas. Cresci muito dentro desse universo familiar. O meu avô materno morreu muitos anos antes de eu nascer e, por isso, a minha infância foi passada entre a minha mãe, a minha avó, as minhas tias e a minha bisavó. Foram elas que me educaram e me deram os valores com que cresci.”

Entre a criança reservada de Rabo de Peixe e o comunicador que hoje assume diariamente um programa de televisão existe, assim, um percurso feito de escrita, reconhecimento público, inseguranças ultrapassadas e uma estrutura familiar que continua a ocupar um lugar central na forma como Rúben Pacheco Correia olha para a própria história.

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