Corrida de touros com lotação esgotada em Elvas numa noite em que Pablo Neruda teria sido feliz

Corrida de touros com lotação esgotada em Elvas numa noite em que Pablo Neruda teria sido feliz e quiçá inspirado.

Texto: Rui Lavrador
Fotografias: Carlos Pedroso

O Coliseu Comendador Rondão de Almeida, em Elvas, acolheu ontem a segunda corrida de touros integrada na Feira de São Mateus 2026.

Frente a touros de Passanha e São Marcos, atuaram João Salgueiro, Rui Fernandes e Marcos Bastinhas. As pegas ficaram a cargo dos Forcados Amadores de Montemor e dos Académicos de Elvas.

A corrida foi dirigida por Domingos Jeremias e José Miguel Guerra, com Nuno Massano no cornetim.

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Casa esgotada, todos os bilhetes vendidos. É o primeiro ponto a destacar. Essa mesma informação foi afixada nas bilheteiras do Coliseu, dada a quantidade de gente que ainda queria assistir à corrida e já não conseguiu.

Uma noite dura para os forcados

A noite foi dura para os forcados e começamos exatamente por aí.

Os últimos românticos – por vezes não tão românticos assim – tiveram por diante touros a pedir contas e nem sempre souberam resolver bem a função.

Por Montemor pegaram Vasco Ponce, que ontem fez a sua última pega. Resolveu ao terceiro intento, não muito bem ajudado pelos companheiros nas duas primeiras tentativas.

O cabo António Cortes Pena Monteiro e Joel Santos assinaram uma cernelha de bom nível.

E José Maria Cortes Pena Monteiro protagonizou, ao quinto touro, uma pega soberba à primeira tentativa. A melhor pega da noite, indiscutivelmente.

Pelos anfitriões, foram forcados de cara José Pedro Silva, numa grande e emotiva pega, aguentando como um herói uma valente carga na alegre e repentina investida do touro de Passanha, segundo da noite.

Miguel Sadio tentou por três vezes, sempre de forma arrojada, acabando por ser retirado de maca. João Carlos dobrou-o à primeira tentativa, a sesgo e com as ajudas carregadas.

Luís Carvalho fechou a noite com uma grande pega ao último touro da corrida, com todo o grupo a ajudar na perfeição.

Salgueiro entre o génio e o comum mortal

João Salgueiro não teve uma noite triunfal.

Assertivo no primeiro, mas sem chama, foi no segundo touro do seu lote que teve o momento de maior destaque, na segunda bandarilha curta.

Bem na preparação, bem na paradinha — parecida a Simão Sabrosa quando marcava penáltis — e com uma reunião muito cingida.

Foi o grande momento de Salgueiro na corrida.

Se Salgueiro fosse literatura, Neruda diria:

“É tão difícil as pessoas razoáveis se tornarem poetas, quanto os poetas se tornarem razoáveis.”

É entre o génio e o comum mortal que me parece atualmente viver artisticamente.

A quadra ainda não me parece totalmente pronta a responder ao conceito de Salgueiro. E o tempo talvez seja o melhor amigo para que tudo se ajeite.

Rui Fernandes voltou a Elvas para ser feliz

Rui Fernandes teve duas lides distintas.

Na primeira, enfrentou um touro complicado, com o qual nunca se acoplou verdadeiramente, mas manteve uma permanente vontade de fazer as coisas com estética.

Decidiu, apesar de a volta ter sido autorizada, não a dar. Atitude aplaudível e, na minha ótica, muito sensata e correta.

No segundo touro do seu lote, construiu uma lide fabulosa, aproveitando todas as grandes valias da rés da ganadaria de São Marcos.

Se na ferragem comprida já tinha estado bem, foi na série de curtos que o lado artístico começou a ser apresentado por todos os lados.

Cinco ferros curtos de enorme categoria, bem nas preparações das sortes, melhor a desenhá-las e a entender as distâncias, rematando-as com classe e, nas últimas, com cingidas piruetas.

Pablo Neruda escreveu:

“Algum dia em qualquer parte, em qualquer lugar indefectivelmente te encontrarás a ti mesmo, e essa, só essa, pode ser a mais feliz ou a mais amarga de tuas horas.”

Ontem, Fernandes decidiu ser feliz e fazer todos felizes. Ganharam todos.

Após vários anos sem atuar no Coliseu elvense, teve um regresso extraordinário.

E, tal como já anteriormente havia sido referido, este Rui Fernandes faz muita falta a atuar mais vezes em Portugal.

Está com uma belíssima quadra, tem uma estética toureira como poucos e argumentos para, mesmo perante os piores touros, não fazer das lides uma seca.

Enorme Fernandes ontem em Elvas.

Marcos Bastinhas: jogar em casa e saber o que a noite pedia

O terceiro cavaleiro da terna foi Marcos Bastinhas, a jogar em casa, perante as suas gentes, e com várias questões a terem de ser destacadas.

O cavaleiro usou a casaca que havia estreado na corrida do seu regresso, em Santarém: roxa, simples, sem grandes acessórios.

Quase como uma página em branco de um capítulo a ser escrito com aquilo que a vida nos dá.

Aquando da primeira lide, apeou-se do cavalo e brindou ao público. Na segunda, brindou a toda a sua equipa.

Em ambas as lides surgiram duas lonas nas trincheiras com a frase que o acompanhou este ano – “O silêncio também toureia” – acompanhada de um “Obrigado a Todos”.

Marcos quis homenagear o público e a cultura portuguesa, porque as lonas remetiam para a típica azulejaria nacional, um dos nossos patrimónios. Um artista além das arenas, com pensamento abrangente.

Pablo Neruda escreveu:

“A timidez é uma condição alheia ao coração, uma categoria, uma dimensão que desemboca na solidão.”

Eu acrescento que, quando o coração se solta, mesmo que o silêncio impere, é o amor que conduz a restante narrativa.

Na primeira lide, foi buscar o touro à porta dos curros, dobrou-se magistralmente com ele e desenhou uma atuação muito pausada.

O seu carisma natural rapidamente conquista o público – não apenas o de Elvas, mas também o das restantes praças onde atua.

Apesar de o touro se adiantar, Marcos foi levando a água ao seu moinho e, da primeira parte da corrida, é sua a melhor lide. Pelo menos, a mais coerente e acoplada.

Inteligência depois da lide de Rui Fernandes

Frente ao segundo touro do seu lote – e após a lide de Rui Fernandes – Marcos Bastinhas foi muito, mas muito inteligente.

Sóbrio, não apostou num vendaval que rapidamente criaria ali um vulcão emocional nas bancadas, mas antes em trabalhar toda uma lide, mudando os terrenos do touro e tentando dar outras variantes da sua conceção artística.

Culminou com um par de bandarilhas – marca da casa e a pedido do conclave – perante os aplausos da assistência.

Foi o término da sua temporada, depois do regresso às arenas.

E, citando Neruda:

“E a minha voz nascerá de novo,
talvez noutro tempo sem dores,
e nas alturas arderá de novo o meu coração
ardente e estrelado.”

Fazendo uma analogia com a frase que Marcos decidiu usar esta temporada – “O silêncio também toureia” – talvez Neruda, caso conversasse com o cavaleiro elvense, lhe respondesse com outra das suas frases:

“Não há silêncio que não termine.”

E talvez seja precisamente aí que esta temporada se explique. O maior triunfo é sempre a vida e aquilo que nela aprendemos.

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