Entrevista Why Portugal – Falta de dinheiro e equipas trava músicos portugueses lá fora: “Internacionalizar é caro”, foi referido.
Fotografia: D.R. – Why Portugal
Há artistas portugueses com qualidade para construir uma carreira internacional que não conseguem fazê-lo por falta de estrutura. Ana Rita Feijão, do conselho executivo da WHY Portugal, confirma-o em entrevista ao Infocul.pt e identifica dois obstáculos que continuam a pesar na passagem do talento à oportunidade: o financiamento e a existência de profissionais capazes de acompanhar os músicos.
“Sem dúvida. Ter qualidade artística é essencial, mas internacionalizar uma carreira implica muito mais do que fazer boa música”, afirma, quando questionada sobre os projetos que ficam pelo caminho apesar do seu valor artístico.
Num ano em que a WHY Portugal celebra uma década de atividade, a responsável fala de um trabalho que exige investimento antes de dar retorno e persistência depois de cada concerto. Uma atuação pode despertar interesse sem produzir uma contratação imediata. Uma conversa pode dar frutos apenas dois anos depois. E uma oportunidade pode perder-se se não houver quem responda, negoceie e prepare o passo seguinte.
Artistas acumulam funções que exigiriam uma equipa
A dificuldade em chegar a outros países não tem uma causa única. Financiamento, contactos, circulação e capacidade de organização estão ligados, mas há uma combinação que Ana Rita Feijão considera especialmente determinante.
“É difícil escolher apenas uma porque estão todas relacionadas. Mas diria que a combinação entre financiamento e estrutura profissional continua a ser particularmente determinante.”
Os custos começam muito antes de uma carreira no estrangeiro se tornar financeiramente sustentável. Para muitos músicos, esse esforço soma-se à necessidade de assegurar tarefas que vão além da criação e da atuação.
“Internacionalizar é caro. Implica viagens, alojamento, equipas, promoção e investimento durante um período em que o retorno financeiro pode ainda ser reduzido. Ao mesmo tempo, muitos artistas portugueses acumulam funções que, em mercados maiores, estariam distribuídas por managers, agentes, promotores, assessores ou outras estruturas profissionais.”
É neste ponto que a responsável situa uma parte importante da intervenção da WHY Portugal: apoiar quem sobe ao palco, mas também preparar quem trabalha para que os concertos aconteçam.
“É precisamente por isso que consideramos tão importante investir não apenas na circulação dos artistas, mas também na capacitação e internacionalização dos profissionais que trabalham com eles. Um ecossistema forte precisa das duas dimensões.”
A oportunidade não termina no convite para um concerto
Conseguir uma apresentação internacional é apenas uma das etapas. Para que essa presença tenha continuidade, há decisões e contactos que precisam de ser mantidos durante anos.
“É necessário construir estratégia, identificar os mercados adequados, estabelecer contactos, preparar materiais profissionais, fazer follow-up, negociar condições e, sobretudo, conseguir manter esse trabalho durante vários anos. É muito difícil um artista assegurar sozinho todas estas dimensões”, explica Ana Rita Feijão.
A falta de estrutura pode, assim, limitar a capacidade de transformar o interesse de um programador numa relação de trabalho. A qualificação dos profissionais portugueses tornou-se uma prioridade precisamente por essa razão.
“É também por isso que uma das prioridades da WHY Portugal passa cada vez mais pela qualificação dos profissionais da indústria. Quanto mais preparados estiverem managers, agentes, editoras, promotores e restantes estruturas portuguesas, maior será a capacidade de transformar talento artístico em carreiras internacionais sustentáveis.”
Programadores procuram identidade, mas também capacidade de resposta
Do lado de quem programa festivais e salas, a qualidade continua a ser indispensável. Porém, num mercado com uma oferta musical cada vez maior, é preciso conseguir apresentar uma proposta reconhecível e dar seguimento ao interesse que ela desperta.
“A qualidade artística é o ponto de partida, mas por si só não chega. Procura-se identidade, originalidade, uma proposta artística clara e, cada vez mais, capacidade para comunicar o projeto internacionalmente.”
A responsável chama a atenção para o que acontece depois da descoberta de um artista.
“Também é importante perceber se existe uma equipa ou estrutura capaz de dar continuidade às oportunidades que possam surgir. Um programador pode descobrir um excelente artista, mas depois é necessário haver alguém que responda, negocie, organize uma deslocação, prepare materiais e desenvolva uma estratégia para aquele território.”
A facilidade de acesso à música abriu possibilidades, mas também tornou mais disputada a atenção dos profissionais.
“Diria que hoje existe também muito mais música disponível e muito mais facilidade em descobrir novos artistas. Isso democratizou o acesso, mas aumentou enormemente a concorrência. Ter uma identidade forte e saber comunicá-la tornou-se ainda mais importante.”
Um concerto pode dar resultados apenas dois anos depois
O tempo é outro dos fatores que distingue a internacionalização de uma sucessão de atuações pontuais. Questionada sobre quanto pode demorar até um contacto se transformar numa oportunidade concreta, Ana Rita Feijão admite uma margem ampla.
“Pode demorar semanas, meses ou mesmo anos. É provavelmente uma das dimensões mais difíceis de explicar quando falamos de internacionalização.”
Nem sempre a ausência de um convite imediato significa falta de interesse. Por vezes, o calendário de quem programa não permite avançar naquele momento; noutros casos, a oportunidade chega através de uma recomendação.
“Um programador que vê um artista num determinado ano pode estar já com a programação seguinte praticamente fechada. Pode gostar muito do projeto, manter o contacto e só existir uma oportunidade adequada um ou dois anos depois. Também acontece um profissional recomendar esse artista a outro festival ou agente e o resultado surgir indiretamente.”
A continuidade permite que esses primeiros encontros se acumulem e abram caminhos mais regulares.
“Temos exemplos de artistas que acompanhámos nos primeiros passos internacionais e que, depois de várias apresentações, reuniões e contactos, começaram a construir circuitos regulares fora de Portugal. É um trabalho cumulativo. Por isso, a continuidade da presença portuguesa nestes mercados é tão importante.”
Sala cheia não é a única medida de sucesso
Essa demora obriga também a olhar de outra forma para os resultados de um showcase, um concerto de apresentação perante profissionais do setor. Contar espectadores ou contratos assinados logo após a atuação deixa de fora parte do trabalho.
“Um showcase internacional não deve ser avaliado apenas pelo número de pessoas na sala ou pela existência imediata de uma contratação. Naturalmente, queremos que daí resultem concertos, digressões, representação internacional ou outras oportunidades concretas, mas existem vários indicadores intermédios igualmente importantes.”
Para a WHY Portugal, importa perceber se o projeto chegou aos interlocutores certos e se há condições para manter a relação.
“Uma participação é bem-sucedida quando o artista consegue apresentar-se perante os profissionais certos, gerar contactos relevantes, iniciar conversas com programadores ou agentes, conseguir reuniões posteriores e criar condições para regressar àquele mercado. Muitas vezes, um showcase é apenas o primeiro passo de uma relação que se transforma numa oportunidade meses mais tarde.”
É por isso que o fim do concerto não corresponde ao fim da missão.
“Por isso, o trabalho da WHY Portugal não termina quando o artista sai do palco. O acompanhamento e o follow-up são uma parte fundamental do processo.”
Portugal já encontra oportunidades muito para além do fado
Se os obstáculos persistem, a diversidade de projetos portugueses com espaço no estrangeiro é uma das mudanças que Ana Rita Feijão destaca.
“Essa é precisamente uma das evoluções mais interessantes dos últimos anos. Portugal deixou há muito de ser internacionalmente reconhecido apenas pelo fado.”
As expressões musicais mais associadas à identidade portuguesa mantêm relevância, mas já não esgotam o interesse dos mercados internacionais.
“Continuamos naturalmente a ter uma enorme força nas músicas de raiz, no fado e nas diferentes expressões ligadas à nossa identidade cultural, mas hoje encontramos oportunidades internacionais para projetos portugueses de indie, rock, eletrónica, jazz, música experimental, hip-hop e muitas outras áreas.”
Essa abertura exige conhecer os circuitos adequados a cada proposta, em vez de procurar uma solução igual para todos os artistas.
“Cada género tem os seus próprios circuitos, festivais e mercados. Parte do nosso trabalho consiste precisamente em perceber onde cada projeto pode fazer sentido. Não existe uma única porta de entrada para a internacionalização da música portuguesa.”
Escolher um mercado implica saber quem está à escuta
A presença da WHY Portugal nos encontros internacionais parte dessa correspondência entre artistas, territórios e profissionais. O objetivo é identificar onde podem surgir oportunidades e quem tem capacidade para as concretizar.
“Há vários fatores. Procuramos, antes de mais, mercados que tenham capacidade para gerar oportunidades para artistas portugueses e eventos onde estejam presentes programadores, agentes, promotores e outros profissionais com poder de decisão. Depois, avaliamos a complementaridade com os mercados onde já trabalhamos, a diversidade de géneros representados e o potencial de continuidade.”
Nem todos os países são abordados da mesma maneira. Há relações que justificam regressos sucessivos e outras que precisam de um primeiro trabalho de aproximação.
“Também existe uma componente estratégica muito importante. Há mercados onde estamos presentes há vários anos porque sabemos que a consistência é fundamental: não basta aparecer uma vez. E há outros onde começamos por fazer prospeção, conhecer o ecossistema e criar relações antes de avançarmos para uma presença mais estruturada, com artistas, stand ou delegação profissional. A internacionalização constrói-se muito dessa forma: passo a passo e com uma visão de médio e longo prazo.”
França mostra como os contactos podem ganhar continuidade
Entre consolidar mercados conhecidos e procurar novos territórios, a WHY Portugal recusa escolher apenas uma direção.
“As duas dimensões têm de coexistir. Há mercados onde investimos há vários anos e onde queremos aprofundar relações e transformar contactos em oportunidades concretas. Ao mesmo tempo, precisamos de continuar a identificar novos territórios.”
Ana Rita Feijão aponta o trabalho em França como exemplo dessa passagem do reconhecimento inicial do terreno para uma presença mais consistente.
“Um bom exemplo é o trabalho que temos desenvolvido em França. Depois de uma fase de prospeção, avançámos para uma presença mais estruturada no MaMa Festival and Convention, no Les Transmusicales e no Babel Music XP, e temos vindo a aprofundar relações com profissionais e instituições francesas. Noutros territórios estamos ainda numa fase diferente de desenvolvimento.”
A responsável insiste que a expansão não pode implicar o abandono das relações já construídas.
“A estratégia passa por criar uma rede internacional cada vez mais sólida, sem abandonar os mercados onde já investimos. Internacionalização não significa estar todos os anos num lugar diferente; significa construir relações duradouras e, simultaneamente, saber onde podem surgir as próximas oportunidades.”
Ana Lua Caiano, MAQUINA e Expresso Transatlântico nas próximas etapas
O trabalho prossegue já entre 14 e 16 de outubro, no MaMa Festival and Convention, em Paris, com Ana Lua Caiano e MAQUINA. A presença na capital francesa antecede a passagem pela WOMEX, em Las Palmas, de 21 a 25 de outubro, com emmy Curl, Tó Trips e Fake Latinos.
As próximas etapas incluem também o BIME, em Bilbao, com Expresso Transatlântico, e o Les Transmusicales, em Rennes, de 2 a 6 de dezembro.
A diversidade dos projetos acompanha a estratégia descrita por Ana Rita Feijão: encontrar os espaços certos para diferentes propostas musicais e aproveitar cada deslocação para trabalhar relações que possam continuar depois do regresso a Portugal.
Dez anos de WHY Portugal: o resultado que importa deixar
No final de 2026, a responsável gostaria de poder identificar mais oportunidades concretizadas para os músicos portugueses.
“Gostaríamos, naturalmente, de poder apontar para mais artistas portugueses contratados internacionalmente, novas digressões, novos agentes ou parceiros e projetos que tenham conseguido entrar em mercados onde anteriormente não estavam presentes.”
Mas o balanço inclui também o trabalho que ainda não chegou aos cartazes e que pode vir a produzir resultados mais tarde.
“Mas há outros resultados igualmente importantes: mais profissionais portugueses com redes internacionais, relações consolidadas com programadores estrangeiros, maior presença portuguesa nos principais mercados profissionais e novos contactos que sabemos que poderão produzir resultados nos anos seguintes.”
Ao fim de uma década, a avaliação que Ana Rita Feijão propõe vai além dos números de uma temporada.
“2026 é também um ano particularmente simbólico para nós, porque a WHY Portugal celebra 10 anos de atividade. Mais do que olhar apenas para os números de um único ano, queremos perceber se estamos a deixar um ecossistema mais preparado para internacionalizar a sua música do que aquele que encontrámos quando começámos. Esse será provavelmente o indicador mais importante do nosso impacto.”
