Joaquim Nicolau recorda Almeno Gonçalves a partir de uma alcunha que os dois ganharam nas digressões, de tanto andarem juntos. Aos 62 anos, o ator contou a Daniel Oliveira o que ainda conseguiu dizer ao amigo antes de morrer. Na entrevista ao «Alta Definição», da SIC, falou também da morte da mãe, das perguntas que lhe ficaram depois de perder Pedro Lima e da vida que hoje divide com a mulher, a viver nos Açores.
“Nós éramos conhecidos pelos fichas de tripla (…) andávamos sempre juntos, partilhávamos muita coisa juntos”, contou Joaquim Nicolau. Foi ao tentar explicar o que perdeu com Almeno que fez uma comparação que ele próprio admitiu custar-lhe pôr em palavras.
“Isto é horrível o que é que eu estou a dizer. Deixou-me um vazio maior que o da minha mãe. É incrível isso. Sabes porquê? A minha mãe (…) viveu, viu os seus netos, os seus filhos (…) Apenas foi embora um bocadinho mais cedo (…) O Almeno fui eu, fui embora também. É estranho isto (…) Não estava a ir embora um amigo, é isso que eu sinto. Eu também me estava a ir embora”, disse a Daniel Oliveira.
A doença avançou depressa, mas os dois ainda puderam conversar. “O Almeno era muito lúcido. E posso-te garantir que dos melhores momentos da minha vida foram passados junto com ele”, afirmou. Da despedida, guardou estas palavras: “Fomos felizes (…) E disse ‘vamos nos encontrar’. E vamos. É artista, vamos ser todos pó, portanto o pó vai-se misturar.”
A mãe apoiou-o quando trocou a engenharia pelo teatro
Quando decidiu estudar teatro em França, Joaquim Nicolau pôde contar à mãe o que queria fazer da vida. “Eu tive a sorte de dizer à minha mãe (…) ‘sabes, eu já não vou fazer engenharia agrícola (…) eu vou ser ator’”, recordou. Foi ela quem mais o apoiou enquanto estudava em Paris, cidade onde também trabalhou como motorista do embaixador da Venezuela. De um encontro com um polícia, guardou a memória da intervenção do embaixador em sua defesa: “Fez uma das coisas que ficou-me para sempre na memória.”
A mãe morreu há cerca de duas décadas, depois de um acidente no campo. “A minha mãe tinha um problema de respiração, porque aquilo teve a ver com os produtos químicos que ela inalou sem querer, por causa de umas pulverizações. O vento mudou e ela foi apanhada nos brônquios”, contou.
Segundo o ator, no Hospital de Castelo Branco, o ventilador disponível foi destinado a um jovem que tinha sofrido um acidente de mota. “A minha mãe, por incrível que pareça, faleceu porque não havia um ventilador”, afirmou. Joaquim disse compreender a decisão de dar prioridade ao jovem: “Protege sempre a vida mais jovem e isso é o direito, que eu acho correto.” O que ainda hoje contesta é a falta de equipamento: “Não está certo é não haver mais ventiladores.”
“Foi uma amputação. Mesmo que nós tenhamos uma racionalidade de compreensão perante a vida (…) é uma amputação”, disse sobre a perda. “Foi o meu primeiro choque com algo em que tu ficas sem pé. Tipo do género, já não há. Já não há. É um vazio, é um abismo. É um abismo.”
Ao falar da morte, o ator recuperou a mesma imagem a que recorreu para descrever o reencontro com Almeno. “Eu não sou religioso nem católico, mas há um versículo da Bíblia que é fantástico (…) do pó vieste e ao pó hás de retornar. E isso, na minha concepção científica, está certo.”
A notícia da morte de Pedro Lima chegou durante as gravações
Joaquim Nicolau estava a gravar quando soube da morte de Pedro Lima. Via o colega como “uma rocha”, alguém “muito seguro”, e contou que a notícia lhe deixou perguntas sobre a dificuldade de falar do sofrimento, mesmo entre amigos.
“O Pedro causou em mim, não foi só a perda de um amigo, mas causou em mim a complexidade do pensamento. Tentei perceber as coisas, começou-se a gerar em mim o porquê, porquê, porquê (…) Porquê é que nós humanos tomamos estas atitudes? Porquê é que nós não falamos mais? Porquê é que não desabafamos mais?”, partilhou.
A vida com a mulher nos Açores
Há mais de 30 anos com a companheira, Joaquim explicou como os dois tomaram a decisão de viver à distância. “Ela como é professora, apareceu um projeto nos Açores e como ela é açoriana e a mãe dela também já agora beneficia da sua estadia lá (…) eu disse, ok, não há problema, vamos conciliar-nos”, contou.
Foi a falar de quem ficou na ilha que o ator recuperou o humor: “Ela tem um filho bastardo lá meu que ela tomou conta, que é o nosso cão.” Sobre o lugar que o animal ocupa na família, acrescentou: “É uma coisa que nos une tão bem, para além dos filhos e dos netos.”
Pai e avô, Joaquim disse querer “uma boa qualidade de vida”. Quando Daniel Oliveira o levou a falar do futuro, foi a proximidade de quem ama que o ator destacou: “O que me preocupa mais é nós perdermos o toque (…) Estar ali.”
