Os Relíquia entre o cante e o pop alentejano são três jovens a descobrir como construir uma carreira sem abandonar os estudos, a amizade e as referências familiares. Em entrevista ao Infocul.pt, António Engrola, António Marques e Luísa Engrola falam da passagem das primeiras atuações aos originais e da responsabilidade de levar uma tradição a novos públicos.
O grupo nasceu em 2024, depois de uma atuação na Taberna O Barranquenho, em Moura, e conquistou reconhecimento nacional com a vitória em «Estrelas ao Sábado», da RTP1, em 2025. Pelo caminho, aquilo que começou como uma vontade de cantar ganhou compromissos, decisões e uma identidade que os três querem continuar a desenvolver.
“Talvez a decisão mais nossa tenha sido acreditar neste projeto e escolher fazer o nosso próprio caminho. Somos jovens, temos referências e influências muito diferentes, mas sempre sentimos vontade de dar à música a nossa própria identidade, sem esquecer de onde viemos, das nossas raízes e de quem fez de tudo por nós”, explicam.
Essa vontade está também em «Outra Viagem», o segundo single original, lançado em junho depois de «Rosa de Santana». A história de alguém que escolhe um percurso próprio acaba por encontrar correspondência nas escolhas do grupo.
“Nem sempre sabemos o que vem a seguir, mas temos aprendido que vale a pena arriscar, sair da nossa zona de conforto e abraçar novas oportunidades. «Outra Viagem» acaba por representar um pouco isso mesmo: a coragem de seguir em frente, descobrir novos caminhos e acreditar naquilo que queremos construir juntos.”
Antes do grupo, a escola, a avó e o irmão
Quando lhes pedimos que recuem ao primeiro contacto com o cante, as respostas levam-nos a experiências diferentes, mas próximas de casa. António Marques encontrou na escola uma primeira oportunidade para cantar em conjunto, embora o percurso não tenha sido contínuo.
“A música sempre fez parte da minha vida. Durante a escola primária, tive a oportunidade de integrar um grupo coral infantil, onde nasceu o meu gosto por cantar. Mais tarde, acabei por me afastar um pouco desse mundo, mas a paixão pelo cante nunca desapareceu verdadeiramente.”
A vontade regressou através do irmão e consolidou-se com uma nova amizade: “Anos depois, vi o meu irmão a criar grupos e a minha vontade voltou. Mais tarde, conheci o António Engrola e, por brincadeira, começámos a cantar juntos. O que inicialmente era apenas uma forma de passar bons momentos acabou por dar origem a este projeto.”
Para António Engrola, a ligação ao cante tem uma natureza muito própria. Na sua perspetiva, há uma predisposição que não se adquire apenas através da aprendizagem.
“Na minha opinião, o cante não se ensina, ele nasce com a pessoa e não é toda a gente que o consegue fazer. Mas uma pessoa que me marcou no cante foi a minha avó paterna, pois mostra uma simplicidade no cante que me atrai e cada vez mais me faz querer cantar.”
Luísa Engrola cresceu a ouvir o irmão, António, antes de perceber que também queria participar nesse universo.
“Quem me inspirou no cante foi o meu irmão, António Engrola. Desde pequena, estava habituada a ouvi-lo cantar e só mais tarde comecei a demonstrar interesse pelo cante alentejano, também pelo fado e pela música popular portuguesa.”
A noite em Moura que não tinha um plano
A atuação na Taberna O Barranquenho tornou-se um ponto de partida, mas os três não a descrevem como uma estreia calculada. À época, não havia um projeto desenhado nem a expectativa do que viria a acontecer.
“Se pudéssemos regressar àquela noite, encontraríamos três jovens unidos pela música, a partilhar modas, sorrisos e uma cumplicidade que até hoje se mantém. Talvez já se notasse ali algo de especial, algo que o Luís Rico, o proprietário da taberna, conseguiu reconhecer desde o início.”
A ideia de continuar nasceu da própria experiência de estarem juntos: “A verdade é que nenhum de nós imaginava que aquela simples atuação pudesse dar origem a algo tão bonito. Não existiam grandes planos nem expectativas, apenas uma vontade de cantar e de aproveitar momentos.”
“Com o tempo, fomos percebendo que havia ali muito mais do que uma simples atuação: existia uma ligação, uma vontade de crescer e um sonho que, pouco a pouco, começou a ganhar forma.”
Mais tarde, a vitória no programa da RTP1 mudou a dimensão das oportunidades. Os convites trouxeram visibilidade, mas também exigiram outra preparação.
“Após a vitória no «Estrelas ao Sábado», começaram a surgir convites para atuações e também convites para a participação em programas televisivos. Com todas as experiências ao longo desse tempo, sentimos uma maior responsabilidade, passando a ser uma coisa mais séria. Levamos também muita aprendizagem, que queremos continuar a desenvolver.”
Preservar as modas antigas e experimentar o pop alentejano
O nome Os Relíquia sugere algo que se guarda. No caso do grupo, essa ideia passa pelas modas e pelos ensinamentos dos cantadores mais velhos, sem excluir a vontade de experimentar outros arranjos.
“Gostávamos muito de manter a tradição do cante alentejano e coisas que os cantadores mais velhos nos ensinaram, como, por exemplo, cantar modas antigas. Mas, por outro lado, gostávamos de passar para um patamar diferente, em que cantássemos uma mistura de pop com cante alentejano, ou seja, o mais conhecido pop alentejano.”
Essa aproximação já começou a ser testada e, segundo os músicos, encontrou recetividade em quem os acompanha.
“Quando iniciámos o nosso projeto, cantávamos 100% cante alentejano, mas quisemos experimentar este ano o famoso ‘pop alentejano’, que achamos que foi muito bem recebido pelo público, tanto nos concertos como nos nossos originais.”
Serem identificados como parte de uma nova geração representa uma oportunidade, embora também aumente o cuidado com a forma como apresentam a região.
“No meu ponto de vista, dá-nos uma liberdade de podermos expressar o que sentimos, mas, ao mesmo tempo, também pode causar-nos uma maior responsabilidade, por querermos representar a nossa terra, a nossa cultura e a nossa identidade de forma positiva.”
Ao falarem dos instrumentos e dos arranjos, não procuram uma explicação técnica para tudo o que fazem. Há escolhas que reconhecem pelo efeito que lhes provocam.
“Não consigo dar-lhe uma resposta em concreto, mas os instrumentos e os arranjos dão outro brilho às músicas e transmitem-nos um sentimento que não conseguimos explicar.”
Escrever em conjunto e escolher entre ideias diferentes
Em «Rosa de Santana», a letra e a música são de Dinis Mateus. Em «Outra Viagem», os três elementos participaram na escrita da letra com o autor, numa passagem que descrevem como uma consequência natural dos encontros para trabalhar.
“Essa passagem para a autoria acontece quando nos começámos a juntar para fazer músicas e a escrever todos juntos.”
Convidados a identificar uma passagem concreta da canção e o contributo de cada um, admitem não conseguir separar o processo dessa forma: “Quanto à outra pergunta, não lhe consigo responder muito bem, mas vamos tendo e expondo ideias que às vezes são melhores e outras vezes piores, e depois decidimos a melhor ideia entre todos.”
A escrita também não obedece, para já, a uma lista antecipada de temas. As histórias aparecem na convivência e na liberdade de cantar sem que tudo tenha um destino definido.
“A música e a sua escrita não são uma coisa planeada nem pensada com muita antecedência. São momentos que passamos entre amigos e familiares que nos permitem recordar histórias vividas, cantar várias canções e improvisar, inventando novas canções, como é o caso dos nossos originais.”
Essa criação coletiva implica opiniões diferentes. Luísa explica que procura defender as suas propostas sem perder de vista o entendimento entre os três.
“Não me recordo de nenhuma situação específica, mas, quando discordamos, partilho sempre a minha opinião e tentamos chegar a uma solução confortável para todos. Estas situações acontecem, nomeadamente, quando escolhemos os temas do nosso alinhamento ou na composição das nossas letras.”
O grupo reconhece que o acordo exige escuta, tanto na escolha do repertório como na construção de uma música.
“Como em qualquer grupo, nem sempre temos a mesma opinião. Somos três pessoas diferentes, com gostos e ideias próprias. Existem momentos em que discutimos diferentes possibilidades, seja na escolha de uma música ou num arranjo. No entanto, procuramos sempre ouvir a opinião uns dos outros e chegar a um acordo. Acima de tudo, estão a amizade que nos une e a vontade comum de fazer crescer este projeto.”
O que cada um ouve na voz dos outros
Quando a conversa se aproxima das vozes, as respostas tornam-se mais concretas. António Marques destaca a facilidade com que reconhece António Engrola, mesmo sem o ver.
“A voz do António Engrola tem uma identidade muito própria. Sempre que o oiço cantar, mesmo que não esteja a ver quem é, consigo logo identificá-lo. Tem umas voltas muito específicas e é uma voz que admiro muito, sem dúvida.”
António Engrola encontra no colega uma combinação de serenidade e força: “Para mim, a voz do António Marques é uma voz diferente, calma e muito característica dele, porque tem umas voltinhas que dão brilho à música. Ser uma voz calma não significa que não seja também uma voz potente.”
Luísa descreve o seu lugar no conjunto a partir dessa relação entre os três: “Sinto uma grande sintonia e que as vozes se encaixam, sendo natural encontrar o meu lugar.”
Levar novos ouvintes até aos grupos corais
Os originais podem chegar a pessoas que nunca ouviram um grupo coral alentejano. Os Relíquia gostariam que esse primeiro contacto despertasse também curiosidade pelo caminho feito por outros cantadores.
“Acreditamos que é muito importante conhecer e valorizar aqueles que, ao longo de gerações, mantiveram viva a tradição do cante alentejano. Temos uma enorme admiração pelos grupos corais, que são uma verdadeira referência e que tanto contribuíram para preservar esta cultura e esta tradição.”
A vontade de experimentar não elimina esse compromisso: “Enquanto grupo jovem, sentimos também que temos a responsabilidade de dar continuidade a esse legado e passar às novas gerações esta cultura e tradição. Não queremos esquecer de onde vimos, porque é precisamente aí que estão as nossas raízes.”
“Gostaríamos que quem nos descobrisse através da nossa música sentisse curiosidade em conhecer também os grupos e os cantadores que abriram caminho antes de nós.”
Os estudos e a possibilidade de dizer não
A carreira está a crescer numa fase em que continuam a existir outras prioridades. Entre ensaios, atuações e convites, os três procuram não comprometer os estudos, mesmo quando isso limita as oportunidades que podem aceitar.
“Tentamos conciliar sempre de forma saudável, sem prejudicar os nossos estudos. Sentimos, por vezes, algumas limitações em poder embarcar em todas as oportunidades, mas também entendemos que podemos ir calmamente e que teremos outras oportunidades que nos façam seguir aquilo de que gostamos.”
Quando lhes propomos imaginar um regresso à Taberna O Barranquenho daqui a dez anos, a resposta junta ambição e reconhecimento por quem esteve presente no início.
“Daqui a dez anos, gostaríamos de regressar àquele lugar com muitas histórias para contar, com a satisfação de termos concretizado sonhos, vivido experiências únicas e levado o nome d’Os Relíquia a muitos outros lugares. Gostaríamos de olhar para trás e sentir que todo o esforço, dedicação e paixão pela música valeram a pena.”
Acima dos resultados que possam alcançar, há um agradecimento que já sabem que gostariam de fazer: “Mas, acima de qualquer conquista, gostaríamos de voltar à Taberna e agradecer a todos, sem exceção, por todo o apoio desde o primeiro dia, por acreditarem em nós, por nos terem aberto as portas para os nossos primeiros passos e por nunca nos terem abandonado.”
