Leonor Seixas critica escolha de atores pelos seguidores quando o alcance no Instagram passa a pesar mais do que a preparação para um papel. No «The Leite Show», a atriz falou também da oportunidade que continua a procurar nos Estados Unidos. Se o convite chegasse agora, já sabe com quem faria a viagem: a filha, Júlia.
Há cerca de duas décadas que divide a vida entre Portugal e os Estados Unidos, país de que também tem nacionalidade. Quando Flávio Furtado lhe perguntou pelo peso das redes sociais nos elencos, Leonor reconheceu a vantagem para quem tem uma produção para divulgar.
“Claro que às vezes também são importantes os seguidores no Instagram, porque é uma realidade que nós temos hoje em dia. Ajuda nas produções, porque é uma promoção grátis. Agora, se isso for uma condicionante em maioria, acho uma tristeza, porque acho que não é assim que se contratam atores.”
A entrada de profissionais vindos de áreas como a moda ou a fotografia levou-a a defender o tempo de estudo que a representação exige. “Acho que é muito importante estudar, que é uma coisa que se está a desvalorizar. Acho que é importante cultivarmo-nos sobre o trabalho que nós queremos fazer. E acho que é uma maneira horrível de se banalizar a minha profissão deixar tanta gente entrar que não tem cursos, nem movimento cultural. Acho que é triste, a mim entristece-me imenso.”
O que acontece antes de um beijo em cena
A propósito dos beijos nas gravações, Leonor deu um exemplo do trabalho que o espectador dificilmente adivinha ao ver uma cena romântica. “Não há beijos técnicos, tu beijas. A técnica é mais mental, porque tem imensa gente, tem imensas câmaras, é tudo coreografado. É zero excitante.”
A conversa com o colega acontece antes de as câmaras começarem a gravar. “Normalmente eu falo com os meus colegas. Pergunto ou eles perguntam. Os beijos sem língua são sempre os mais bonitos. Tenho que fazer o que é melhor para a personagem, para a cena. Estar a dizer ‘queres beber café?’ ou ‘vamos beijar com língua ou sem língua?’ para mim é completamente normal.”
Foi em Portugal que a atriz encontrou a continuidade de trabalho que lhe permitiu viver da profissão. Ainda assim, vê com preocupação as condições em que hoje se faz ficção. “Sou muito grata a Portugal e muito grata por poder ser atriz, porque eu podia estar a tentar ser atriz nos Estados Unidos e ter que fazer outra coisa aqui, como muita gente. Mas também tenho que dizer que acho que é um país que não apoia a cultura, que não valoriza muito a cultura. Portanto, temos cada vez menos dinheiro, cada vez menos apoio, vai-se fazendo cada vez menos coisas, o que é estranhíssimo.”
A oportunidade que ainda procura nos Estados Unidos
“Continuo a batalhar pela minha carreira nos Estados Unidos, que eu queria muito, porque acho que lá se faz muito, faz-se bem, faz-se diferente. Além de que, por acaso, também sou americana e sinto mesmo que é casa”, contou Leonor. Pelo caminho, já conheceu pessoas com influência suficiente para lhe abrirem portas. “Há quem diga que a sorte é estar no sítio certo, à hora certa. Não! Eu já estive muitas vezes no sítio certo, à hora certa, com pessoas importantíssimas, e não aconteceu.”
Os testes de seleção continuam, contudo, a dar-lhe prazer. “Quando vou fazer os castings é uma oportunidade que eu tenho de estar a representar, nem que sejam dois minutos. Se querem, ótimo. Se não querem, ótimo também para outra pessoa, porque o papel não era meu. Para mim um não, não é um não. Nunca pensei assim, o papel é de outra pessoa.”
Se um desses testes lhe valesse um papel em Los Angeles, Leonor gostaria de levar Júlia consigo. “Pegava nela e ia logo, quem me dera. Obviamente tínhamos que falar todos, tinha que haver um apoio familiar, mas eu tenho sorte porque somos todos malta que viaja e que trabalha fora, portanto há uma gerência que poderia ser simpática.”
A pergunta sobre o pai de Júlia que Leonor ainda ouve
Júlia nasceu em 2023, quando Leonor tinha 42 anos. A atriz considera que o momento em que foi mãe lhe deu liberdade para escolher quanto tempo quer dedicar à filha.
“Acho que não mudei nada, acho que só a minha vida melhorou. Tenho conseguido equilibrar tudo muito bem. Também tenho uma miúda espetacular que me permite ser quem sou. Continuo a trabalhar, continuo a fazer as minhas coisas. De facto, tenho muito tempo dedicado a ela, mas é porque eu quero, porque eu fui mãe tarde. Engravidei aos 41, tive a minha bebé aos 42, portanto tive muitos anos para ser tudo e fazer tudo.”
O que passou a pesar nas suas decisões foi saber que a filha aprende com aquilo que a vê fazer. “Uma coisa que eu sinto que mudou um pouco é que eu não posso só falar do que gostaria de fazer, ou de ser, ou de ir. Eu sou, neste momento, um exemplo 100% do meu tempo. Portanto, eu tento muito cuidar do que sou e do que faço. Eu sei que ela vai copiar e sei que ela está a assistir e a ver, portanto, tenho essa responsabilidade. Eu gostava muito que ela gostasse de mim, que tivesse orgulho, mas o que eu quero é que ela seja muito feliz.”
Quando a conversa chegou à divisão de responsabilidades com Miguel Oliveira, pai de Júlia, Leonor lembrou uma pergunta que continua a ouvir. “Muitas vezes ainda hoje me perguntam: ‘Ah, e o pai da tua filha ajuda-te?’ Eu não sei se perguntam ao pai da minha filha se eu o ajudo. É uma coisa que está tão intrínseca ainda hoje em dia.”
Flávio Furtado observou que os dois têm as mesmas obrigações. “Exatamente, é a mesma coisa. Esta palavra ‘ajudar’ está ainda tão normalizada. E é nestas coisas que realmente estamos um bocadinho atrasados”, respondeu. Da gravidez e do nascimento de Júlia guarda, de resto, vontade de voltar a viver a experiência. “Adorava ter imensos filhos. Adorei estar grávida, adorei o parto.”
