A energia inteligente deixou de ser uma opção

Artigo de opinião de Basílio Simões, CEO da Cleanwatts Digital

A energia entrou definitivamente no centro do debate público nos últimos dias. Os recentes eventos climáticos extremos e as falhas no fornecimento de eletricidade registadas em vários pontos do país tornaram evidente que a transição energética deixou de ser apenas uma ambição ambiental para se afirmar como um imperativo económico, tecnológico e estratégico. A produção renovável cresce a um ritmo acelerado, mas o sistema elétrico europeu, e também o português, continua limitado por congestionamentos, volatilidade e falta de flexibilidade, fragilidades que se tornam mais visíveis em momentos de maior stress da rede. É neste contexto que três tendências estruturais convergem e ganham escala: o armazenamento de energia, a valorização dos dados e a aplicação prática da inteligência artificial.

O armazenamento, em particular através de baterias, assume-se como a infraestrutura crítica do novo sistema elétrico. Neste momento, as baterias devem deixar de ser vistas como tecnologia acessória e passam a desempenhar um papel estrutural na integração de renováveis. Estas permitem absorver excedentes de produção, reduzir desperdícios, aliviar congestionamentos da rede e fornecer flexibilidade em tempo real, fatores essenciais para reforçar a resiliência do sistema. Em mercados mais maduros, as baterias afirmam-se já como ativos económicos multiuso, capazes de participar simultaneamente em mercados de energia, serviços de sistema e mecanismos de capacidade, uma tendência que se generaliza nos próximos anos.

Esta evolução conduz a um segundo movimento determinante, a transição do armazenamento isolado para plataformas de flexibilidade. A agregação digital de baterias, produção renovável, cargas industriais e carregadores de veículos elétricos em Centrais Virtuais (Virtual Power Plants) torna-se essencial para lidar com a complexidade de um sistema cada vez mais descentralizado. Esta flexibilidade face ao que estamos a passar deve começar a ser um recurso valorizado, tanto pelos operadores de rede como pelos mercados, criando novas oportunidades económicas para empresas e indústrias capazes de disponibilizar estes serviços, ao mesmo tempo que contribui para mitigar riscos de falhas de abastecimento.

Paralelamente, os dados energéticos consolidam-se como um ativo estratégico. A generalização de sensores, contadores inteligentes e dispositivos IoT gera um volume sem precedentes de informação sobre produção, consumo e estado da rede. A diferença deixa de estar no acesso aos dados e passa para a capacidade de os integrar e transformar em decisões operacionais, sobretudo num contexto em que a antecipação de constrangimentos da rede é cada vez mais determinante. Plataformas digitais especializadas permitem cruzar dados técnicos, meteorológicos e de mercado, antecipando comportamentos e reduzindo ineficiências.

É neste ponto que a inteligência artificial assume um papel central. A IA deixa de ser apenas uma ferramenta de análise para se afirmar como motor de decisão autónoma no setor energético. Algoritmos avançados permitem prever produção renovável, antecipar picos de consumo, otimizar o carregamento e descarregamento de baterias e reagir, em tempo quase real, a sinais de preço e restrições da rede. A competitividade passa a depender da combinação entre inteligência artificial e conhecimento profundo do sistema elétrico, privilegiando soluções fiáveis, explicáveis e orientadas para resultados.

Estas tendências convergem num novo paradigma energético, sistemas descentralizados, digitais e flexíveis, suportados por modelos como Energy as a Service e Virtual Power Plants. Para países como Portugal, com elevada capacidade renovável instalada, esta transformação representa uma oportunidade estratégica para converter excedentes em valor económico, reforçar a segurança energética e acelerar a descarbonização da rede.

Podemos olhar para países como a Alemanha, com maiores dificuldades na produção solar do que enfrentamos em Portugal, onde vemos esta conjugação de fatores em ação. A Alemanha transformou uma tradição cooperativa do século XIX numa ferramenta de transição energética do século XXI. Com mais de 900 cooperativas energéticas ativas, envolvendo várias entidades e ativos energéticos, o modelo alemão prova que energia descentralizada e democrática pode funcionar em escala. O segredo está, maioritariamente, na articulação. Este modelo assenta na combinação de: legislação clara, financiamento favorecido, simplificação administrativa e um alinhamento perfeito de incentivos entre cidadãos, governo e utilities. Portugal tem todos os ingredientes para replicar este sucesso — melhor sol, tarifas mais altas, necessidade de resiliência. As cooperativas energéticas alemãs provam que a transição energética pode ser democrática, descentralizada, e economicamente viável simultaneamente.

Face às alterações climáticas em Portugal, o futuro da energia não será definido apenas pela quantidade de renováveis instaladas, mas pela inteligência com que são geridas. As baterias, apoiadas por dados e inteligência artificial, serão o elemento indispensável para transformar produção descontínua em sistemas energéticos mais resilientes, eficientes e economicamente sustentáveis. A descentralização não é só ‘verde’ — é segurança energética e proteção económica real para cidadãos.

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